Sunday, February 18, 2007
Oublier
Não houve tempo de chorar - o som do trem-acelerador ensurdeceu os dois assistentes. Bruce só teve tempo de puxar Moira para um canto, escondendo-se atrás de uma pilastra. O corpo do professor permaneceu caído no meio da estação.
O trem parou e de dentro dele saiu um homem de cabelos escuros - Gabriel, o homem que alterara o tempo. Lentamente e sem olhar para o cadáver deitado na plataforma, ele saiu do esconderijo.
Foi o momento em que Moira, exausta como se tivesse ela própria viajado na máquina, caiu desmaiada nos ombros de Bruce.
***
- Moira? Moira, chérie.
Moira abriu os olhos devagar. Uma senhora de olhos castanhos, ar de matrona, lhe observava com preocupação.
Ela estava de volta ao apartamento de Liverpool Street. Aquelas eram suas coisas, seus móveis, seu pôster de Einstein na parede. Mas quem era aquela senhora que tinha os olhos de Edward Morris?
- Filha, você está bem? Seu colega disse que você desmaiou no trabalho!
Filha?
Moira observou de novo a mulher. Cabelo escuro, não mais até a cintura mas ainda liso, ofensivamente liso. Um sorriso de preocupação nos lábios finos - os lábios que ela, Moira, herdara.
Aquela era Stella. Stella Morris. Filha de Edward e Adelaide, mãe de Moira, a mãe que Moira perdera, teoricamente, aos três anos de idade.
No fundo da sala estava Bruce, conversando com um homem alto, grisalho, que o tempo tinha maltratado mas que ainda conservava o charme de um passado remoto. Era Arthur Harris.
- Eu já estou melhor - Moira mentiu descaradamente.
- Moira, o que aconteceu? - Arthur Harris perguntou.
Moira e Bruce se entreolharam em silêncio.
Alguma coisa aquele Gabriel tinha feito - e no meio das alterações do mundo, os pais de Moira tinham sobrevivido.
Wednesday, February 14, 2007
Em que Bruce percebe que talvez tivesse feito um bem deixando que Wilcox matasse a ex-mulher, de qualquer modo que ele quisesse, sonhasse ou...
Moira e Bruce arrastaram o professor para junto de uma das mesas, de modo a recostá-lo nela. Wilcox arfava, os olhos fechados, e não dizia nada. Seu braço ainda estava levemente erguido, apontando na direção do túnel, mas Bruce o obrigou a recolhê-lo.
- Temos que chamar uma ambulância – Bruce disse, e percebeu Wilcox arregalar os olhos. – Não! Não, não, não, não. Não podemos chamar a ambulância, eles farão perguntas, vão envolver a polícia... meu Deus, Wilcox, o que houve?
- Abigail – foi o que Wilcox conseguiu murmurar.
- Bruce, não podemos deixá-lo aqui – Moira segurou Wilcox pelos ombros, determinada a levantá-lo.
Wilcox protestou com um gemido de dor.
- Eu não posso sair daqui... vocês também não – Wilcox disse, entre chiados. – Ele vai voltar... vai... vai sair de lá.
- Quem vai sair, Wilcox?
- Gabriel! – o professor sacudiu o punho, furioso, e então parou para choramingar.
- Quem é Gabriel? – Moira perguntou; não obtendo resposta, voltou-se para Bruce, que finalmente começava a compreender o que acontecera. – Quem é Gabriel?
- É o marido da ex-esposa do Wilcox. Abigail. Aquela que...
Ouvindo o nome da mulher, Wilcox sofreu um ataque de fúria, unhando e se debatendo, mas foi imediatamente contido. Quando já havia esgotado todas as forças, disse:
- Vocês precisam ficar... porque... ele vai voltar.... e vocês precisam ficar e mudar o que ele fez. Ele vai voltar...
Wilcox desmaiou em seguida.
O tempo tudo destrói
Nem Moira nem Bruce conseguiriam atinar que um membro do Parlamento britânico tinha interesse em alterar o passado. E que ele conhecia Wilcox bem melhor que seus assistentes... Gabriel tinha acesso ao passado do professor, o passado que Wilcox odiava se lembrar que existia: Abigail.
E era em Abigail que Wilcox pensava quando seus assistentes chegaram à estação fantasma de West Rotherhithe. E em como por causa dela - indiretamente - a máquina, o plano de toda sua existência, tinha sido destruída, talvez para sempre.
A máquina e também sua vida, que lhe escapava entre os dedos com grande velocidade. Mas os golpes na cabeça e nos ombros lhe doíam bem menos do que ver Gabriel partindo no trem-acelerador, pronto para transformar o mundo inteiro à sua vontade.
Tudo o que ele, Wilcox, mais temia no mundo!
Antes de perder a consciência, pôde ouvir passos apressados na plataforma. Moira e Bruce tinham lhe encontrado. Tentou erguer a mão, fazer algum gesto, mas o corpo não obedeceu. Só teve tempo de voltar a cabeça na direção do túnel, como que esperando a volta do trem.
Tuesday, February 13, 2007
A caminho
Sob o efeito terapêutico da direção, Bruce tentava pensar em uma explicação positiva. Talvez ninguém houvesse roubado, afinal, os equipamentos. Talvez o próprio Wilcox houvesse descontado neles a frustração sentida ao deparar-se com os resultados quase catastróficos de seu projeto, como uma crise tardia de consciência. Talvez ele e Moira jamais precisassem voltar a pensar em viagens temporais, ao menos não aquelas que envolvessem o professor.
- Quem roubaria? – Bruce disse, de repente. – Quero dizer, quem saberia? Quem sequer acreditaria? Não é como dizer “Bem, fiquei sabendo que há uma enorme quantidade de jóias naquela casa, a senhora as deixa guardadas sob a cama”. Quero dizer: “Bem, ouvi dizer que aquele cara construiu uma máquina do tempo, ele a deixa guardada em uma estação de metrô desativada”. Que homens seriam o bastante...
- Está sugerindo que a máquina foi roubada por batedores de carteira? Porque eu acho que o ladrão teria de ser um pouco mais ambicioso.
- Quem? Alguém da Universidade? Ninguém gosta do Wilcox. Ninguém gosta do Wilcox o bastante para sequer saber como ele ocupa seus dias, e ninguém gosta o bastante de Wilcox para acreditar que ele construiu uma... mesmo que Wilcox espalhasse folhetos por aí.
- Bem, alguém sabe, isso é certo.
- E se foi o próprio Wilcox? O sangue... bem, ele pode muito bem ter se ferido.
- Então teríamos encontrado um cadáver, porque acho que Wilcox preferiria se matar antes de destruir os aparelhos. E há o cachorro.
- O que tem o cachorro?
- Wilcox não feriria o cachorro.
- Por que não? – perguntou Bruce, o tom de voz deixando óbvio que ele achava improvável alguém ser incapaz de querer machucar Fahrenheit.
O ferimento de Fahreinheit
- Essa não.
Bruce correu para dentro da casa, enquanto Moira ficou com Fahrenheit. Um berro serviu como alerta - tinham vasculhado a casa inteira, havia manchas de sangue em todos os papéis da antiga escrivaninha de Moira. Um computador tinha sido quebrado a golpes de algum objeto pesado. Mapas que Bruce demorara meses para fazer estavam em pedaços no chão.
Moira olhou em volta e sentiu os joelhos dobrarem de medo. Bruce tinha se esquecido de como se respirava.
- Eu vou chamar a polícia!
- Espera.
Bruce apontou o lugar onde o GPS deveria estar - e não estava.
Os dois correram para o jardim ao mesmo tempo para o jardim. A porta do galpão estava aberta, escancarada. O carro que levava os viajantes do Hampton até a estação de metrô fantasma não estava na boca do túnel, como de costume. Uma última mancha de sangue marcava a parede, como o sinal dos hebreus contra as pragas de Moisés aos egípcios.
Era preciso fazer alguma coisa. E Moira, respirando fundo, tomou as rédeas da situação.
- O outro carro dele está aí? - Moira chacoalhou o amigo pelos ombros.
- Está.
- Você sabe dirigir?
- Moira, para onde é que nós vamos? - Bruce não conseguia raciocinar.
- West Rotherhithe - e, respirando fundo - Alguém descobriu sobre a máquina!
Friday, February 02, 2007
Confidentes
Os hobbies prediletos de Abigail, que há muito deixara de ser bailarina, eram: a) cuidar do belo jardim que rodeava a residência dos Stuart; e b) manter contanto quase secreto com a antiga vizinha, Isabella, de quem conseguia as últimas informações a respeito do primeiro marido.
- E o que a garota fez? – Abigail perguntou, uma mão segurando o telefone branco e a outra mexendo uma colherinha dentro da xícara de chá.
Abigail ignorou o incidente. Deu uma risada.
- Eu sabia que ela não se agüentaria por muito tempo. Uma mulher precisa ser louca para conviver com o Alphonsine.
- Desculpe. Michael estava me tirando do sério.
- Aquele capacho do Bruce continua lá?
- É a única pessoa que tenho visto, nos últimos dias.
Abigail eriçou as sobrancelhas.
- É mesmo? Onde está Alphonsine?
- Não sei. O carro continua lá, não, Michael? Sim, o carro continua lá.
Abigail suspirou de modo impaciente. Não gostava de perder Wilcox de vista.
- Talvez ele tenha finalmente conseguido aquela máquina do tempo, e viajado para bem longe de nós – disse, como a fazer troça. – Engraçado como Gabriel parece depositar certa confiança nas minhas previsões.
Isabella riu. Passara anos de sua vida ouvindo as piadinhas de Abigail em relação às ambições excêntricas de Wilcox, mas nem por um segundo havia considerado que era aquilo, de fato, que o professor vinha fazendo dentro de seu laboratório.
Monday, December 18, 2006
Aqui e Lá
- Que vai ficar ainda mais louco se não tiver alguém por lá para dar um jeito nele.
- E eu tenho que fazer isso?
- Bom, só você consegue convencê-lo. Sem precisar ameaçá-lo com uma cadeira, como acontece comigo. Moira, pelo amor de Deus. Antes que eu enforque o cachorro e ponha fogo na casa.
Moira fez que não com a cabeça.
- Não pretendo voltar para o Hampton, obrigada. Mas posso te fazer companhia de vez em quando, longe do professor. Pelo menos para salvar a vida do coitado do Fahreinheit!
- Aquele cachorro é um monstro.
- Você só precisa lidar com ele.
- É uma coisa que você sabe fazer bem. Seu avô melhorou?
- Um pouco. Está reclamando que não pode comer feijão em lata... É um vício, sabe?
Bruce sorriu, um pouco tímido, desviando o olhar quando Moira lhe encarou. Não era o que ele queria, mas era bem próximo. Podia ser um bom recomeço.
***
Longe do restaurante, em um gabinete no Parlamento, Gabriel Stuart MP planejava em silêncio seu grande golpe - que começaria com o seqüestro do professor Alphonsine Wilcox, residente do bairro de Hampton Court.
Um pedido
- Ficar sozinho, naquela casa, está me deixando louco – disse. – Eu poderia ficar pela faculdade, sim, mas então eu viraria o novo melhor amigo de Elizabeth, e de outros professores, e das secretárias, e de alunos que não acompanham as aulas, que ficam fazendo turismo pelos prédios, e minha sanidade estaria mais ameaçada ainda, e eu gosto da sua companhia, Moira. Pelo menos... eu gosto. De verdade. É um alívio não ter Wilcox por perto, mas eu gostaria que você estivesse lá. E... aquele... cachorro está me enfurecendo.
Parou de falar repentinamente, como se alguém houvesse cortado seu fôlego. Giacomo e o outro cozinheiro haviam parado o que estavam fazendo para ouvi-lo, e Bruce olhou para os dois, sentindo-se no meio de um talk-show.
- Por favor, continue – Giacomo pediu.
- Um pouco de privacidade, Top Chef. Se importa?
Giacomo deu de ombros e foi colocar o frango no forno. Bruce voltou-se para Moira – e, por muito pouco, não tocou uma de suas mãos.
- Você me faria um enorme favor. Não sei se posso lidar com o Wilcox sozinho. Ao menos ele a escuta. Coisa que, em cinco anos, nunca fez a meu respeito.
- Bem, você há de concordar que ele passou dos limites.
- Ele é o Wilcox. Ele não tem uma noção clara do que são limites. Ele pensa que Led Zeppelin é o nome de um apresentador de programas infantis.
- Bruce, eu sinto muito. Wilcox poderia ter estragado as nossas vidas, se ainda não se deu conta.
Bruce arregalou os olhos.
- Está pensando em denunciá-lo a alguém?
Quando Bruce e Moira proclamam uma trégua
E, para Bruce, entre dentes:
- Você tem sorte do Giacomo ser surdo como uma porta. Vai de lasanha?
- Por favor. Moira, você tem que voltar pro escritório.
- O que foi que o Wilcox explodiu desta vez?
- Nada. Ele nem me vê. Aliás, não fossem os bilhetinhos abusados na tela do meu computador, eu teria achado que ele sumiu em algum buraco do tempo.
- Bruce, eu não quero ser grosseira, mas e eu com isso?
- Eu preciso que você volte. Não por causa do Wilcox. Nem por causa da máquina.
- Então por que?
- Por minha causa. Pode ser?
O queixo de Moira caiu alguns centímetros.
- Nicola! Mais vinho! - ela pediu, rosto pegando fogo - Eu acho que vou precisar.
Friday, December 15, 2006
Em que Bruce volta para a cozinha
- Hoje não está vestido como um professor – comentou.
Bruce deu de ombros.
- Hoje não estou trabalhando. Folga.
- Sei, sei. Mesa para dois?
- Estou sozinho. Será que eu posso...
- Pode, pode, tudo o que quiser – Nicola interrompeu.
Agarrou o braço de Bruce e o levou até a cozinha. Dois cozinheiros discutiam por causa de um pedaço de queijo que poderia ou não ter sido usado na massa certa, e uma terceira voz, feminina, palpitava a respeito. Nicola gritou em italiano e a briga se encerrou – os cozinheiros piscaram, confusos, voltando-se para ele e Bruce.
- Aqui, parem de discutir. Há mais um infeliz para ser alimentado – Nicola puxou uma cadeira para Bruce. – Volto num instante.
Só então Bruce percebeu que Moira também estava lá; e ela pareceu notá-lo com a mesma surpresa. Os dois apenas se encaram, sem nada dizer.
Havia dois frangos crus em cima do balcão, já recheados, e diversas tigelinhas e tupperwares de legumes, queijo ralado e temperos. O molho de tomate fervia em uma panela.
- O que está fazendo aqui? – Bruce perguntou, por fim.
- Acho que estou almoçando. O que você faz aqui?
- Bem... o mesmo. É óbvio.
- Conheço você? – um dos cozinheiros perguntou, retirando uma assadeira do forno, espiando Bruce como se este lhe fosse familiar.
Bruce teve dificuldades de transferir sua atenção.
- É possível. Já estive aqui antes. No restaurante. Nesta cozinha. Parece ser um hábito. Eu e...
- Moira! – o cozinheiro exclamou, de repente. Pegou um dos frangos e o colocou dentro da assadeira. – É claro, como pude esquecer? É o namorado dela. – e teve medo de haver cometido uma gafe; exibiu um sorriso amarelo. – Ele é, não é, Moira?
Moira deu a impressão de ter engasgado com a própria saliva. Bruce sorriu.
- Bem, eu não sei. Quase fomos irmãos, uma vez. Acho que seria condenável, em inúmeras sociedades – disse.
Thursday, December 14, 2006
Le Complainte
Moira fez um gesto negativo com a cabeça, jogando os classificados longe.
Estava há uma semana plantada no apartamento de sua amiga Layla, retornando para Liverpool Street somente para dormir. Procurava um novo emprego enquanto via a amiga cuidando de seus clientes em seu escandaloso salão de cabelereiro, no coração de Camden Town.
Jim, namorado de Layla e tatuador de nove entre dez encrenqueiros da escória londrina, já estava ficando preocupado. Moira não era o tipo que ficava sem fazer nada - e sem ter um emprego e sem querer retornar ao conserto de computadores, a amiga de Layla estava murchando.
- E o magrelão? Não pode te indicar para ninguém?
- Que magrelão? - Moira perguntou - O Bruce?
- Uai, é o nome dele, eu acho.
- Ah, ele. Não, ele não me indicaria. E eu não iria gostar, eu acho.
Layla cruzou os braços, curiosa.
- Você não me contou porque deu no pé. Não te pagavam bem?
- Não queria falar disso.
- O velho te passou uma cantada, foi isso?
Moyra riu. Seria bem engraçado, o velho Wilcox tentando lhe galantear. Decidiu não responder e voltar para casa, quem sabe comprar um outro jornal no caminho. Devia existir algum emprego naquela cidade, afinal de contas!
Thursday, November 30, 2006
A vida como ela é
De volta a Londres, cumprindo sua palavra, Moira não reapareceu. Mas Wilcox também não, e Bruce, em uma terça-feira, sentado no gramado do quintal, observando o galpão fechado, ficou imaginando se acaso o professor não deletara a própria existência, impedira seu próprio nascimento para se redimir.
Mas os sinais de Wilcox ainda estavam lá; Fahrenheit, a bagunça usual, bilhetinhos grudados nos lugares mais inusitados, com instruções que Bruce seguia mecanicamente, feito um robô.
O silêncio da casa, que antes apreciava, agora só fazia incomodá-lo.
Quando Rose ligou, foi como colocar a cereja no topo do bolo.
- Você não deu mais notícias – ela acusou. Bruce sabia o que viria em seguida.
- Rose... eu nem posso começar a explicar o que foram os últimos dias.
- Ele morreu?
- Quem?
- O homem que estava morrendo.
- Não, não morreu. Está vivo. Está bem. Obrigado por perguntar.
- Bom. Quando vou poder ver você?
- No dia em que eu achar uma forma de encontrar quem roubou a minha rotina, enchê-lo de pancadas e tomá-la de volta.
- Está tentando ser engraçado, Bruce?
- Eu bem que gostaria.
- Eu poderia lembrá-lo de que vou participar de um desfile no sábado, mas não vejo motivos. Você, é claro, não vai comparecer.
Bruce esfregou os olhos. Não era capaz de imaginar como seria um desfile de moda, e tinha até certo medo de se permitir pensar a respeito.
- Você supõe demais. Quando vai ser?
- Sábado. Eu disse.
- Sábado, que horas, florzinha?
- Vai começar às seis da tarde, mas eu vou precisar estar lá desde manhã, então...
- Estarei lá às cinco. Rose, preciso voltar ao trabalho. De verdade.
Rose respirou fundo.
- Muito bem. Eu ligo mais tarde.
Bruce guardou o celular no bolso. Sem hesitação, pegou o casaco e saiu.
Quando Wilcox descobre que fez uma grande burrada, enfurecendo sua assistente a um ponto até então desconhecido
- Moira, eu acho melhor você se sentar. Você não sabe, mas a sua mãe...
- Que tem ela...
- Talvez você não seja... bem... Filha do Arthur Harris. Pronto, está dito!
Moira deu uma risada amarga.
- Você não ia ser o primeiro a dizer isso.
- Não? Quer dizer, você... você já sabia? E ainda assim anda para cima e para baixo com o Bruce? Abusando da inocência dele?!
- Que é que o Bruce tem a ver com isso?
- Nicholas Glendoning!
- Que tem ele?!
- A sua mãe e ele...
- Minha mãe e meu avô eram meio que guardiões do pai do Bruce, pelo que a mãe dele - a mãe do Bruce, certo? - me contou. Carregavam-no para cima e para baixo quando ele estava bêbado.
- Meu bom São Jorge! Você sabe que você não é filha do Arthur Harris e...
- Eu sou filha dele. Tenho os olhos dele, pelo amor de Deus! Meu avô paterno - que eu nunca conheci - é quem contestava a paternidade. Meu pai foi expulso da família por causa da minha mãe. Literalmente.
- Quem é Saville?
- Saville? John Saville? É meu tio! Na verdade, ele é meu primo em segundo grau, primo do meu pai. E o que tem ele a ver com esse troço todo?
Bruce acordara. Estava tentando se sentar, tateando o sofá com mãos trêmulas.
- Wilcox. Você não está me dizendo... Minha mãe? O pai do Bruce? Mas você bebeu! Nem em sonhos! Meu avô teria matado alguém - se dona Honora não tivesse matado antes! De onde você tirou tanta idiotice?
- Eu...
- Seu cérebro deve ter derretido com tanta viagem no tempo. Sugiro que você vá descansar. E que vá procurar outra técnica para seus computadores, porque eu me demito!
- Você não pode se demitir!
- E você não tem o direito de ficar fuçando no meu passado! Passar bem!
Moira desligou o telefone com tanta força que não o quebrou por pouco. Voltou-se para Bruce, que estava deitando no sofá, verde como uma folha.
- Ele está delirando.
- Ele não foi ver o meu pai. Foi?
- Foi.
- E você não se demitiu, certo?
- Sim, eu me demiti.
Ele não contestou. Parecia exaurido.
- E não, meu chapa, até segunda ordem a gente não é irmão. Minha mãe tinha muitos defeitos, mas acho que adultério não constava na ficha.
-Ótimo. Eu não sei se conseguiria encarar o fato.
- Acredite, eu muito menos.
Como enlouquecer seu chefe
- Sim. Bruce. Mais uma vez. Escute, Wilcox, Moira está assustada e, francamente, eu também. Pode me explicar o que está acontecendo?
- Bruce, quer ouvir uma coisa engraçada? Eu fui visitar o seu pai...
O universo parou de se movimentar.
- Não – Bruce respondeu, automaticamente, com uma risada. Sentiu-se zonzo.
- Não, não. Eu fui mesmo, de verdade. Minhas roupas até cheiram a...
Yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda.
- Bruce? Está me ouvindo?
Yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda.
Moira balançou Bruce pelos ombros. Ele voltou ao plano terrestre; olhou-a, abismado, e depois se deu conta de que ainda tinha o telefone em mãos.
- Wilcox – a voz de Bruce era um fiapo. – O que você fez?
- Pois então. A parte engraçada está justamente no fato de eu não ter feito nada. Mas o seu pai, na verdade, bem, aquele Nicholas, parece ter feito bastante.
- Moira disse que tem a ver com a mãe dela.
- Sim. Eu acho que há uma pequena possibilidade de que vocês sejam irmãos. Você e Moira – não você e a mãe dela. Bruce? Está aí?
Yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda yadda...
Filiação
-É isso. Ele matou a Rainha Vitória. Ou então se transformou no herdeiro da coroa sueca, eu sei lá. Atende.
Moira levou o telefone ao ouvido.
- Professor, aqui é a Moira.
- Moira, meu anjinho. Eu acho que eu tive um probleminha com a máquina.
- Ai, meu Deus... Que tipo de probleminha?
- Não saberia explicar. Eu estou... Ainda... Pensando no modo como eu vou dizer isso.
- Professor, se o senhor, de alguma forma, matou a sua ex-esposa, eu juro que eu não me responsabilizo!
- Quê? Abigail? Não! Não, eu não cheguei nem perto dela! Moira... Moira, meu benzinho, você me disse que adora mapas... Você me disse que é órfã... O seu pai, como ele se chamava?
- Arthur Harris, professor.
- Arthur Harris. Ele era loiro?
- Professor, mas que conversa ridícula é essa? Meu pai tinha cabelo castanho! Aliás, meu pai e minha mãe!
- Stella Morris?
- Sim! Stella Morris! Pode me dizer o que...
Moira afastou o telefone e praguejou em voz alta.
- Bruce, ele fez alguma bobagem das grandes.
- Se envolve a Marylin Monroe...
- Envolve a minha mãe - e, depois, ao telefone - Wilcox, diga de uma vez só. Por favor.
- Passe o telefone para o Bruce!
Mais más notícias
- Wilcox?
- Bruce. Não diga nada.
Bruce não disse; Wilcox, tampouco.
- Wilcox? – Bruce repetiu, depois de ser deixado sem resposta durante cinco minutos. Winifred passou pelo corredor, logo atrás dele, com a desculpa de ajeitar um dos quadrinhos da parede. – O que está acontecendo?
- Silêncio. Estou escrevendo o que vou dizer.
- Está o quê? OK. Certo. Vamos por partes. Se está escrevendo, por que está ao telefone ao mesmo tempo? Eu sou algum tipo de musa? Tália? Melpômene?
- Estou escrevendo o que vou dizer para você. Deus. É tão difícil...
Bruce balançou a cabeça.
- Não vou me casar com você, se é o que está tentando propor.
- Muito engraçado, Bruce. Você é um humorista nato.
Quando Winifred passou pela segunda vez, Bruce baixou o tom de voz. Começava a ficar zangado.
- Wilcox, eu realmente, realmente não posso lidar com mais uma das suas crises criativas neste momento. Moira está aqui e...
- Moira? – Wilcox berrou, de repente.
Bruce afastou o ouvido do fone. Visualizou o mundo se partindo e uma tartaruga gigante se erguendo do núcleo do planeta.
- Ah. Moira, sim.
- O que ela está fazendo aí?!
- É uma longa história. Vou lhe contar tudo, com prazer, semana que vem.
- Quero falar com ela!
- Por quê? Vai propô-la em casamento também?
- Preciso falar com ela. É urgente. Tem a ver com a máquina – Wilcox exigiu, a respiração de quem havia acabado de correr uma maratona.
À mesa (Tempo Prersente)
- Rob é rico. Eu sou quando muito remediado.
Moira deu uma risada, tímida. Nunca tinha ido numa casa que tivesse uma cozinheira, como era o caso da residência de Sandringham. Bruce roubara uma tigela de macarronada e agora os dois jantavam em paz, ainda que atrapalhados como sempre, próximos do jardim da casa.
- O Wilcox deu sinal de vida?
- Nenhum. A gente devia se preocupar?
- Sei lá. Você o conhece melhor do que eu.
- Às vezes ele fica dias sem aparecer no escritório. Uma semana, foi o recorde. Quer mais queijo?
- Não, obrigada. Mas de qualquer forma, Bruce, e se ele se perdeu no tempo?
Bruce deu de ombros. Tinha acabado de sujar a manga da camisa com molho de tomate. Tratou de limpar com o guardanapo, mas terminou sujando ainda mais.
- A gente vai saber, se acordar amanhã cedo em uma república ou coisa assim.
- Ei, essa é a minha teoria! - ela riu, estapeando o braço dele.
O telefone soou dentro da casa. Dali a alguns instantes, Honoria apareceu no jardim.
- Bruce? É o seu chefe, querido. Ele parece preocupado.
Bruce e Moira se entreolharam - até que tinha demorado para Wilcox dar sinal de vida.
Para a posteridade
A carta para seu eu do futuro dizia:
“Como eu poderia não saber? O que significa, aqui, como você pôde não me contar? Posso estar compactuando com um crime!”
E:
“Talvez eu devesse despedir um dos dois”
E também, muitas linhas depois:
“Agora eles já têm um relacionamento fora do trabalho. Wilcox, eu nos odeio.”
Ele lacrou o envelope. Guardou em uma das gavetas que tinha o hábito de trancar, tendo passado, antes, meia hora sem saber o que fazer a respeito. Somente um outro Wilcox teria a chave certa para abri-la e ler a carta.
Fez chá e aproveitou o resto da tarde em completa intranqüilidade. Quando começava a anoitecer, pensou em ligar para Bruce. O celular estava desligado. Wilcox respirou fundo e controlou o impulso de discar o número de Sandringham.
Para se ocupar, eliminar todas as surpresas do dia, pegou uma antiga foto de Abigail – seu segredo mais obscuro; ninguém sabia da existência do retrato –, sentou-se e passou a desprezá-la em silêncio.
Quando Wilcox descobre mais do que devia
- Vem, eu te levo para casa.
- Stella, eu não preciso de ajuda! - Nicholas respondeu, ríspido, mas não se moveu um centímetro de fosse para longe.
Stella suspirou e olhou para Wilcox, com ar de resignação. Parecia bem acostumada com os porres do amigo, tanto que não respondeu a ele e sim ao estranho velho que o acompanhava. Era tão comum que estranhos ajudassem Nicholas a sair do The Trooper que ela nem mesmo se dava ao trabalho de perguntar seus nomes.
- Ele mora mais para a frente, na Red Lion Lane. O senhor poderia...
- Mas é claro, senhorita - Wilcox sorriu, ainda suando frio.
A casa na Red Lion Lane era uma bagunça de livros, cadernos e anotações. Como Bruce, muitos anos depois, também Nicholas reinava supremo entre o caos e a genialidade latente. Como o filho, ele também adorava mapas e a História do Mundo.
Stella o colocou no sofá, as mãos finas puxando o cabelo que insistia em cobrir os olhos do amigo. Wilcox permaneceu ali, observando a dupla sem ser notado.
- Nicholas, eu me pergunto quando você vai tomar jeito na vida.
- Bela Rebecca, eu vou me casar - Nicholas riu, sem responder a pergunta.
- Casar?
- Eu decidi que não vou enrolar a minha Rowena muito tempo. Acha que a Honoria vai dar um jeito em mim?
Nicholas pegou as mãos de Stella e sorriu, amargamente.
- Uma pena que um Ivanhoé só pode seguir a risca o roteiro. Mesmo um Ivanhoé bêbado como eu. Você promete que não vai virar uma freira em Granada, como no livro?
- Nicholas, por favor - Stella soltou-se com um gesto rápido.
- Porque poderia ter sido diferente. Se eu não fosse essa garrafa de whisky disfarçada de gente. Enfim. Eu vou dormir. Prometo que vou me comportar. Agora eu vou ser um homem sério. Mesmo sem a sua presença, eu juro que vou ser sério.
- Você sempre diz isso.
- O homem sério pode ganhar um beijo de boa-noite?
Stella inclinou-se e beijou a testa de Nicholas, com um sorriso.
Wilcox sentiu a cabeça doer, sinal de que o buraco no espaço tempo estava se fechando novamente. Mas não queria partir. Aquela cena estava interessantíssima. Era um casal apaixonado - ou pelo menos o rapaz era - terminando tudo. Ou recomeçando.
- Stella Morris, eu te amaldiçôo - Nicholas disse, de brincadeira - Você vai ter uma filha e ela vai se parecer comigo só de birra.
- Deus me livre, uma filha alcóolatra!
- Não. Uma menina que amará os mapas e os jogos. Só para te complicar a vida.
Foi quando Wilcox desmaiou.
Quando acordou, estava novamente na estação-laboratório. Sozinho. E assustado, porque se lembrara no meio do caminho com quem a tal garota se parecia.
Ela era a cara da Moira!
Wednesday, November 29, 2006
Triângulo
Um senhor estava de pé, parado, como se aguardasse.
- Sr. Glendoning, olhe para você – disse o homem, em reprovação.
Nicholas olhou; estava com a velha jaqueta, sapatos limpos e nenhum sinal de vômito na camiseta.
- Quis dizer, veja a situação vergonhosa em que se coloca – o estranho acrescentou, e puxou Nicholas, na intenção de levantá-lo.
Nicholas não tinha forças para protestar.
- Quem diabos é você? – perguntou. O homem que o abordara de forma tão inconveniente parecia, por qualquer razão, não fazer parte do cenário.
- Meu nome é Alphonsine Wilcox. Suponho que você possa saber. Não vai interferir no futuro.
Nicholas franziu o cenho e depois riu alto, pateticamente.
- O quê? Como assim?
Mas a menção do futuro fez com que sentisse um arrepio na espinha, e, depois, náusea. Ele agarrou o braço de Wilcox, quase cambaleando.
- Escute. Senhor. Preciso ir para casa.
- Certamente, Nick.
Wilcox o ajudou a deixar o pub. Enquanto caminhavam pelas ruas, a cabeça de Nicholas começou a doer. Ele olhava para o lado, de vez em quando, encarando o professor com a mais profunda estranheza, e, de repente, por razão nenhuma, parecia perdido, desligado do mundo.
- Agora, onde você vive, senhor Glendoning?
Nicholas ergueu o braço, apontando para uma esquina, mas então viu uma silhueta familiar. Stella vinha pela calçada, tremendo de frio; ao reconhecê-lo, arregalou os olhos.
- Nicholas – ela disse, e olhou para Wilcox. – Estava preocupada. Onde você... o que está havendo?
- Nada – Nicholas murmurou, não sem rancor. – Estava indo para casa, você vê. Este bom senhor me ofereceu ajuda, já que, ao que parece, eu mal consigo ficar de pé.
Wilcox começou a suar frio. Não era bem o que havia planejado.