Tuesday, November 13, 2007
Road to Nowhere
- Minha esposa...
- Não se preocupe com ela ainda. Isso aqui é o seu pesadelo, Bruce - o garoto sorriu - E ela, de qualquer forma, está mais protegida do que você pensa.
Deixando Bruce com suas perguntas, o garoto voltou-se para Moira.
- O meu trem pode fazer viagens terrestres, também. Ninguém vai desconfiar, mas temos que sair daqui agora. Todo mundo, Nicholas inclusive.
- Minha mãe nunca vai entender....
- Mamãe, ela vai entender perfeitamente. Furtos de veículos são comuns nesse nosso tempo imaginário. Até mesmo trens. Se está pronta...
- E os policiais? - Bruce gemeu de raiva.
Peter deu de ombros e voltou-se para Moira.
- Eu pensei que era o tempo que tinha deixado ele assim - e, para Bruce - Você prefere ser alvo fixo ou alvo móvel? Tem uma chance da gente ir preso, se formos até a estação. E a certeza de que vamos ser presos, se ficarmos aqui.
E, com um sorriso irônico.
- Quer dizer, vocês vão ficar presos. Eu vou acabar sumindo no ar, porque meu tempo aqui está contado. Como é? Vamos?
Wednesday, October 10, 2007
Defeito de fabricação
Era Bruce. Ele entrou discretamente, ignorando as muitas perguntas de Moira. Tratou de calar-lhe a boca com uma das mãos tão logo a porta foi fechada.
- Fui parado pela polícia – ele disse; estava mais calmo do que se presumiria.
Moira aquietou-se imediatamente. Perplexa, ela afastou a mão de Bruce.
- Parado? – perguntou. – Como assim? Por quê?
- Não sei. Talvez eu pareça mesmo suspeito. Quando deixei o pub comecei a andar e a andar e a andar. Acabei parando em um parque onde eu costumava... quero dizer, foi inconsciente. É engraçado... – ele começou a rir, mas depois abaixou a cabeça, envergonhado. – Não sei o que houve. Quando me dei conta, uma sirene quase me ensurdeceu e dois homens desceram de um carro que eu nem a menos tinha percebido. Talvez estivessem me seguindo desde sempre.
- E então?
- E então quiseram meus documentos.
Moira mordeu o lábio inferior.
- Isso não é bom.
- Eu disse que estava sem ele. Os dois começaram a rir: “Mas será que alguém realmente anda sem documentos hoje em dia?” Idiotas.
- E então?
- Pegaram a minha carteira. Os MEUS documentos, não os do outro Bruce. Eu soube no mesmo instante que passaria longos anos na prisão.
- Como conseguiu escapar?
Bruce balançou a cabeça.
- Só estavam rindo de mim. E então viram os documentos e entenderam que havia alguma coisa errada. Balançaram a minha identidade na minha cara e perguntaram o que era aquilo. Pensei em pelotões de fuzilamento. Estava visualizando câmaras de tortura – e, por algum motivo, John Hurt.
- Bruce, como saiu de lá?
Bruce fez uma pausa. Sentia-se angustiado como uma criancinha que subitamente descobre que Papai Noel não existe.
- Moira... eu desapareci – confessou.
- Você o quê?
- Eu desapareci. Por um instante, um ínfimo instante. E então reapareci em um lugar completamente diferente.
Ele segurou Moira pelos ombros e com total delicadeza a empurrou até a cozinha. Reduziu o tom de voz a um murmúrio:
- Lembra-se do que Wilcox dizia sobre pequenos problemas que estava enfrentando com as viagens temporais? Sempre quando ele nos encontrava repentinamente? Lembra-se? Eu acho que foi a mesma coisa. Talvez seja um defeito da máquina.
Moira precisou de alguns instantes para pensar. Ela lançou um olhar vago para a pia - a torneira pingava.
- E então veio correndo para cá?
- Vim correndo para cá. Mas não importa. Moira, bem ou mal, eles estão com a minha carteira. Minha identidade pode não fazer muito sentido, mas eles têm meu nome. Eu... eu tenho uma esposa.
- Eu sei.
- Fica ainda pior. Já imaginou o que pode acontecer se isso for levado a... autoridades mais competentes?
- Como assim?
- O misterioso homem que desaparece? Uma carteira de identidade que não está de acordo com a documentação deste presente? E se Gabriel souber de mim? E se a história for parar em jornais?
Uma perspectiva tão absurda não havia ocorrido a Moira. Ela imaginou o que faria Gabriel tendo o conhecimento de outros como ele. Pessoas que poderiam prejudicar sua carreira promissora no ramo dos ditadores.
- Não vão publicar nada no jornal. Eles controlam toda a mídia. Não deixariam uma informação do tipo escapar tão levianamente.
- Eu preciso voltar para Londres. Jessica. Talvez a procurem.
- Mas e o seu pai?
Só naquele momento Bruce se atreveu a desviar os olhos de Moira. Pouco a pouco ele se deu conta de que estava na casa em que havia passado sua infância.
- Minha mãe está aqui?
- Não. A casa estava vazia. Não sabemos para onde ela pode ter ido.
- Vim correndo para cá por instinto. É realmente engraçado que...
Não completou a frase. Notou que alguém se aproximava – era Peter. Bruce o encarou por algum tempo, confuso, e depois se voltou para Moira:
- Todos vão precisar sair daqui.
Tuesday, October 02, 2007
Duophenia, parte II - Dos desígnios do futuro
Nicholas não ofereceu resistência, pelo contrário - deixou-se arrastar pub afora como o mais doce dos carneiros de sacrifício. Stella e Peter ajudavam como podiam, mas era Moira quem fazia o maior esforço. Nisso tinha um pouco de Arthur Harris em si - a força quase sobrenatural que vinha quando se enfurecia.
O quarteto seguiu para a casa de Nicholas, na Red Lion Street. Em nenhum momento se considerou procurar Bruce pelas ruas. Era inútil - ele tinha fugido e a cidade era um quebra-cabeças; no entanto, ele sabia onde o pai morava. Em algum momento ele retornaria.
***
Stella se ocupou de Nicholas, enquanto Moira ficou com Peter em uma sala. O lugar estava lotado de mapas e livros - Bruce tinha puxado ao pai naquele aspecto.
- Então você veio do futuro - Moira começou a conversa, depois de se certificar que Stella não estava lhe ouvindo.
- Eu guardei todos os seus cadernos.
- O futuro é pior do que o presente?
- Prefiro não te dizer - Peter deu de ombros - A ignorância é uma bênção.
- Está bem. Só me diga como você reformou a máquina.
- Eu não reformei. Foi meu pai, quando ele começou a ficar maluco como esse tal Nicholas. Dizia que era preciso reencontrar um tal de Wilcox.
- Alphonsine Wilcox. Foi o homem que inventou a máquina.
Peter sorriu. Era bom finalmente ter descoberto a resposta para o enigma.
- Onde esse tal Wilcox se perdeu?
- Em algum lugar de um outro 2006. Gabriel Stuart o matou para usar a máquina.
Alguém bateu à porta. Moira e Peter se entreolharam.
- Se for a polícia, por favor fuja e fique viva - Peter sorriu, como se a cena fosse comum - Eu pretendo continuar existindo.
Wednesday, September 26, 2007
Do velho Nicholas
Tão logo reconheceu Nicholas, Bruce deu as costas ao grupo, nervoso demais. Considerou sair correndo do pub – só por alguns segundos – mas teria sido, ele logo pensou, uma imensa covardia abandonar Moira e a mãe à mercê de um bêbado e de um rapaz que pouco lhe inspirava confiança.
- Bruce? – a voz de Stella prenunciava o que ele não desejava ver.
Bruce se virou devagar. Lá estava seu pai, muito mais velho e deteriorado do que se lembrava. Quando era mais jovem, na época de sua morte, Nicholas já parecia velho em muitos aspectos – a bebida corroera quase toda a jovialidade que possuía. Mas nada preparara Bruce para o homem que de fato seu pai teria se tornado, o profundo olhar de desesperança, as marcas e cicatrizes de incontáveis brigas de bar. Nicholas, um homem que sempre fora alto, agora parecia frágil, curvado e letárgico, um ratinho no meio de homens.
- Pai – Bruce murmurou, sentindo os olhos queimarem.
Nicholas piscou algumas vezes, até reconhecê-lo.
- Ah, aí está você – ele disse, não com satisfação. Virou-se para Peter. – Você é o moleque chato. Amigo seu, Bruce?
Mas Bruce não conseguiria responder. Peter tomou a liberdade:
- Pode-se dizer que sim.
- É melhor voltarmos para casa, pai – agora Bruce parecia distante, mecânico como um robô.
- Voltar? Mas acabei de chegar.
- Não deveria estar aqui.
- Mas essa é muito boa. Venho aqui desde que me entendo por gente.
Ele colocou a mão no ombro de Moira, o bafo de álcool escapando através dos dentes amarelados.
- Venho aqui desde que conheço a Stella. Não é, Stella – sacudiu levemente Moira. – Você ainda é uma moça bonita.
Bruce somente balançou a cabeça.
- OK. Como quiser – e deixou o grupo sozinho, ganhando as ruas.
Tempo Futuro
- Nos fundos. Não é difícil. Ele soa como o filho dele.
Bruce fez uma careta de desgosto, enquanto Moira bateu no braço da mãe.
- Revéille-toi, madame Stella... Não estamos aqui para visita sociais.
- Oh, está bem. Quem é o garoto?
- Um amigo que veio de longe - Moira desconversou - O Nicholas?
Ele estava no fundo do bar, observando um copo vazio como se dali fosse sair a nova Teoria da Relatividade. Mal percebeu quando Stella, Moira e Peter se sentaram ao lado dele. Bruce ficou de pé, longe o suficiente para não ser notado.
Preferia ter morrido no caminho a encarar aquela cena.
- Nicholas, vamos para casa - Stella disse, com voz neutra.
Nicholas ergueu o rosto e um raio de luz iluminou seus olhos.
- Rebecca! Você veio me resgatar!
- Vamos embora, sim? Está ficando tarde.
- Mas eu mal cheguei. Deixe-me ficar mais um pouco - e, com um suspiro, ele observou Moira e Peter - Vocês podiam convencê-la. Você podia, Bruce.
Peter sorriu, abaixando a cabeça.
- Eu não me chamo Bruce. Vem, antes que nos expulsem. O tempo é curto.
- O tempo destrói tudo - Nicholas disse, mais para si mesmo do que para seus interlocutores.
- Eu já ouvi essa frase antes - Moira respondeu, levantando o pai de Bruce pelos ombros.
Em família
Bruce não compreendeu durante algum tempo, e estava a meio de caminho de perguntar outra coisa, em tom irritado, quando parou bruscamente, olhando para Peter como se visse um fantasma.
- O que ele disse? – perguntou.
- O quê? – Peter olhou para ele, divertido.
- Você a chamou de...
Ele não prosseguiu. Deu um passo para trás e balançou a cabeça.
- Esqueça. Não sei se quero saber.
Bruce segurou Moira pelo pulso e os dois entraram no pub. Peter os seguiu em silêncio, quase tão alto quanto Bruce e duas vezes mais estranho.
Stella, parada ao balcão, conversava animadamente com alguns homens, nenhum deles Nicholas. Bruce deu um suspiro.
- Bem, talvez ele não esteja aqui. Talvez tenha desmaiado no meio do caminho, ou em algum beco.
- Ele está aqui – Peter informou.
Bruce se virou para ele:
- Você e eu realmente precisamos ter uma conversa.
- Vamos, deixe-o em paz – Moira o interrompeu. – Só está querendo ajudar.
Ela e Peter se entreolharam e sorriram, como portadores de um segredo bastante engraçado. Bruce não notou, ou teria ficado com uma disposição ainda mais azeda.
Duophenia
Why was I born today?
Life is useless like Ecclesiastes say
I never had a chance
But opportunity's now in my hands (...)
My life's a mess
I wait for you to pass
I stand here at the bar, I hold an empty glass(Pete Townshend, "Empty Glass")
- Falta muito para chegar? - Moira perguntou, embrulhada no casaco.
- Mais um pouco - Bruce respondeu em voz alta e depois abaixou-se um pouco, para falar ao pé do ouvido de Moira - Lembre-se que eu estou navegando por instrumentos aqui. Você cresceu aqui, você me diz onde está esse bar.
- As ruas mudaram um pouquinho! Ah, vire ali. Red Lion Street.
A fachada e a barulheira do The Trooper surgiram como a luz de uma lareira, atraindo a atenção de Stella, que suspirou como se a visão lhe fosse tristemente comum. Moira olhou o prédio de alto a baixo - como o pub tinha decaído naquela vida paralela! Parecia mais uma fábrica abandonada, um prédio sobrevivente de uma blitz do que um bar e restaurante funcional.
- E pronto. Vejamos se o Nicholas está aí dentro - Stella disse, mais para si mesma do que para seus acompanhantes.
Antes que Bruce pudesse dizer algo, Stella marchara para dentro do pub, uma Rebecca sem medo dos monstros na caverna. Moira tentou impedi-la, mas a mãe simplesmente desapareceu como que tragada por um buraco.
- Sua mãe é teimosa, hein? - Bruce comentou com Moira.
- É mal de família - um rapaz na frente do pub comentou por alto.
Moira voltou-se para o garoto, que lhe cumprimentou com um gesto de cabeça.
- Peter - Moira sorriu.
- Você disse para eu vir te buscar, mãe.
Thursday, August 02, 2007
A estranha cria do tempo
Peter não era o tipo de pessoa que inspirava simpatia. Ele inspecionou Kirk com frieza, do pé direito ao topo da cabeça grisalha. Deu um sorriso repelente.
- Bonsoir.
- Amigo novo do Glen? – Kirk quis saber. –É um pouco jovem para...
Kirk não continuou. Peter parecia ter decifrado o que ele pretendia dizer e somente aumentou o sorriso. Sóbrio demais para ser um beberrão.
- Bem, meu nome é Kirk. Prazer.
- Peter. Você parece ser um sujeito decente, embora use costeletas assimétricas.
Kirk olhou para Nicholas, que somente balançou a cabeça; ele já havia desistido de tentar compreender o rapaz.
- Se não se importam – Nicholas começou. – A noite avança e estou morrendo de frio. Preciso me esquentar.
Peter não saiu do lugar em que estava.
- Não se esqueça de ligar para a sua esposa – disse.
Desconcertado, Nicholas, um pé já dentro do pub, voltou-se para encará-lo. Resmungou alguma coisa. Kirk deu-lhe um tapinha leve nas costas e o seguiu.
Peter permaneceu do lado de fora, olhando para o céu escuro.
Um homem com pé torto
Kirk saíra arrastando o pé direito, arruinado há tantos anos, pronto para encarar o ar gélido das noites de Norwich. Mais uma noite que descia. E lá vinha Nicholas, descendo a rua, os passos incertos e as mãos dentro dos bolsos do sobretudo surrado.
Todas as noites eram assim. Nicholas não falava coisa com coisa nem mesmo sóbrio; quando bêbado, virava um gênio incompreendido e um chorão de marca maior. Naquela noite, ele vinha lado a lado com um garoto de uns dezessete anos, cabelos castanhos, casacão de lã encardido.
Eram parecidos, Kirk pensou. Nicholas sempre falava do filho, Bruce, que morava em Londres. Mas o garoto que lhe acompanhava parecia bem mais jovem. Quem pode dizer se ese aí também não é dele? Os homens sempre aparecem com alguma novidade, Kirk riu para si mesmo.
- Boa noite, meu velho - Nicholas cumprimentou com um gesto de cabeça.
- Boa noite, professor - Kirk não perdia a oportunidade de mencionar o apelido de Nicholas - O jovenzinho aí, quem é?
- Ele? - Nicholas olhou para o lado, como se feliz de ver que não estava tendo alucinações - Ele disse que se chamava Peter.
Wednesday, August 01, 2007
Monstros
Quando desceram do trem, Bruce puxou discretamente o braço de Moira.
- Um maluco apareceu na minha sala de aula. Ele disse que se chamava Peter.
Moira não respondeu. Ela estalou a língua e pareceu ausente durante um ou dois instantes, como se procurando assimilar o que acontecia.
- E então?
- Sim – foi o que Moira disse.
- Sim? Quem é Peter? Porque eu sei, e Deus sabe, que existem muitos homens chamados Peter por aí, mas algo me diz que o Meu Peter e o Seu Peter são o mesmo Peter.
- O que estão fazendo? – Stella se aproximou. – A plataforma está ficando muito cheia.
Bruce notou o olhar quase faminto que alguns homens recostados na parede dirigiam ao trio. Ele não sabia o quanto as pessoas eram miseráveis naquele futuro, mas tinha uma vaga idéia. Empurrou levemente Moira para junto da mãe e caminhou ao lado das duas, afastando-se daquela área.
Bruce voltou-se para Stella assim que deixaram a estação:
- Onde fica o The Trooper?
- Mas você não sabe? – Stella perguntou, risonha.
A resposta pareceu entalar na garganta de Bruce. Ele grunhiu e deu de ombros.
- Bruce não foi criado em Norwich – Moira se apressou em dizer.
E então ela arregalou os olhos, ciente da própria gafe.
- Eu fui, é claro que fui, Moira – Bruce riu, levemente desesperado. – Mas eu saí já há muito tempo. Londres consumiu toda a parte do cérebro que eu dedico ao mapeamento mental de cidades.
Poderia existir uma desculpa pior? Um Bruce de dez anos ergueu a cabeça quando a porta foi aberta. O professor, perplexo, olhou para o garotinho – uniforme em ordem, ausência em classe não percebida: “Como conseguiu a chave desta sala?”; “Eu encontrei debaixo do meu travesseiro”.
- Sempre posso piorar as coisas.
- O que disse?
- Nada. Não seria melhor pegarmos um táxi ou algo assim?
Stella gargalhou.
- Você é engraçado, Bruce. Não confiaria a integridade física de nem mesmo um saco de açúcar a um táxi que circule por aqui.
Caminhar não seria um problema, Bruce decidiu. Ele precisaria de tempo para digerir o inevitável encontro com um pai que estava morto há mais de vinte anos.
- Está se sentindo bem? – Moira murmurou.
- Eu preferiria ter descoberto que sou casado com a Golda Meir do que precisar rever o meu pai. Apenas uma forma alegórica de demonstrar como eu me sinto no momento.
Wednesday, July 18, 2007
Est-tu là?
E como ela poderia? Naquele mundo paralelo, a vida quase sempre foi assim.
- Você acha que a gente vai encontrar alguma coisa? - Moira sussurrou para Bruce.
- O alguma coisa seria o Nicholas?
- Ajudaria... Mas estou pensando em algo além disso.
- Uma resposta para a equação?
- Ou um modo de sair desse pesadelo.
- Se o Nicholas existe, então tudo é possível.
- Tudo?
Moira pegou uma caderneta na bolsa e escreveu, na última página:
Ao futuro ou ao outro lado: Peter, se você está lendo isto, venha me resgatar! Norwich, 52.77, 1.35.
- Quem é Peter? - Bruce perguntou.
Moira demorou um pouco para responder.
- É o nome que eu quero dar ao meu filho.
- E porque você colocou esses números? Você acha que existe máquina do tempo no futuro?
- Para o nosso bem, é melhor que exista.
- O que você estão cochichando aí? - Stella perguntou.
- Nada, mãe.
Thursday, May 24, 2007
Caravana
- Honoria – Bruce respondeu, um pouco surpreso. Com a morte de Edward, não imaginava que Nicholas ainda fosse lembrado no círculo familiar.
- Eu conheci seu pai, quando éramos jovens. Há muito tempo que não o vejo.
- Provavelmente não acharia grande diferença se o visse agora.
Moira interrompeu:
- Já está anoitecendo.
- Se não se incomodam, eu gostaria de acompanhá-los – Stella disse. – Já estou adiando uma visita a Norwich há alguns meses.
Bruce e Moira se entreolharam.
- Se a senhora faz questão, mãe...
- Ótimo. Vou ligar para Roger e já venho. É rápido.
Quando Stella se foi, Bruce baixou o tom de voz.
- Será que é uma boa idéia?
- Eu não sei – Moira respondeu.
- O Prof Wilcox disse... – Bruce pretendia falar das vezes em que Wilcox visitara Nicholas, mas lembrou-se de outra coisa: – Espere. Será que o Prof. Wilcox está vivo?
Moira ergueu as sobrancelhas.
- Se o Wilcox do nosso presente morreu antes que ficássemos presos aqui, talvez o Wilcox deste presente ainda esteja vivo.
- Talvez. Mas como o encontraríamos? Suponho que cientistas como Wilcox não sejam muito populares nos dias de hoje.
Stella reapareceu, cessando a conversa. Ela sorriu.
- Ah, pronto. Tudo resolvido. Vamos?
Outro Ivanhoé
- Está. E sumiu em algum lugar de Norwich.
- Eu estou até com medo de pensar no que aconteceu, Bruce.
- Não menos do que eu!
Moira olhou pela janela. O trânsito na região de Liverpool Street tinha diminuido um pouco. Bruce, caído no sofá, parecia ter sido jogado por uma onda no meio da sala - pálido, exaurido, transtornado.
A campainha soou. Bruce sentou-se direito, começando a tremer. Pensava em ma invasão, em agentes do governo, em terminar como o personagem de Stephen Fry em V de Vingança. Mas quem estava do outro lado da porta era Stella, com um pacote de comida nas mãos que cheirava a açúcar candy e baunilha.
- Moira, ma petite, eu estava passando na padaria e resolvi trazer uma torta... - Stella olhou para Bruce, sentado no sofá - Ah, olá, você.
- Olá, senhora - Bruce cumprimentou.
- Mais qu'est-ce que se passe ici? - Stella encarou Moira, passando o pacote de aroma doce nas mãos da filha - O moço te trouxe para casa de novo?
- Não...Não desta vez... Mãe, o pai do Bruce está com problemas. Só isso.
- Ah. Está no hospital?
- Não, não. Ele...
- Sumiu - Moira completou - Completamente.
Stella voltou a olhar para Bruce, desta vez com um semblante compadecido. Deus sabia o que ela estava pensando que aconteceu, mas ela parecia compreender a dor do sumiço. Moira e Bruce se entreolharam em silêncio - as defesas da mãe de Moira tinham caído.
- Temos que ir para Norwich atrás dele, antes que algo pior aconteça - Moira disse.
- Norwich! Você é de Norwich também? - Stella parecia feliz por um minuto.
- Meu pai é. Nicholas Glendoning, a glória do The Trooper.
Stella arregalou os olhos. Por um instante, pareceu quase desmaiar.
- Nicholas Glendoning? Glendoning? Ivanhoé? - Stella abriu um sorriso triste - Diz uma coisa, garoto... Você é filho da Honoria ou de outra garota?
Poeira
Bruce não esperou pelo Estranho que o intimidara em classe. Tampouco comunicou à Moira o ocorrido; achava que ela já tinha sua própria cota de problemas para digerir.
Quando abriu a porta de casa, o apartamento parecia morto. Jessica dormia no sofá, mais uma caixinha de lenços de papel largada sobre a mesa de centro. Bruce caminhou silenciosamente até o quarto.
Seguiu-se o Conflito Interno, Bruce abrindo e dobrando a folha de papel que arrancara de uma lista telefônica. O nome de seu pai ainda estava gravado ali, recusando-se a desaparecer.
A porta se abriu.
- Já voltou? – perguntou Jessica, colocando a cara amassada pelo sono para dentro. – Sua mãe ligou.
Bruce guardou a folha dentro do bolso do casaco.
- É mesmo?
- Ela pediu para que você ligasse de volta.
Eu não sei o telefone da minha mãe, Bruce pensou. Como posso dizer isso a ela? Será que Rob ainda mora no mesmo lugar?
E, então, como se um raio houvesse atingido a cabeça de Bruce, as coisas ficaram insuportavelmente claras.
Será que Rob ainda existe neste presente?
- Bruce?
- Sim, eu vou ligar.
Bruce decidiu arriscar suas chances:
- Ela disse como está o meu pai?
Jessica enrugou a testa, pensativa. Sua expressão parecia mais séria.
- Ela não soou muito satisfeita – disse; e, sem maiores explicações, deixou o quarto.
Bruce ficou olhando para a porta, ouvindo o caminhar das muletas. Seus pais ainda eram casados ou não? E Rob?
Ele sentiu o estômago embrulhar.
E Finnegan? Finnegan também havia se transformado em poeira cósmica, como o Outro Bruce?
Decidiu que não podia permanecer daquela forma. Deixou o apartamento sorrateiramente, enquanto Jessica via televisão. Voltou após dez segundos, pegou o telefone e perguntou:
- Onde está minha agenda?
Jessica voltou-se para ele.
- Na sua pasta, eu suponho. Que, por sinal, não vejo há algum tempo.
Bruce Sobressalente levara a pasta e a agenda telefônica para o buraco negro.
- Não sei o número da minha mãe – Bruce disse, tentando parecer seguro. Muitos homens não sabem o telefone da própria mãe. Estatísticas poderiam provar. – De cor.
Jessica não pareceu surpresa. Ela informou o número. Bruce discou e sentou-se em uma das cadeiras da mesa de refeição. O telefone tocou duas vezes antes que alguém atendesse.
- Alô – era Honoria.
- Mãe – Bruce disse. E não conseguiu mais abrir a boca.
- Ah, Bruce. É você. Que bom que finalmente o encontro em casa. Onde esteve, ontem?
- Preso. No... metrô.
- O quê?
- Como vai, mãe?
- Bem. Seu pai não dormiu em casa, noite passada.
Bruce empalideceu.
- Ele me ligou de madrugada e não entendi nada do que disse. Não voltou a ligar, tampouco apareceu.
Não houve resposta.
- Bruce, está aí?
- Estou.
- Eu apreciaria se você passasse no Trooper por mim. Ou talvez na casa daquele homem, Kirk. Eu realmente não tenho paciência para bancar a babá do seu pai depois de quase trinta e cinco anos de casamento. Bruce?
- Sim.
- Sim?
- Sim, eu farei isso... o que me pediu. Quem é Kirk?
- Ah, o que eu não daria para não saber a resposta a essa pergunta – e Honoria desligou o telefone.
Wednesday, May 23, 2007
Vivre ou Survivre
Et pourtant il faut vivre
Ou survivre
Sans poème
Sans blesser tous ceux qui l'aiment
Être heureux
Malheureux
Vivre seul ou même à deux
(E no entanto é preciso viver
ou
sobreviver
sem poesia
sem machucar os que lhe amam
Ser feliz
infeliz
viver sozinho ou mesmo a dois)
--Daniel Balavoine, "Vivre ou Survivre"
Moira tinha uma aula vaga no meio da manhã e decidira sentar-se um pouco do lado de fora da sala dos professores. Sentia-se tonta e cansada, mais do que em qualquer viagem que tivesse feito dentro do vagão de Wilcox.
Então era aquela a sensação de morrer? Porque sentia-se como uma intrusa em uma história falsa. Bruce tinha razão - a Moira que tivera o amor de Stella e Arthur e Roger não era ela, era uma outra, que a maquinaria de Gabriel Stuart tinha destruído.
Não era justo com ninguém. Nem com a Moira órfã, nem com a outra, recém-destruída.
- E então, Moira?
Ela ergueu o rosto. Peter estava ali, observando-a. Não estava uniformizado. De qualquer forma, parecia um pouco velho para ser aluno do ginásio, embora não fosse ainda um adulto.
- E você é...?
- Me chamo Peter.
- É um bonito nome.
- Minha mãe também achava.
Ele colocou a mão na cabeça de repente. Moira sabia o que era aquele gesto - uma dor de cabeça infernal, como a dos viajantes do tempo. Sem perceber o que fazia, levantou-se depressa e agarrou o garoto pelos ombros, amparando-o.
Eles se encararam e Peter abriu um sorriso desarmado.
- Você sabe que isso dói pra caramba, não sabe?
- Como você chegou aqui?
- Eu não vou ter tempo de explicar agora.
- Diz pelo menos se você veio do futuro. Gabriel Stuart...
- Eu sei. Eu sei de tudo. Tente não entrar em pânico. Eu vim...
Outra onda de dor veio e ele se agarrou aos braços de Moira. O tempo era mais curto do que ele tinha programado.
- Malditos buracos no tempo. Você me espera?
- Aonde, meu Deus?
- Eu te acho. Não se preocupe. Eu sei bem mais do que você imagina.
E, como poeira, ele desapareceu por completo.
A Cidade dos Amaldiçoados
Bruce espiou a sala de aula. Os alunos estavam sentados, imaculados feito anjinhos. Todas as crianças da cidade vestiam o mesmo uniforme azul.
Tomando coragem, Bruce girou a maçaneta e entrou. Foi acompanhado por olhares inquisidores. Abriu uma das apostilas.
- Vamos falar de...
Ocorreu-lhe que, para sua própria segurança, melhor seria manter-se afastado de assuntos atuais.
- Vamos falar de Guy Fawkes – Bruce disse, rezando para que Gabriel não tivesse ido tão longe.
- Foi horrível.
O intervalo durava trinta minutos. Bruce estava sentado num canto isolado da sala dos professores, parecendo, sob todos os aspectos, miserável. Moira se aproximara.
- Era como se eu estivesse naquele filme em que as criancinhas da cidade são aberrações, e onde Christopher Reeve se sacrifica em uma explosão para impedi-las de dominar o mundo. Sempre achei que fosse um filme obrigatório para todos os professores.
- Não quer comer alguma coisa? – Moira perguntou.
- Não trouxe nada. Eu nem ao menos tenho dinheiro. Tentei encontrar um cofre secreto em casa, ou notas enroladas dentro de um pé de meia, mas tive receio de que minha esposa se convencesse de que eu estou louco – ele fez uma pausa, dando-se conta de quão estranho era dizer “minha esposa”. – Eu percebi uma coisa.
- O quê?
- Nós matamos nossos sobressalentes.
Moira ergueu as sobrancelhas.
- O Bruce e a Moira que viviam aqui. O Bruce que era casado com a Jessica, a Moira que era a irmã mais velha do Roger. Eles não existem mais. Desapareceram. Nossa existência neste presente acabou por eliminar a deles.
Ele balançou a cabeça.
- Sempre que Jessica olha para a minha cara, sabendo que algo está diferente, não consigo deixar de pensar que, mesmo sem ter a intenção, matei o marido dela. O Bruce que ela amava se perdeu em algum, não sei, redemoinho do tempo, e logo ela descobrirá que sou apenas o impostor.
Moira pareceu perturbada. Era difícil admitir que a vida onde sua família era viva e feliz pertencia à outra mulher.
- Há mais uma coisa – Bruce começou a dizer, mas não prosseguiu. O sinal tocou.
A sala de aula estava vazia. Bruce pegou o apagador e começou a limpar a lousa. Ouviu a porta se abrir.
- Vamos passar para a página 120 – ele informou, sem a menor convicção.
- Parece bom para mim – alguém respondeu, e a voz não pertencia a uma criança.
Bruce se virou. Um rapaz de cabelos castanhos estava ocupando uma das carteiras, pernas longas sobrando para os lados. A julgar pelo estado de sus roupas, parecia ter passado por maus bocados.
Bruce achou que o conhecia de algum lugar.
- Desculpe – disse. – Quem é você?
O estranho estalou o pescoço.
- Peter – ele respondeu. - Não entre em pânico.
- Peter – Bruce repetiu, desconsiderando o significado da recomendação.
Os alunos começaram a entrar. Encontrando o estranho, no entanto, estacaram.
- Você está sentado no meu lugar – um garotinho o acusou, após alguns segundos de silêncio.
Peter olhou para o garoto como se visse, ali, a mais inconveniente das criaturas.
- É mesmo? O que vai fazer? Me bater?
Antes que ouvisse mais protestos, Peter se levantou. Bruce notou que ele mancava um pouco.
- Vejo-o depois da aula, professor – Peter disse, retirando-se.
O medo de que estivesse sendo seguido por um agente do governo tomou conta de Bruce. O apagador tremia em sua mão direita.
- Vocês o conhecem? – Bruce perguntou.
Os alunos balançaram negativamente a cabeça.
No Pátio
Foi no pátio que Moira encontrou Bruce. Olhou em volta - ninguém estranhou que os dois se aproximassem.
- Professor também? - ela perguntou em voz baixa.
- Sim. Adivinhe.
- História? - Moira não conseguia imaginar outra profissão para o amigo.
- Eu estou me sentindo péssimo - Bruce rangeu os dentes - Você já leu os livros de História?
- Eu mal tive tempo de assimilar as mudanças mais próximas.
- Estamos numa teocracia, Moira. Numa ditadura cubana! Aliás, nessa alteração de tempo Fidel Castro não existe mais, é algo interessante. Estamos numa república praticamente totalitária! E Gabriel Stuart, o nosso Gabriel, é a figura central. Tipo Atatürk na Turquia. Ou, sei lá, Saddam Hussein.
- Eles ainda existem?
- Eu não fui conferir ainda.
O primeiro sinal tocou, alucinado. Alunos começaram a correr. Professores dirigiam-se à sala de aula.
- E a senhora Glendoning?
- É ruiva. Chama-se Jessica. É enfermeira.
- Você se arranjou com uma enfermeira?
- Não era meu fetiche, se é isso o que você quer saber.
- Acredite, eu não quero - ela deu de ombros - Porque pelo visto continuo tão encalhada quanto antes.
- Melhor que ter que dividir a cama com uma completa estranha, eu acho.
Monday, May 14, 2007
Jessica
Bruce tocou a campainha apenas uma vez. Teve ímpetos de sair correndo, mas a porta foi, então, durante o tempo que gastou lutando contra os próprios princípios, aberta por uma moça ruiva. Ela sorriu como uma criança teria sorrido caso encontrasse uma cesta cheia de filhotinhos à sua mercê, no meio do corredor.
- Ah, aí está você – ela disse, e o beijou.
Sou casado, Bruce repetiu para si mesmo, sentindo lábios desconhecidos e um perfume agradável, picante; o cheiro que ruivas deveriam ter, na sua imaginação e na do bom e velho Charlie Brown.
- O que fez com as suas roupas? – a nova Sra. Glendoning perguntou.
- Nada – Bruce respondeu, abatido.
- Ligaram para casa dizendo que você não apareceu no colégio – a mulher abriu um pouco mais a porta, com certa dificuldade, e somente naquele instante Bruce percebeu que ela se movia com a ajuda de muletas. Uma das pernas estava enfaixada.
Bruce entrou, hesitante. Parecia estar em uma versão mais sombria e apertada do apartamento em que vivia no seu extinto presente.
Não havia sinais de Rose. Nenhum babado esquecido, nenhuma tonalidade deslocada sobrepondo-se ao e ofendendo o estilo quase rústico de Bruce. A presença da nova ocupante era percebida em detalhes menores: alguns livros de anatomia repousando na mesa de centro (Bruce tinha certeza de que não lhe pertenciam), um xale bordô sobre um dos braços do sofá, chinelos de pano pintados de azul-claro. Uma embalagem de biscoitos, vazia.
Ele respirou fundo e seguiu a esposa até a cozinha.
- Quer alguma coisa? Eu estava preparando um pouco de chá – a cascata de cabelos vermelhos falou, mas Bruce não conseguiu responder.
- Jessica – ele disse, em voz alta, testando.
Jessica olhou para ele.
- Sim?
Bruce piscou, balançando a cabeça.
- Nada.
Jessica deixou a chaleira apitando. Parecia preocupada.
-Você está bem? Parece fora do ar.
Bruce abriu a boca para tentar se explicar. O que saiu foi:
- Eu realmente gostaria de tomar um banho.
Os dois se encararam. Jessica sorriu de leve.
- Bem. Você sabe como chegar até o banheiro.
O banheiro era azul e iluminado. Havia uma banheira pequena e um chuveiro menor ainda. Bruce girou a torneira e deixou que a água fria corresse pelo box. Vestido, baixou a tampa do vaso sanitário e sentou-se sobre ela.
Permaneceu assim durante cinco minutos, pensando em como remediar a situação. Sentiu uma ponta de remorso por Jessica. Ela era, afinal, tão vítima daquele acidente quanto ele.
O homem que queria ser rei
O telejornal mostrava as coisas de sempre, mesmo em tempo alterado: o futebol, as notícias do mundo. Moira sentiu falta de reportagens sobre o Parlamento, sobre o primeiro-ministro. Comentou por alto com Roger:
- Sinto falta do primeiro-ministro.
- Imagino que eu sentiria falta, se tivesse conhecido algum - Roger deu de ombros - Nosso querido presidente não nos faria a menor falta.
- Gabriel Stuart?
- E tem outro? No fundo, ele derrubou a monarquia para se tornar rei ele mesmo, o puto. Deve ser tão divertido, ter eleições, não acha? Poder escolher! Poder berrar no meio da rua que você não gosta de alguma coisa. Deve ser tão legal...
Moira engoliu em seco. Lembrou-se de Wilcox, em seus instantes finais, gritando contra Gabriel, desesperado por causa do roubo que lhe custara todos os plantos. Vocês precisam ficar... porque... ele vai voltar.... e vocês precisam ficar e mudar o que ele fez. Ele vai voltar...
Sentindo o peso da responsabilidade lhe caindo como uma armadura, fez uma festinha no cabelo espesso do irmão. Espera até o Bruce saber dissso!