A sacristia da igreja era gelada.
Wilcox estava suando frio, observando seu avatar de 1973 esperando pela noiva. Era preciso fazer alguma coisa para evitar aquele desastre. Preferencialmente, a melhor coisa a fazer seria impedir que eles se conhecessem. Mas como a janela de tempo mais próxima coincidiu com a data do casamento, tanto melhor.
Ele etsvaa pendurado em uma coluna. Apenas um gesto e ele distrairia seu eu-do-passado, impedidindo que ele subisse ao altar. Ele estava bem próximo. Bem próximo. Era só fazer um gesto.
Abigail não era má pessoa, de maneira geral. Mas era uma má companhia para ele. Claro que quando você é um solteirão convicto, qualquer mulher seria uma má companhia. Não sabia como ela tinha convencido-o a se casar. Mas ele não ficaria para ver. Ajudaria o homem que ele fora a fugir.
Balançara perigosamente em cima da coluna.
Na hora em que ele iria pular, uma mão de mulher o puxou para baixo e para fora, com força que ele desconhecia. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, com espalhafato, no colo de um homem magro e loiro.
Bruce!
Wilcox olhou para o lado. Moira, os joelhos ralados e o rosto bem vermelho, olhava para a cena dos dois homens caídos no chão sem saber se ria ou gritava.
- O que você está fazendo aqui?
- Atendendo um pedido de 2019, eu acho - ela deu de ombros - Você mesmo mandou que eu te impedisse de fazer essa loucura.
- Eu? Como?
- Se você sair de cima da minha caixa torácica, eu conto! - Bruce berrou, com o resto de fôlego que ele tinha.
Tuesday, October 24, 2006
Saturday, October 07, 2006
A noiva
O carro parou, com um solavanco, na frente da igreja. Quatro passageiras seguraram as saias dos vestidos. Abigail abriu um espelhinho de mão e inspecionou o próprio rosto – arregalou os olhos, horrorizada, e tocou uma bochecha com a luva branca.
- Vamos lá. É hora, enfim – a mãe de Abigail disse, tomando o espelho da filha e guardando-o dentro da bolsa. Usava um vestido azul, liso, e nenhum apetrecho, o cabelo bastante cacheado e carregado de laquê.
Abigail comprimiu os lábios, pensando se teria sido mesmo uma atitude conveniente. Louisa, uma das madrinhas, tinha a dama de honra sentada no próprio colo. A menina era gorduchinha e usava um chapéu florido. Parecia entediada.
- O que foi? – Louisa perguntou, permitindo que a dama de honra, antes que começasse a choramingar, descesse do carro – Está com medo?
- Aquele maldito Alphonsine Wilcox não vai aparecer – Abigail afirmou, cheia de repúdio.
O pai da noiva se aproximou para recebê-la. Estava irrequieto dentro do smoking escuro, dez vezes mais hostil do que o habitual. Estendeu a mão para a filha e não conteve uma pergunta:
- Onde se enfiou o Alphonsine?
Abigail fez cara de choro, descendo do Rolls-Royce. Ela se agarrou ao braço de Louisa, que quase tropeçou, puxada com violência antes de ter a chance de se equilibrar nos saltos dos sapatos.
- Ele não está aqui? Eu disse que ele não viria!
- Não entre em pânico – Louisa ajeitou a tiara florida.
- Eu não vou entrar na igreja sem que Alphonsine esteja dentro dela, ou juro por Deus...
A mãe de Abigail juntou-se a eles em passinhos descuidados:
- Onde está Alphonsine? Abigail? Por que está chorando? Pare com isso, está estragando a maquiagem.
Abigail afundou o rosto nas mãos e começou a soluçar. Não lhe importava a felicidade conjugal – só não queria que um paspalho como Wilcox a fizesse de boba na frente de mais de cem convidados.
- Eu não vou entrar na igreja!
- Ora, vamos, pare de chorar. Volte para o carro. Você vai com ela, Louisa. Seu pai e eu vamos ficar esperando.
A noiva e Louisa, erguendo as saias do vestido violeta, voltaram a entrar no Rolls-Royce. O motorista se assustou com a invasão.
- Hugh – a mãe de Abigail encheu a voz de autoridade, voltando-se para o marido. – Vou voltar para dentro e interrogar o pai dele. Se a situação não estiver resolvida em dez minutos, mande os garotos atrás do bastardo.
Bruce e Moira se esconderam perto de uma das pilastras. Um ciclista havia lançado um olhar suspeito aos dois, ao vê-los atravessando a praça.
- É ela? A ex-mulher do Wilcox? – Bruce indagou, incrédulo. O rosto enfurecido, trancado dentro de um carro de luxo, inspirava intolerância a tudo que o professor pregava e idolatrava, de Marylin Monroe à coleções de meias com estampas xadrez.
- Eu diria que sim.
- Não me parece o tipo de mulher capaz de coexistir com ele sob um mesmo teto – Bruce sorriu. – Não. Definitivamente.
- Você e o professor compartilham da mesma opinião.
- Devemos entrar na igreja?
- Não é com o Wilcox do passado que precisamos nos preocupar.
- Vamos lá. É hora, enfim – a mãe de Abigail disse, tomando o espelho da filha e guardando-o dentro da bolsa. Usava um vestido azul, liso, e nenhum apetrecho, o cabelo bastante cacheado e carregado de laquê.
Abigail comprimiu os lábios, pensando se teria sido mesmo uma atitude conveniente. Louisa, uma das madrinhas, tinha a dama de honra sentada no próprio colo. A menina era gorduchinha e usava um chapéu florido. Parecia entediada.
- O que foi? – Louisa perguntou, permitindo que a dama de honra, antes que começasse a choramingar, descesse do carro – Está com medo?
- Aquele maldito Alphonsine Wilcox não vai aparecer – Abigail afirmou, cheia de repúdio.
O pai da noiva se aproximou para recebê-la. Estava irrequieto dentro do smoking escuro, dez vezes mais hostil do que o habitual. Estendeu a mão para a filha e não conteve uma pergunta:
- Onde se enfiou o Alphonsine?
Abigail fez cara de choro, descendo do Rolls-Royce. Ela se agarrou ao braço de Louisa, que quase tropeçou, puxada com violência antes de ter a chance de se equilibrar nos saltos dos sapatos.
- Ele não está aqui? Eu disse que ele não viria!
- Não entre em pânico – Louisa ajeitou a tiara florida.
- Eu não vou entrar na igreja sem que Alphonsine esteja dentro dela, ou juro por Deus...
A mãe de Abigail juntou-se a eles em passinhos descuidados:
- Onde está Alphonsine? Abigail? Por que está chorando? Pare com isso, está estragando a maquiagem.
Abigail afundou o rosto nas mãos e começou a soluçar. Não lhe importava a felicidade conjugal – só não queria que um paspalho como Wilcox a fizesse de boba na frente de mais de cem convidados.
- Eu não vou entrar na igreja!
- Ora, vamos, pare de chorar. Volte para o carro. Você vai com ela, Louisa. Seu pai e eu vamos ficar esperando.
A noiva e Louisa, erguendo as saias do vestido violeta, voltaram a entrar no Rolls-Royce. O motorista se assustou com a invasão.
- Hugh – a mãe de Abigail encheu a voz de autoridade, voltando-se para o marido. – Vou voltar para dentro e interrogar o pai dele. Se a situação não estiver resolvida em dez minutos, mande os garotos atrás do bastardo.
Bruce e Moira se esconderam perto de uma das pilastras. Um ciclista havia lançado um olhar suspeito aos dois, ao vê-los atravessando a praça.
- É ela? A ex-mulher do Wilcox? – Bruce indagou, incrédulo. O rosto enfurecido, trancado dentro de um carro de luxo, inspirava intolerância a tudo que o professor pregava e idolatrava, de Marylin Monroe à coleções de meias com estampas xadrez.
- Eu diria que sim.
- Não me parece o tipo de mulher capaz de coexistir com ele sob um mesmo teto – Bruce sorriu. – Não. Definitivamente.
- Você e o professor compartilham da mesma opinião.
- Devemos entrar na igreja?
- Não é com o Wilcox do passado que precisamos nos preocupar.
Thursday, October 05, 2006
1973 (Giving It All Away)
Estava ali, no registro do computador - as coordenadas levavam para maio de 1973. A fenda temporal ainda estava aberta, o que significava que Moira e Bruce podiam acionar a máquina mais uma vez e ir atrás do professor antes que ele fizesse a grande bobagem de alterar o tempo e com isso seu destino.
- Mas... Moira... você não sabe mexer nesse... nesse troço.
Ela olhou por cima dos óculos de leitura, com um muxoxo. A estação de metrô parecia ainda mais abandonada e fria. Bruce parecia ainda mais pálido sob as luzes das lâmpadas fluorescentes.
- Eu tenho uma idéia - lembre-se que eu ajudei a montar esse treco. E, de qualquer forma, o que você prefere? Esperar o Wilcox voltar e acertar a cabeça dele com uma borduna?
- É uma opção válida? Se for, eu aceito.
- Suba naquele trem. Eu vou acionar os comandos.
- O Wilcox não vale tanto sacrifício.
- Não me lembro de ter empurrado você até aqui.
Ela tinha uma estranha voz de comando, como se incumbida de uma missão impossível. Digitou alguns números no computador e logo o trem começou a apitar, como um dragão soaria se existisse. Por via das dúvidas, Bruce agarrou-se nos assentos, com medo da queda iminente.
E o trem começou a se movimentar.
***
I paid all my dues so I picked up my shoes
I got up and walked away.
Oh, I was just a boy, I didn't know how to play...
O rádio de um carro tocava uma canção de Roger Daltrey. O ar cheirava a chuva e terra molhada. Sinos ao longe. As mãos de Moira em seu rosto, mãos quentes contra um rosto gelado.
- Ei. Bruce. Bruce.
- 1973, eu presumo? - a voz saiu grogue, ele parecia que ia vomitar de novo.
- Exato. Cinco de maio de 1973. Um sábado.
Ele olhou para suas roupas, encardidas porque ele aterrisara dentro de um canteiro de petúnias. Moira não estava melhor - tinha caído na calçada e arranhado os joelhos.
- Onde é que nós estamos, exatamente?
- Se eu estou reconhecendo aquela igreja ali - apontou um prédio ao longe, enquanto Bruce se levantava - estamos em St. Martin In The Fields. Londres, portanto.
- Ótimo. Como é que nós vamos achar o professor?
Ela apontou um Rolls-Royce branco que descia a rua.
- Vamos seguir aquela noiva... Pode ser um bom palpite!
- Mas... Moira... você não sabe mexer nesse... nesse troço.
Ela olhou por cima dos óculos de leitura, com um muxoxo. A estação de metrô parecia ainda mais abandonada e fria. Bruce parecia ainda mais pálido sob as luzes das lâmpadas fluorescentes.
- Eu tenho uma idéia - lembre-se que eu ajudei a montar esse treco. E, de qualquer forma, o que você prefere? Esperar o Wilcox voltar e acertar a cabeça dele com uma borduna?
- É uma opção válida? Se for, eu aceito.
- Suba naquele trem. Eu vou acionar os comandos.
- O Wilcox não vale tanto sacrifício.
- Não me lembro de ter empurrado você até aqui.
Ela tinha uma estranha voz de comando, como se incumbida de uma missão impossível. Digitou alguns números no computador e logo o trem começou a apitar, como um dragão soaria se existisse. Por via das dúvidas, Bruce agarrou-se nos assentos, com medo da queda iminente.
E o trem começou a se movimentar.
***
I paid all my dues so I picked up my shoes
I got up and walked away.
Oh, I was just a boy, I didn't know how to play...
O rádio de um carro tocava uma canção de Roger Daltrey. O ar cheirava a chuva e terra molhada. Sinos ao longe. As mãos de Moira em seu rosto, mãos quentes contra um rosto gelado.
- Ei. Bruce. Bruce.
- 1973, eu presumo? - a voz saiu grogue, ele parecia que ia vomitar de novo.
- Exato. Cinco de maio de 1973. Um sábado.
Ele olhou para suas roupas, encardidas porque ele aterrisara dentro de um canteiro de petúnias. Moira não estava melhor - tinha caído na calçada e arranhado os joelhos.
- Onde é que nós estamos, exatamente?
- Se eu estou reconhecendo aquela igreja ali - apontou um prédio ao longe, enquanto Bruce se levantava - estamos em St. Martin In The Fields. Londres, portanto.
- Ótimo. Como é que nós vamos achar o professor?
Ela apontou um Rolls-Royce branco que descia a rua.
- Vamos seguir aquela noiva... Pode ser um bom palpite!
Tuesday, September 19, 2006
Até que a morte os separe (gradativamente)
Bruce fechou o punho, desconcertado, agarrando apenas ar. Olhou para Moira, que parecia estarrecida.
- Ele estava falando do próprio casamento?
- Eu diria que sim.
- Wilcox foi interromper o próprio casamento e cometeu alguma burrice atroz que o levou gradativamente ao fim da vida?
Moira franziu a testa; gaguejou um pouco antes de responder.
- Aonde quer chegar, Bruce?
- A lugar nenhum – Bruce riu, apavorado. – Eu estou perdido e sem reação. Só aprecio a ironia de cada manhã.
Sentiu as pernas fraquejarem. Contava que Wilcox fizesse uma estupidez daquela grandeza, cedo ou tarde.
- O professor está morrendo – declarou, começando a suar frio.
- Precisamos voltar e avisá-lo.
Bruce assentiu. Não levariam tanto tempo para chegar até o escritório. Mexeu nos bolsos, mas então se lembrou de que não havia nenhuma chave do carro, porque não havia sequer um carro.
- Bruce, quando ele se casou?
Ele não respondeu. Virou-se para Moira, compreendendo que a nuvem da má sorte, pairando sobre sua cabeça, acabara de achar um lugar cômodo.
- Meu Deus. Vamos precisar voltar, não é?
- Ele estava falando do próprio casamento?
- Eu diria que sim.
- Wilcox foi interromper o próprio casamento e cometeu alguma burrice atroz que o levou gradativamente ao fim da vida?
Moira franziu a testa; gaguejou um pouco antes de responder.
- Aonde quer chegar, Bruce?
- A lugar nenhum – Bruce riu, apavorado. – Eu estou perdido e sem reação. Só aprecio a ironia de cada manhã.
Sentiu as pernas fraquejarem. Contava que Wilcox fizesse uma estupidez daquela grandeza, cedo ou tarde.
- O professor está morrendo – declarou, começando a suar frio.
- Precisamos voltar e avisá-lo.
Bruce assentiu. Não levariam tanto tempo para chegar até o escritório. Mexeu nos bolsos, mas então se lembrou de que não havia nenhuma chave do carro, porque não havia sequer um carro.
- Bruce, quando ele se casou?
Ele não respondeu. Virou-se para Moira, compreendendo que a nuvem da má sorte, pairando sobre sua cabeça, acabara de achar um lugar cômodo.
- Meu Deus. Vamos precisar voltar, não é?
Setenta e três
Moira e Bruce saíram do cinema andando muito próximos um do outro, às gargalhadas. A sessão fora interrompida uma vez, depois que o senhor de boina dormiu e começou a roncar horrivelmente na primeira fila, o que causou uma onda de risos e muita reclamação por parte de Bruce, que queria ver a cena da fonte sem a trilha sonora de alguém dormindo.
Ele ligou o celular. Sete mensagens de Rose, nenhuma de Wilcox.
- Eu acho que ele não sabe para que serve um telefone – Bruce deu de ombros.
- Bom, tanto melhor que ele não tenha ligado. Seria complicado achar uma desculpa.
- Ficar com medo do trabalho não é desculpa.
- Difícil de acreditar, quando você não lida com animais selvagens, terroristas ou crianças do primário...
- Você ainda vai se arrepender de dizer isso, mocinha.
A última frase viera distante, o que forçou Moira a voltar-se para trás.
Era Wilcox. Mas ao mesmo tempo, não era Wilcox. Era alguém parecido com ele, apoiado em uma bengala, o rosto amarelo e fraco, muito mais velho. Ainda vestia-se com apuro, mas o cabelo tinha há muito lhe abandonado e os olhos não tinham o mesmo brilho. Estava doente, francmanete em decadência, o corpo projetado para a frente como se tudo lhe doesse.
Bruce pensou em dizer que aquilo parecia um disfarce muito bom. Mas o modo como Wilcox olhava – com dor, com cansaço – era por demais genuíno.
- Professor! – Moira se assustara.
- Eu estou vindo de longe. De treze anos no futuro – a voz de Wilcox não saía da garganta, parecia perder-sen o caminho – E tenho muito pouco tempo, Moira, meu anjinho. Nos dois sentidos. Esse buraco temporal vai acabar em breve... E eu também.
Antes que qualquer um dos dois jovens respondesse, ele continuou.
- Eu estou vindo de novembro de 2019, querida. Daqui a um mês, no meu espaço-tempo, eu vou morrer... Por causa de um erro que eu cometi neste dia. Hoje. Enquanto vocês estavam no cinema, pondo em marcha o que vai ser o futuro de vocês dois juntos e mais não posso dizer, eu estava em West Rotherithe. Eu cometi um grande erro. E eu preciso que vocês me impeçam, porque esse erro vai me matar!
O Wilcox do futuro começou a tossir, e Bruce o amparou com cuidado. Parecia tão estranho que aquele homem fosse o mesmo professor elétrico e excêntrico para o qual trabalhava há quatro anos.
- E eu preciso impedir. Preciso impedir mas não alcanço...
- Para onde o senhor foi? – Bruce perguntou.
Wilcox continuou tossindo. Ele começara a desaparecer.
- Eu fui atrás de mim mesmo. Impedir eu mesmo de me casar com aquela...
No segundo seguinte, ele desaparecera, como uma miragem.
Ele ligou o celular. Sete mensagens de Rose, nenhuma de Wilcox.
- Eu acho que ele não sabe para que serve um telefone – Bruce deu de ombros.
- Bom, tanto melhor que ele não tenha ligado. Seria complicado achar uma desculpa.
- Ficar com medo do trabalho não é desculpa.
- Difícil de acreditar, quando você não lida com animais selvagens, terroristas ou crianças do primário...
- Você ainda vai se arrepender de dizer isso, mocinha.
A última frase viera distante, o que forçou Moira a voltar-se para trás.
Era Wilcox. Mas ao mesmo tempo, não era Wilcox. Era alguém parecido com ele, apoiado em uma bengala, o rosto amarelo e fraco, muito mais velho. Ainda vestia-se com apuro, mas o cabelo tinha há muito lhe abandonado e os olhos não tinham o mesmo brilho. Estava doente, francmanete em decadência, o corpo projetado para a frente como se tudo lhe doesse.
Bruce pensou em dizer que aquilo parecia um disfarce muito bom. Mas o modo como Wilcox olhava – com dor, com cansaço – era por demais genuíno.
- Professor! – Moira se assustara.
- Eu estou vindo de longe. De treze anos no futuro – a voz de Wilcox não saía da garganta, parecia perder-sen o caminho – E tenho muito pouco tempo, Moira, meu anjinho. Nos dois sentidos. Esse buraco temporal vai acabar em breve... E eu também.
Antes que qualquer um dos dois jovens respondesse, ele continuou.
- Eu estou vindo de novembro de 2019, querida. Daqui a um mês, no meu espaço-tempo, eu vou morrer... Por causa de um erro que eu cometi neste dia. Hoje. Enquanto vocês estavam no cinema, pondo em marcha o que vai ser o futuro de vocês dois juntos e mais não posso dizer, eu estava em West Rotherithe. Eu cometi um grande erro. E eu preciso que vocês me impeçam, porque esse erro vai me matar!
O Wilcox do futuro começou a tossir, e Bruce o amparou com cuidado. Parecia tão estranho que aquele homem fosse o mesmo professor elétrico e excêntrico para o qual trabalhava há quatro anos.
- E eu preciso impedir. Preciso impedir mas não alcanço...
- Para onde o senhor foi? – Bruce perguntou.
Wilcox continuou tossindo. Ele começara a desaparecer.
- Eu fui atrás de mim mesmo. Impedir eu mesmo de me casar com aquela...
No segundo seguinte, ele desaparecera, como uma miragem.
Friday, September 15, 2006
Anita, Anouk
Bruce e Moira sentaram-se em uma das fileiras do fundo. Além dos dois, um senhor de boina, um grupo de colegiais e duas turistas japonesas estavam também presentes na sessão de La Dolce vita.
Bruce se espreguiçou na poltrona. Tirou discretamente os sapatos, o que chamou a atenção de Moira.
- O quê? O que está fazendo? – ela perguntou.
- Apenas... relaxando. O seu sofá, eu devo dizer...
- Eu sei.
- Minhas costas estão doloridas.
- Você pagou nossa entrada. Vê se não dorme.
Bruce, assentindo levemente, sorriu para Anita Ekberg.
- Impossível.
Ele tirou o celular do bolso, lembrando-se de desligá-lo. A caixa postal informava que Rose havia deixado três recados. Deu uma risadinha amargurada.
- O que foi? – Moira olhou para ele.
- Rose. De novo. Talvez eu devesse aposentar o celular de uma vez. Ela e minha mãe são as únicas pessoas que realmente fazem questão de me ligar e, neste caso, não penso que seja boa coisa.
O senhor de boina virou-se para os dois e fez um gesto ríspido, pedindo silêncio.
- OK. Estou quieto, agora – Bruce se afundou na poltrona.
Bruce se espreguiçou na poltrona. Tirou discretamente os sapatos, o que chamou a atenção de Moira.
- O quê? O que está fazendo? – ela perguntou.
- Apenas... relaxando. O seu sofá, eu devo dizer...
- Eu sei.
- Minhas costas estão doloridas.
- Você pagou nossa entrada. Vê se não dorme.
Bruce, assentindo levemente, sorriu para Anita Ekberg.
- Impossível.
Ele tirou o celular do bolso, lembrando-se de desligá-lo. A caixa postal informava que Rose havia deixado três recados. Deu uma risadinha amargurada.
- O que foi? – Moira olhou para ele.
- Rose. De novo. Talvez eu devesse aposentar o celular de uma vez. Ela e minha mãe são as únicas pessoas que realmente fazem questão de me ligar e, neste caso, não penso que seja boa coisa.
O senhor de boina virou-se para os dois e fez um gesto ríspido, pedindo silêncio.
- OK. Estou quieto, agora – Bruce se afundou na poltrona.
"Marcello!"
Moira terminou de arrumar o sofá-cama. Parecia um pouco mais pálida do que costume, contra a luz do sol que entrava pela janela. O barulho da estação de Liverpool Street já começava a ser ouvido.
- Bruce, eu acho que não vou trabalhar. Se eu tiver que ver o professor hoje...
Desviou o rosto, com uma careta. Ele entendia. Não seria nada fácil agüentar Wilcox se vangloriando de ter conseguido um feito inédito na História Mundial - e colocando o mundo em risco, ainda por cima. Não seria nada fácil. E ele ainda teria que aturar Rose o dia todo no telefone - porque ela ligaria de novo. E de novo.
- Bom, e o que você pretende fazer? Gazetear por aí e roubar doces de vendinhas?
- Na verdade, eu acho que vou me enfiar num cinema que eu conheço lá em Portobello e ficar vendo filmes velhos até pegar no sono.
- Filmes velhos - Bruce arqueou as sobrancelhas.
Moira pegou o casaco que estava pendurado atrás da porta. Não notara o súbito interesse de Bruce.
- Que tipo de filmes velhos?
- Fellini. Antonioni. Essas coisas - e, voltando-se para trás - Quer vir? Sem compromisso.
- Bruce, eu acho que não vou trabalhar. Se eu tiver que ver o professor hoje...
Desviou o rosto, com uma careta. Ele entendia. Não seria nada fácil agüentar Wilcox se vangloriando de ter conseguido um feito inédito na História Mundial - e colocando o mundo em risco, ainda por cima. Não seria nada fácil. E ele ainda teria que aturar Rose o dia todo no telefone - porque ela ligaria de novo. E de novo.
- Bom, e o que você pretende fazer? Gazetear por aí e roubar doces de vendinhas?
- Na verdade, eu acho que vou me enfiar num cinema que eu conheço lá em Portobello e ficar vendo filmes velhos até pegar no sono.
- Filmes velhos - Bruce arqueou as sobrancelhas.
Moira pegou o casaco que estava pendurado atrás da porta. Não notara o súbito interesse de Bruce.
- Que tipo de filmes velhos?
- Fellini. Antonioni. Essas coisas - e, voltando-se para trás - Quer vir? Sem compromisso.
Sobre um celular
- Rose?
Houve silêncio do outro lado da linha – ainda que, ao fundo, uma mulher continuasse a matraquear.
- Bruce? É você?
Bruce olhou para o relógio de pulso. Marcava pouco mais de oito da manhã.
- Tudo indica que sim. Com quem está brigando?
- Annabeth – acrescentou, enfadada: - Minha colega de trabalho. Bruce, quem atendeu o celular?
Ele olhou para Moira, que sacudiu os ombros. Ela não tinha, tampouco, como se explicar.
- Minha colega de trabalho. Quanta coincidência.
- Por que sua colega de trabalho atendeu o seu celular?
- Porque... – ele hesitou. Sentou-se rapidamente, calçando os sapatos. – Porque eu estou no trabalho. E ela está no trabalho. Porque trabalhamos juntos.
- E você deixa seu celular largado por aí, para ser atendido por qualquer um?
- Não seja grosseira, Rose. Eu estava em outra sala, ela ouviu e atendeu.
- Seu celular.
- Meu celular.
- Então agora eu não preciso me preocupar mais com a sua falta de atenção. Se você estiver em um restaurante, o garçom certamente vai ter a bondade de atender. Ou em uma padaria, talvez o padeiro atenda. O leiteiro, a mulher que faz cobertura de rosquinhas.
- Rose. Eu não fiz de propósito. Não costumo largar as coisas por aí.
- Eu liguei cinco vezes para a sua casa, ontem e hoje. Se você tem um celular, supõe-se que seja para alguma coisa.
- Sim, sim, Rose – Bruce suspirou, zangado. – Me desculpe. Não precisa se preocupar com a integridade do meu celular. Vou ser mais atencioso a respeito das companhias com que ele anda e não vou deixar que chegue depois da meia-noite. Obrigado, até mais.
Desligou o aparelho antes mesmo que pudesse se dar conta do que fazia, ou que possíveis conseqüências precisaria sofrer. Levantou-se e checou os bolsos do casaco.
- Wilcox ligou? – perguntou.
- Não. Ainda não. Talvez esteja excitado demais com a máquina para se lembrar da nossa existência.
- É o que me preocupa – ele esfregou os olhos. Ainda parecia cansado. – Me desculpe você também. Por Rose. Ela é bastante... dramática.
Moira riu:
- Não se preocupe. Se servir de consolo, ela foi bastante monossilábica durante os poucos segundos em que trocamos palavras.
Houve silêncio do outro lado da linha – ainda que, ao fundo, uma mulher continuasse a matraquear.
- Bruce? É você?
Bruce olhou para o relógio de pulso. Marcava pouco mais de oito da manhã.
- Tudo indica que sim. Com quem está brigando?
- Annabeth – acrescentou, enfadada: - Minha colega de trabalho. Bruce, quem atendeu o celular?
Ele olhou para Moira, que sacudiu os ombros. Ela não tinha, tampouco, como se explicar.
- Minha colega de trabalho. Quanta coincidência.
- Por que sua colega de trabalho atendeu o seu celular?
- Porque... – ele hesitou. Sentou-se rapidamente, calçando os sapatos. – Porque eu estou no trabalho. E ela está no trabalho. Porque trabalhamos juntos.
- E você deixa seu celular largado por aí, para ser atendido por qualquer um?
- Não seja grosseira, Rose. Eu estava em outra sala, ela ouviu e atendeu.
- Seu celular.
- Meu celular.
- Então agora eu não preciso me preocupar mais com a sua falta de atenção. Se você estiver em um restaurante, o garçom certamente vai ter a bondade de atender. Ou em uma padaria, talvez o padeiro atenda. O leiteiro, a mulher que faz cobertura de rosquinhas.
- Rose. Eu não fiz de propósito. Não costumo largar as coisas por aí.
- Eu liguei cinco vezes para a sua casa, ontem e hoje. Se você tem um celular, supõe-se que seja para alguma coisa.
- Sim, sim, Rose – Bruce suspirou, zangado. – Me desculpe. Não precisa se preocupar com a integridade do meu celular. Vou ser mais atencioso a respeito das companhias com que ele anda e não vou deixar que chegue depois da meia-noite. Obrigado, até mais.
Desligou o aparelho antes mesmo que pudesse se dar conta do que fazia, ou que possíveis conseqüências precisaria sofrer. Levantou-se e checou os bolsos do casaco.
- Wilcox ligou? – perguntou.
- Não. Ainda não. Talvez esteja excitado demais com a máquina para se lembrar da nossa existência.
- É o que me preocupa – ele esfregou os olhos. Ainda parecia cansado. – Me desculpe você também. Por Rose. Ela é bastante... dramática.
Moira riu:
- Não se preocupe. Se servir de consolo, ela foi bastante monossilábica durante os poucos segundos em que trocamos palavras.
Sob o olhar de Einstein
Bruce acordou com o som de uma voz.
Foi quando percebeu que não estava em sua cama. A rigor, não estava nem na sua casa.
Olhou em volta, a cabeça vibrando como um tambor. Estava vestido, em cima de um sofá-cama vermelho. À esquerda, um pôster de Einstein observava o local com ar de quem pensa o que vai comer no almoço.
Alguém se sentou aos pés da cama improvisada, fazendo ranger as molas do colchão. Ele teve dificuldade em focalizar a imagem por alguns instantes.
- Bruce, é sua namorada no telefone.
Era Moira, com o celular de Bruce nas mãos – uma coisa ridiculamente antiquada, com os botões descascando e uma antena presa com fita adesiva. Ela estava pronta para sair para o trabalho, embora ainda estivesse um tanto abatida.
- Eu dormi aqui?
- Desmaiou seria o termo certo. Nem jantou. Eu não consegui te acordar.
- E a Rose está no telefone.
- Parece que sim.
Bruce colocou o aparelho na orelha, mas estava tão tonto que parecia ter se esquecido como se dizia “alô”. Do outro lado da linha, Rose falava - muito depressa e muito alto - alguma coisa que lhe parecia estupidamente incompreensivo.
Foi quando percebeu que não estava em sua cama. A rigor, não estava nem na sua casa.
Olhou em volta, a cabeça vibrando como um tambor. Estava vestido, em cima de um sofá-cama vermelho. À esquerda, um pôster de Einstein observava o local com ar de quem pensa o que vai comer no almoço.
Alguém se sentou aos pés da cama improvisada, fazendo ranger as molas do colchão. Ele teve dificuldade em focalizar a imagem por alguns instantes.
- Bruce, é sua namorada no telefone.
Era Moira, com o celular de Bruce nas mãos – uma coisa ridiculamente antiquada, com os botões descascando e uma antena presa com fita adesiva. Ela estava pronta para sair para o trabalho, embora ainda estivesse um tanto abatida.
- Eu dormi aqui?
- Desmaiou seria o termo certo. Nem jantou. Eu não consegui te acordar.
- E a Rose está no telefone.
- Parece que sim.
Bruce colocou o aparelho na orelha, mas estava tão tonto que parecia ter se esquecido como se dizia “alô”. Do outro lado da linha, Rose falava - muito depressa e muito alto - alguma coisa que lhe parecia estupidamente incompreensivo.
Monday, September 11, 2006
Encontros e Desencontros (2003)
Bruce recostou-se em uma das cadeiras da cozinha, sentindo-se letárgico. Acompanhou os movimentos de Moira até que os olhos começaram a pesar.
- O que precisamos, você e eu, é de uma boa noite de sono. Talvez as viagens consumam energia demais.
Ele olhou para mesa; os cotovelos começaram a escorregar lentamente, enquanto Bruce lutava para se manter desperto. Ouvia os sons do fogão, o chiado da fritura. Líquido, copo, o vento da década de sessenta soprando, Wilcox rindo e o rangido dos trilhos do metrô.
Os trilhos fizeram com que arregalasse os olhos. Ergueu o rosto para Moira.
- Encontrar um buraco próximo? – ele quase gaguejou. – Voltar? Está pensando em voltar? Você realmente pensou nisso?
Moira deu de ombros, de costas para ele.
- Como eu poderia não pensar?
- Talvez... por causa de tudo que eu já disse? Você esteve lá.
- Exatamente.
- Não. Você esteve lá. Você viu o que a máquina pode fazer. É real. Imagine qualquer erro que possa parecer minimamente insignificante, no que se tornaria trinta anos depois. Ou cinqüenta, ou quarenta? Deus, onde é que Wilcox pode ter ido? Ele pode ter ido para qualquer lugar, em qualquer época.
- Você não entende, é óbvio.
Bruce se calou. Pensou no pai. Em como teria sido encontrá-lo em alguma época onde ele próprio não existisse. Não soube por que teria desejado tal encontro. Não soube por que Moira considerava uma nova oportunidade.
Os mortos estavam, afinal, mortos.
- O que precisamos, você e eu, é de uma boa noite de sono. Talvez as viagens consumam energia demais.
Ele olhou para mesa; os cotovelos começaram a escorregar lentamente, enquanto Bruce lutava para se manter desperto. Ouvia os sons do fogão, o chiado da fritura. Líquido, copo, o vento da década de sessenta soprando, Wilcox rindo e o rangido dos trilhos do metrô.
Os trilhos fizeram com que arregalasse os olhos. Ergueu o rosto para Moira.
- Encontrar um buraco próximo? – ele quase gaguejou. – Voltar? Está pensando em voltar? Você realmente pensou nisso?
Moira deu de ombros, de costas para ele.
- Como eu poderia não pensar?
- Talvez... por causa de tudo que eu já disse? Você esteve lá.
- Exatamente.
- Não. Você esteve lá. Você viu o que a máquina pode fazer. É real. Imagine qualquer erro que possa parecer minimamente insignificante, no que se tornaria trinta anos depois. Ou cinqüenta, ou quarenta? Deus, onde é que Wilcox pode ter ido? Ele pode ter ido para qualquer lugar, em qualquer época.
- Você não entende, é óbvio.
Bruce se calou. Pensou no pai. Em como teria sido encontrá-lo em alguma época onde ele próprio não existisse. Não soube por que teria desejado tal encontro. Não soube por que Moira considerava uma nova oportunidade.
Os mortos estavam, afinal, mortos.
À beira do fogão

Moira assentiu, enquanto seguia para a cozinha. Tinha erguido o rosto, embora ainda estivesse um tanto abalado.
- Caixa de Pandora ou não, ela já está aberta. E agora eu vou ficar com esse fantasma na cabeça.
Parou por um minuto e abriu um sorriso cansado.
- Acabei de me lembrar de algo. Aquela abertura no tempo foi única, nunca mais retornará. O que é um alívio, de certa forma...
- Alívio? – Bruce não parecia entender.
- O professor não pode, ainda, escolher para onde ele vai. Ainda. Ele está ao sabor dos buracos que ele encontra no tempo. Isso significa que eu não posso voltar, também. A não ser que eu encontre um buraco próximo àquela data, mas eu estou com medo. Você tem razão. Arthur Harris é um nome comum, não? - e, numa pausa forçada - Você tem estômago para comer alguma coisa?
Bruce assentiu, sem discutir. Descobrira que cozinhar deixava Moira calma – enquanto ela se concentrava nos ingredientes e no fogão, ela não se preocupava com o resto. O cheiro da comida era sua própria máquina do tempo - o tempero era parecido com o que o pai de Bruce usava para cozinhar, geralmente escondido na cozinha, longe das garras de Honoria e sua mania de organização.
Ao contrário do que dissera, acreditava que aquele homem era o Arthur Harris certo - era bem parecido com o rapaz ossudo e cabeludo da foto que Moira tinha na carteira. Mas como se recusava a crer que tudo oque tinha passado era real, se recusava tambéma admitir que tinha visto, vivo e jovem, um homem que estava morto há mais de vinte anos.
Wednesday, September 06, 2006
After Party
Bruce aguardou. Como Moira não deu explicações maiores, ele sentou-se no sofá, ao lado dela. Tendo conseguido controlar a raiva, sentiu o choque tardio de toda a experiência. O corpo tremia de leve.
- Seu pai? – perguntou; a própria voz era um resquício.
Moira somente assentiu. Bruce, então, escorregou uma das mãos pela nuca, a palma fria como um cubo de gelo. Suspirou.
- Pode estar enganada. Pode estar.
- Tenho certeza de que era ele – Moira insistiu. Não chegou a encará-lo.
- Moira, você mal se lembra do seu pai. Poderia ser qualquer Fulano.
Bruce se arrependeu em seguida. Estava cansado demais para lembrar que devia medir as palavras em uma situação tão absurda.
- Quero dizer, não. É que... – ele fez uma pausa. – Moira... eu sinto muito. Não era o que eu queria dizer.
Moira pareceu magoada. Ficou de pé no mesmo instante, caminhando em direção da cozinha. Bruce cerrou os dentes, amaldiçoando a si mesmo, e seguiu a garota.
- Por favor.
Bruce se aproximou, tocando o ombro dela. Moira não reagiu – permaneceu como estava, encarando o chão.
- Talvez, sim. Talvez seja o seu pai, não digo que não acredito em você. Mas o que Wilcox construiu não deixa de ser uma caixa de Pandora.
- Seu pai? – perguntou; a própria voz era um resquício.
Moira somente assentiu. Bruce, então, escorregou uma das mãos pela nuca, a palma fria como um cubo de gelo. Suspirou.
- Pode estar enganada. Pode estar.
- Tenho certeza de que era ele – Moira insistiu. Não chegou a encará-lo.
- Moira, você mal se lembra do seu pai. Poderia ser qualquer Fulano.
Bruce se arrependeu em seguida. Estava cansado demais para lembrar que devia medir as palavras em uma situação tão absurda.
- Quero dizer, não. É que... – ele fez uma pausa. – Moira... eu sinto muito. Não era o que eu queria dizer.
Moira pareceu magoada. Ficou de pé no mesmo instante, caminhando em direção da cozinha. Bruce cerrou os dentes, amaldiçoando a si mesmo, e seguiu a garota.
- Por favor.
Bruce se aproximou, tocando o ombro dela. Moira não reagiu – permaneceu como estava, encarando o chão.
- Talvez, sim. Talvez seja o seu pai, não digo que não acredito em você. Mas o que Wilcox construiu não deixa de ser uma caixa de Pandora.
Ovo de Serpente
A saída para o Hampton, via túnel secreto, demorava quarenta minutos. Wilcox tinha colocado um carro dentro do túnel (um Ford Anglia arrebentado, sem pára-choques ou vidros) para o transporte. Durante todo o trajeto, o professor matraqueou sem perceber que estava falando sozinho: Bruce estava nervoso demais para falar e Moira parecia em estado de choque.
Bruce se ofereceu para acompanhar a garota de volta até seu apartamento, em Liverpool Street. Por via das dúvidas, achou melhor não ir de metrô: não sabia quanto tempo ainda demoraria para deixar de ter medo de trens e vagões.
Talvez nunca.
Ele estranhara o tamanho do apartamento em Liverpool Street, o modo como Moira vivia. Era um lugar limpo e estranhamente impessoal: nenhuma foto de família, nenhum pedaço de história. Quem teria um retrato de Einstein na parede mas nenhuma foto dos pais? Ou então do avô, que tanto a adorava (e ela parecia amar)?
Moira sentou-se automaticamente no sofá e fechou os olhos. Estava ainda mais pálida, as mãos apertando algo invisível debaixo das palmas.
- Eu não sei se vou conseguir ir trabalhar amanhã - ela disse, com voz incerta - Acho que eu ajudei um maluco a chocar um ovo de serpente! Uma máquina daquela, nas mãos do Wilcox?
- Exatamente o que eu pensei - Bruce respondeu - Não me surpreenderia se amanhã a gente acordasse e visse que a Grã-Bretanha virou uma república ou algo pior.
- Aquele homem. Em Cambridge. O homem que entrou na loja...
Moira abriu os olhos novamente.
- Eu tenho que voltar ali. Eu tenho certeza que aquele era o meu pai.
Bruce se ofereceu para acompanhar a garota de volta até seu apartamento, em Liverpool Street. Por via das dúvidas, achou melhor não ir de metrô: não sabia quanto tempo ainda demoraria para deixar de ter medo de trens e vagões.
Talvez nunca.
Ele estranhara o tamanho do apartamento em Liverpool Street, o modo como Moira vivia. Era um lugar limpo e estranhamente impessoal: nenhuma foto de família, nenhum pedaço de história. Quem teria um retrato de Einstein na parede mas nenhuma foto dos pais? Ou então do avô, que tanto a adorava (e ela parecia amar)?
Moira sentou-se automaticamente no sofá e fechou os olhos. Estava ainda mais pálida, as mãos apertando algo invisível debaixo das palmas.
- Eu não sei se vou conseguir ir trabalhar amanhã - ela disse, com voz incerta - Acho que eu ajudei um maluco a chocar um ovo de serpente! Uma máquina daquela, nas mãos do Wilcox?
- Exatamente o que eu pensei - Bruce respondeu - Não me surpreenderia se amanhã a gente acordasse e visse que a Grã-Bretanha virou uma república ou algo pior.
- Aquele homem. Em Cambridge. O homem que entrou na loja...
Moira abriu os olhos novamente.
- Eu tenho que voltar ali. Eu tenho certeza que aquele era o meu pai.
Thursday, August 31, 2006
Mais ameaças
Bruce, num piscar de olhos, descobriu-se de volta ao vagão; sentado e com sono. Mais um passageiro ordinário de qualquer manhã londrina do que um viajante do tempo.
Olhou para o lado: Moira estava deitada, desperta, parecendo confusa demais para reagir. O professor Wilcox, em contrapartida, foliava pelo trem sem nenhum pudor. Bruce tentou dizer alguma coisa, mas só pôde produzir um grunhido esquisito.
- Como foi? O que acharam? – Wilcox havia irrompido da cabine de máquinas com o peito estufado. O herói da nação. – Gostaram do nosso passeio, eh?
Bagunçou os cabelos de Bruce, que, apoiando-se mal e mal, pôs-se de pé. O professor ainda ergueu um dedinho indicador quando o assistente rumou para fora do trem, cambaleante, a saída clássica de quem só retornaria com uma serra elétrica e sede de vingança, mas não disse nada que pudesse impedi-lo.
- Ora, ora. Estamos com humores alterados hoje, não? – Wilcox indagou consigo mesmo. Tendo notado Moira, aproximou-se dela e se ajoelhou. – Alô, Moira. Está tudo bem aí? – recebeu-a com um sorriso amarelado.
Moira ainda levou algum tempo para fixar os olhos no professor. Parecia ter se perdido em um longo raciocínio.
- Nós realmente estávamos lá – disse, a voz baixa como um sussurro.
- É claro que sim! Você e Bruce são um pouco céticos demais. Bem, Bruce é, na verdade... ah, esqueça. Você precisa de ajuda para se levantar?
- Não, eu estou bem.
- A primeira vez é sempre estranha. Vai melhorar com o tempo – Wilcox, de repente, franziu o cenho. – Está ouvindo isso? Um pouco de eco?
Moira, de pouca vontade, levantou-se.
- Parece que estão batendo alguma coisa em – Wilcox começou, mas, de repente, se tornou pálido. – Bruce! – ele ganiu, e saiu do trem em disparada.
No final da estação, Bruce, com o que havia sobrado de um velho assento de trem, tentava abrir a passagem que levava ao galpão de Wilcox. O professor correu até ele, horrorizado.
- Bruce, o que está fazendo?!
- O que pareço estar fazendo? – Bruce tomou fôlego. Colocou o assento no chão. – Vou precisar desenhar?
- Você podia ter sido educado e... e pedido! Agora, seja um bom assistente. Não faça nada que eu não faria.
- Se não abrir, eu mesmo abro, mesmo que leve o resto do dia!
- Ainda sou seu superior, Bruce Glendoning!
- Talvez. Mas eu sou o homem com o assento.
Wilcox mordeu os lábios. Ele pescou um cordãozinho que mantinha em volta do pescoço, um molho de chaves que escondia sob a roupa.
- Ótimo – declarou, enfezado. – Chegue para lá.
Olhou para o lado: Moira estava deitada, desperta, parecendo confusa demais para reagir. O professor Wilcox, em contrapartida, foliava pelo trem sem nenhum pudor. Bruce tentou dizer alguma coisa, mas só pôde produzir um grunhido esquisito.
- Como foi? O que acharam? – Wilcox havia irrompido da cabine de máquinas com o peito estufado. O herói da nação. – Gostaram do nosso passeio, eh?
Bagunçou os cabelos de Bruce, que, apoiando-se mal e mal, pôs-se de pé. O professor ainda ergueu um dedinho indicador quando o assistente rumou para fora do trem, cambaleante, a saída clássica de quem só retornaria com uma serra elétrica e sede de vingança, mas não disse nada que pudesse impedi-lo.
- Ora, ora. Estamos com humores alterados hoje, não? – Wilcox indagou consigo mesmo. Tendo notado Moira, aproximou-se dela e se ajoelhou. – Alô, Moira. Está tudo bem aí? – recebeu-a com um sorriso amarelado.
Moira ainda levou algum tempo para fixar os olhos no professor. Parecia ter se perdido em um longo raciocínio.
- Nós realmente estávamos lá – disse, a voz baixa como um sussurro.
- É claro que sim! Você e Bruce são um pouco céticos demais. Bem, Bruce é, na verdade... ah, esqueça. Você precisa de ajuda para se levantar?
- Não, eu estou bem.
- A primeira vez é sempre estranha. Vai melhorar com o tempo – Wilcox, de repente, franziu o cenho. – Está ouvindo isso? Um pouco de eco?
Moira, de pouca vontade, levantou-se.
- Parece que estão batendo alguma coisa em – Wilcox começou, mas, de repente, se tornou pálido. – Bruce! – ele ganiu, e saiu do trem em disparada.
No final da estação, Bruce, com o que havia sobrado de um velho assento de trem, tentava abrir a passagem que levava ao galpão de Wilcox. O professor correu até ele, horrorizado.
- Bruce, o que está fazendo?!
- O que pareço estar fazendo? – Bruce tomou fôlego. Colocou o assento no chão. – Vou precisar desenhar?
- Você podia ter sido educado e... e pedido! Agora, seja um bom assistente. Não faça nada que eu não faria.
- Se não abrir, eu mesmo abro, mesmo que leve o resto do dia!
- Ainda sou seu superior, Bruce Glendoning!
- Talvez. Mas eu sou o homem com o assento.
Wilcox mordeu os lábios. Ele pescou um cordãozinho que mantinha em volta do pescoço, um molho de chaves que escondia sob a roupa.
- Ótimo – declarou, enfezado. – Chegue para lá.
Thursday, August 24, 2006
Um breve instante no tempo
Os cartazes indicavam os partidos para a eleição geral, que estava marcada para dali a duas semanas. O sorriso triste de Harold Macmillian, o líder do Partido Trabalhista, aparecia de vez em quando nos muros. Algumas pichações também corriam as paredes – nomes de partidos esquisitos apareciam em quase todos os cantos.
- Decididamente, estamos em 1974 – Wilcox disse em voz alta – Ou isso ou o tempo foi misericordioso com esses cartazes...
Bruce não parecia convencido, mas uma banca de jornal no caminho lhe forçou a ver a realidade: as manchetes anunciavam o fim da ditadura de Salazar em Portugal, os prognósticos para a eleição e a parada de sucessos: Suzi Quatro estava em primeiro lugar com “Devil Gate Drive”. Os três olhavam as notícias em silêncio, como se estivessem diante dos resquícios de outra civilização.
Um homem de longos cabelos escuros entrou na banca de jornal, as mãos escondidas dentro dos bolsos. Ele vestia um longo casaco preto, que parecia contrastar com seu rosto pálido e o corpo ossudo, magro como um palito.
- Matt! Chegou aí as revistas que eu encomendei?
- Nada ainda, sr. Harris.
- Por que é que você me chama de senhor? A gente tem a mesma idade! – o homem no casaco preto sorriu.
- Porque você é cliente, Arthur, e os clientes a gente chama de ‘senhor’.
Moira parou de andar de repente, como se tivesse tomado um soco. Arthur Harris?
E, no instante seguinte, tudo ficou escuro mais uma vez.
Ela abriu os olhos e viu somente o teto do trem.
- Decididamente, estamos em 1974 – Wilcox disse em voz alta – Ou isso ou o tempo foi misericordioso com esses cartazes...
Bruce não parecia convencido, mas uma banca de jornal no caminho lhe forçou a ver a realidade: as manchetes anunciavam o fim da ditadura de Salazar em Portugal, os prognósticos para a eleição e a parada de sucessos: Suzi Quatro estava em primeiro lugar com “Devil Gate Drive”. Os três olhavam as notícias em silêncio, como se estivessem diante dos resquícios de outra civilização.
Um homem de longos cabelos escuros entrou na banca de jornal, as mãos escondidas dentro dos bolsos. Ele vestia um longo casaco preto, que parecia contrastar com seu rosto pálido e o corpo ossudo, magro como um palito.
- Matt! Chegou aí as revistas que eu encomendei?
- Nada ainda, sr. Harris.
- Por que é que você me chama de senhor? A gente tem a mesma idade! – o homem no casaco preto sorriu.
- Porque você é cliente, Arthur, e os clientes a gente chama de ‘senhor’.
Moira parou de andar de repente, como se tivesse tomado um soco. Arthur Harris?
E, no instante seguinte, tudo ficou escuro mais uma vez.
Ela abriu os olhos e viu somente o teto do trem.
Chegada
Bruce sentia as mãos arderem e o crânio latejar, dolorido. O professor Wilcox se aproximou, perfeitamente recomposto. Não tocou no assistente, ou fez menção de ajudá-lo. Agia como se houvesse acabado de encontrar um animalzinho atropelado.
- Alô, Bruce. Tudo bem aí em baixo?
- Me refazendo aos poucos – Bruce murmurou, a sensibilidade voltando devagar ao resto do corpo; quando achou que este já lhe pertencia mais uma vez, ergueu-se, massageando a testa. – Onde estamos?
- Em 1974 – Wilcox informou, seguindo com um longo assobio. – Cambridge, um dos meus lugares preferidos.
Bruce deu um riso contido. Caminhou até Moira, embora suas pernas ainda teimassem em não responder.
- Você está... – ele começou, encarando a garota. – Apesar de ter enfrentado uma... seja lá o que foi... está bem?
Moira pareceu achá-lo engraçado.
- Estou. Você é que não parece muito bem.
Bruce assentiu.
- Vai passar.
Ele se virou; um pé tropeçou no outro e seguiu-se uma queda inaudível, apenas curiosa. Bruce tornou a se levantar no mesmo instante.
- Estou bem. Estou bem.
- Estão prontos para um tour, assistentes?
Wilcox tomou um dos braços de Moira, como um cavalheiro.
- Não estamos em 1974 – Bruce afirmou, convicto.
- Ah, estamos sim, Bruce. Totalmente.
- Alô, Bruce. Tudo bem aí em baixo?
- Me refazendo aos poucos – Bruce murmurou, a sensibilidade voltando devagar ao resto do corpo; quando achou que este já lhe pertencia mais uma vez, ergueu-se, massageando a testa. – Onde estamos?
- Em 1974 – Wilcox informou, seguindo com um longo assobio. – Cambridge, um dos meus lugares preferidos.
Bruce deu um riso contido. Caminhou até Moira, embora suas pernas ainda teimassem em não responder.
- Você está... – ele começou, encarando a garota. – Apesar de ter enfrentado uma... seja lá o que foi... está bem?
Moira pareceu achá-lo engraçado.
- Estou. Você é que não parece muito bem.
Bruce assentiu.
- Vai passar.
Ele se virou; um pé tropeçou no outro e seguiu-se uma queda inaudível, apenas curiosa. Bruce tornou a se levantar no mesmo instante.
- Estou bem. Estou bem.
- Estão prontos para um tour, assistentes?
Wilcox tomou um dos braços de Moira, como um cavalheiro.
- Não estamos em 1974 – Bruce afirmou, convicto.
- Ah, estamos sim, Bruce. Totalmente.
Instante Zero
Do lado de dentro, o trem parecia como qualquer outro trem de metrô em Londres: pequeno, com assentos estofados de um tom esquisito de verde. Só que a cabine de comando estava aberta e cheia de computadores. Era o brinquedo de Alphonsine Wilcox - a sua máquina do tempo.
O professor sentou-se orgulhosamente à frente dos comandos e ligou as engrenagens. Um ruído branco tomou conta do trem. Moira acomodou-se como pôde em um dos bancos, mantendo Bruce próximo. Ele estava verde outra vez.
- Le temps détruit tout, le temps reconstruit tout - Moira suspirou para si mesma.
Uma alavanca fora puxada e o trem se pôs em movimento, a princípio muito lentamente, dando voltas pelos trilhos circulares. À medida que ia pegando velocidade, Bruce ia ficando cada vez mais verde, afundando no banco do trem. Três minutos de “viagem” e o trem já estava a quase oitenta por hora, o que era uma velocidade temerária para um circuito que tinha, por baixo, sessenta anos. As luzes tremiam, as cadeiras balançavam, Bruce caiu no corredor.
- Wilcox! A quantos por hora esse troço chega? – Moira gritou, se segurando para não cair junto.
- Como? - o professor não escuatava nada por causa do barulho.
- A velocidade! Quanto é a velocidade?!
- Ah! Teoricamente, este trem chega a duzentos quilômetros por hora.
- Essa porcaria vai desmontar se chegar perto disso!
Foi quando as luzes do trem se apagaram e uma sensação de falta de gravidade tomou conta dos ocupantes. Pareceu durar uma eternidade – a exclusão da consciência de lugar, de tempo, de espaço, um zumbido muito fino cantando dentro da caixa craniana.
E de repente, o chão duro, a tontura, o ar que não chegava aos pulmões. Moira tateou o chão, a cabeça explodindo, o sangue sem saber se corria para o crânio ferido ou para as pernas, que ela jurava não conseguir sentir.
Um vento gelado, cortante, lhe atiçou os sentidos. Estava tocando uma calçada - pedras irregulares, arredondadas pelo tempo.
- Fez boa viagem, Moira? - Wilcox já estava de pé, dando pequenos pulinhos - Você vai aprender a aterrisar com o tempo... Espero que o Bruce aprenda. Eu acho que ele desmaiou, pobre coitado.
O professor sentou-se orgulhosamente à frente dos comandos e ligou as engrenagens. Um ruído branco tomou conta do trem. Moira acomodou-se como pôde em um dos bancos, mantendo Bruce próximo. Ele estava verde outra vez.
- Le temps détruit tout, le temps reconstruit tout - Moira suspirou para si mesma.
Uma alavanca fora puxada e o trem se pôs em movimento, a princípio muito lentamente, dando voltas pelos trilhos circulares. À medida que ia pegando velocidade, Bruce ia ficando cada vez mais verde, afundando no banco do trem. Três minutos de “viagem” e o trem já estava a quase oitenta por hora, o que era uma velocidade temerária para um circuito que tinha, por baixo, sessenta anos. As luzes tremiam, as cadeiras balançavam, Bruce caiu no corredor.
- Wilcox! A quantos por hora esse troço chega? – Moira gritou, se segurando para não cair junto.
- Como? - o professor não escuatava nada por causa do barulho.
- A velocidade! Quanto é a velocidade?!
- Ah! Teoricamente, este trem chega a duzentos quilômetros por hora.
- Essa porcaria vai desmontar se chegar perto disso!
Foi quando as luzes do trem se apagaram e uma sensação de falta de gravidade tomou conta dos ocupantes. Pareceu durar uma eternidade – a exclusão da consciência de lugar, de tempo, de espaço, um zumbido muito fino cantando dentro da caixa craniana.
E de repente, o chão duro, a tontura, o ar que não chegava aos pulmões. Moira tateou o chão, a cabeça explodindo, o sangue sem saber se corria para o crânio ferido ou para as pernas, que ela jurava não conseguir sentir.
Um vento gelado, cortante, lhe atiçou os sentidos. Estava tocando uma calçada - pedras irregulares, arredondadas pelo tempo.
- Fez boa viagem, Moira? - Wilcox já estava de pé, dando pequenos pulinhos - Você vai aprender a aterrisar com o tempo... Espero que o Bruce aprenda. Eu acho que ele desmaiou, pobre coitado.
Friday, August 18, 2006
I do
Wilcox pareceu tomar a recusa de Bruce como uma ofensa pessoal. Tirou um espelhinho quebrado de uma das muitas gavetas e começou a arrumar os cabelos com a ajuda de um pente amarelo, vários dentes faltando.
- Bruce, sua covardia me espanta. Não fazia parte do seu currículo.
- Não é covardia, é bom senso.
- Não tem a mínima curiosidade de saber como era o mundo antes do seu nascimento?
- Tenho. É claro que tenho – suspirou. – Foi por isso que eu estudei História – Bruce se levantou, ainda parecendo tonto. – Mas livros são seguros. Você não muda o destino da humanidade abrindo e fechando livros, ou escrevendo teses. Bom, talvez sim. De uma forma mais poética.
Ele se aproximou do trem e tocou a face metálica. Deu duas batidas leves, com os nós dos dedos. O cabelo de Wilcox, recém-assentado, ficou em pé mais uma vez.
- Não faça isso! – o professor sibilou, como se qualquer som mais alto pudesse pulverizar as máquinas.
- Espere até eu conseguir um martelo.
- Você vai, Bruce? – Moira perguntou.
Bruce olhou para ela, desfeito de todas as esperanças, e deu de ombros.
- Alguém vai precisar vigiar você dois.
- Bruce, sua covardia me espanta. Não fazia parte do seu currículo.
- Não é covardia, é bom senso.
- Não tem a mínima curiosidade de saber como era o mundo antes do seu nascimento?
- Tenho. É claro que tenho – suspirou. – Foi por isso que eu estudei História – Bruce se levantou, ainda parecendo tonto. – Mas livros são seguros. Você não muda o destino da humanidade abrindo e fechando livros, ou escrevendo teses. Bom, talvez sim. De uma forma mais poética.
Ele se aproximou do trem e tocou a face metálica. Deu duas batidas leves, com os nós dos dedos. O cabelo de Wilcox, recém-assentado, ficou em pé mais uma vez.
- Não faça isso! – o professor sibilou, como se qualquer som mais alto pudesse pulverizar as máquinas.
- Espere até eu conseguir um martelo.
- Você vai, Bruce? – Moira perguntou.
Bruce olhou para ela, desfeito de todas as esperanças, e deu de ombros.
- Alguém vai precisar vigiar você dois.
Algumas explicações de ordem técnica e uma recusa
Moira prestava atenção nos computadores, pensando em silêncio. Olhou em volta, tentando encontrar uma resposta para as questões propostas, quase ao mesmo tempo, por Wilcox e Bruce.
- Bruce, isso viaja no tempo porque é só um acelerador. Para quebrar a barreira do tempo, é preciso velocidade. Lembra que eu te disse que ele precisaria arranjar um jeito de atravessar? Então... É isso... É isso. O trem acelera, e a pessoa que está dentro é projetada para dentro da barreira de tempo. Quando o trem passar de novo pelo mesmo ponto, provavelmente a pessoa será impelida a retornar.
- Mesmo sem o trem na volta?
- Provavelmente. Wilcox, quantos quilômetros tem essa linha?
- Cinco. É uma linha circular. Praticamente um trenzinho particular.
- Faz bem o seu estilo.
- Ora, obrigado – o professor pareceu genuinamente feliz com o elogio.
Moira se aproximou dos computadores. O professor na mesma hora correu assustado, como se a garota fosse um ogro pronto para matar seu cachorrinho de estimação. Ela olhou feio – por um minuto, Bruce achou que ela tinha até rosnado, mas devia ser só ilusão sonora. Afinal, Moira seria incapaz de fazer alguma coisa.
Se bem que há alguns meses, Wilcox parecia igualmente inofensivo. Bruce voltou a encostar-se à pilastra, quase desmaiando.
Enquanto isso, Moira se inclinou para o GPS, e começou a apertar botões com calma. Parecia saber o que estava fazendo, mas Wilcox ficara cada vez mais branco e assustado. O computador principal apontou uma latitude e longitude: 51°45′07″N, 1°15′28″W. Cambridge. O programa indicava que a barreira de tempo era de trinta e dois anos.
- Opa. Temos uma janela de espaço-tempo aqui...
- Moira, meu anjinho, você ainda não solucionou meu problema do lago – Wilcox estava quase soluçando.
- Professor, o senhor sabe que o tempo não é uma entidade estática. Muito provavelmente, esses sumiços são quando você “tropeça” num buraco do tempo passado. É o mesmo problema quanto a chegar no mesmo ponto de onde você saiu – o tempo continua se mexendo, é difícil de mirar!
- E eu continuo existindo?
- Se o buraco não for grande o suficiente, sim. Você disse que dura somente alguns segundos.
- E se o buraco for grande o suficiente?
- Eu não sei... Eu nunca viajei nesse troço!
- Então, vamos para essa falha que você achou. Tenho certeza que você se divertirá muito.
Bruce ficou mais pálido do que antes.
- Eu não vou subir nesse trem!
- Bruce, isso viaja no tempo porque é só um acelerador. Para quebrar a barreira do tempo, é preciso velocidade. Lembra que eu te disse que ele precisaria arranjar um jeito de atravessar? Então... É isso... É isso. O trem acelera, e a pessoa que está dentro é projetada para dentro da barreira de tempo. Quando o trem passar de novo pelo mesmo ponto, provavelmente a pessoa será impelida a retornar.
- Mesmo sem o trem na volta?
- Provavelmente. Wilcox, quantos quilômetros tem essa linha?
- Cinco. É uma linha circular. Praticamente um trenzinho particular.
- Faz bem o seu estilo.
- Ora, obrigado – o professor pareceu genuinamente feliz com o elogio.
Moira se aproximou dos computadores. O professor na mesma hora correu assustado, como se a garota fosse um ogro pronto para matar seu cachorrinho de estimação. Ela olhou feio – por um minuto, Bruce achou que ela tinha até rosnado, mas devia ser só ilusão sonora. Afinal, Moira seria incapaz de fazer alguma coisa.
Se bem que há alguns meses, Wilcox parecia igualmente inofensivo. Bruce voltou a encostar-se à pilastra, quase desmaiando.
Enquanto isso, Moira se inclinou para o GPS, e começou a apertar botões com calma. Parecia saber o que estava fazendo, mas Wilcox ficara cada vez mais branco e assustado. O computador principal apontou uma latitude e longitude: 51°45′07″N, 1°15′28″W. Cambridge. O programa indicava que a barreira de tempo era de trinta e dois anos.
- Opa. Temos uma janela de espaço-tempo aqui...
- Moira, meu anjinho, você ainda não solucionou meu problema do lago – Wilcox estava quase soluçando.
- Professor, o senhor sabe que o tempo não é uma entidade estática. Muito provavelmente, esses sumiços são quando você “tropeça” num buraco do tempo passado. É o mesmo problema quanto a chegar no mesmo ponto de onde você saiu – o tempo continua se mexendo, é difícil de mirar!
- E eu continuo existindo?
- Se o buraco não for grande o suficiente, sim. Você disse que dura somente alguns segundos.
- E se o buraco for grande o suficiente?
- Eu não sei... Eu nunca viajei nesse troço!
- Então, vamos para essa falha que você achou. Tenho certeza que você se divertirá muito.
Bruce ficou mais pálido do que antes.
- Eu não vou subir nesse trem!
Wednesday, August 16, 2006
Saltos
Moira olhou para Bruce. Ele tampouco havia notado que tivera uma das mãos confiscadas; seu rosto ficava cada vez mais verde, e ostentava a expressão de quem poderia colocar o próprio estômago para fora.
- É um trem – Bruce disse, abobalhado, depois de algum tempo.
- Que bom que você notou.
Wilcox vestiu um par de luvas de látex e, com muita gentileza, ligou as máquinas. Houve um estampido breve, regurgitado de algum dos computadores, e então toda a estrutura de trilhos rangeu horrivelmente. O professor parecia satisfeito como nunca. Sorrindo, ele apontava dos computadores para o trem, na esperança de que os assistentes compreendessem um trocadilho ou uma piada.
- É um trem que viaja no tempo – Bruce murmurou.
- Certamente é, certamente é.
Bruce deu um passo para trás, zonzo.
- Você está bem? – Moira perguntou, sem conseguir desviar por completo os olhos dos computadores. Ela não estava verde, mas pálida de surpresa.
- Estou. Não. Não, na verdade. Me sinto estranho. Acho que vou vomitar. Será que eu poderia?...
Wilcox arregalou os olhos, horror dos horrores. Pegou uma sacolinha de papel e estendeu-a de imediato a Bruce.
- Aqui, tome. Nada de sujeira perto das máquinas.
Bruce se retirou para trás de uma pilastra. Sentou-se no chão, possibilidade que, em tempos normais, teria encarado com um olhar de desprezo, situação tão anti-higiênica que era. Temeu olhar para Moira e avistar o trem. Temeu imaginar Wilcox varando véus do tempo dentro do mesmo trem, acenando de uma das janelinhas e pronto para iniciar a Terceira Guerra Mundial ou impedir a evolução das espécies, dependendo de onde acabasse parando.
- Vide, Moira, eu tenho aqui um pequeno problema – a voz do professor ecoava pela estação. – São as falhas temporais.
- Pequenas... falhas? Quer dizer como...
- Sim, exato. Suponhamos que eu estivesse na década de cinqüenta, fazendo – bem, não que seja da sua conta – o que quer que eu estivesse fazendo na década de cinqüenta, hipoteticamente, e então atravessasse um riacho e – puft! – desaparecesse. Um momento inteiro de não-existência. E então apareço de novo e lá estou eu, no meio do riacho, e não sei quanto tempo se passou ou deixou de passar porque, na verdade, eu não estava lá. Eu estava, simplesmente, não existindo.
- Você desaparece?
- Sim. Foi por causa disso que aterrissei na cabeça daquele pobre senhor. Eu vivo dando saltos por aí. Entendeu a piada, agora?
- Não é bem o momento para isso, professor.
- Perdão, Moira, perdão. Ah, Bruce, bom vê-lo de volta!
Bruce havia levado algum tempo para reunir forças. Estava mais fantasmagórico do que nunca, e alguma coisa, talvez o fato de ter vomitado o almoço, dava-lhe uma aparência hostil.
- Certo – anunciou, bruscamente. Precisou de alguns segundos para recuperar o ar. – Certo. Vamos fingir que estamos em um ambiente normal. Um ambiente que não está cheio de pessoas de quarenta anos que vivem no quarto extra da casa dos pais e que praticam atos inomináveis com frutas porque não conseguem arranjar uma relação sadia com outro ser humano.
- Está insinuando alguma coisa, Bruce? – Wilcox pareceu ofendido.
- O quê? Não – Bruce o olhou, confuso; depois, horrorizado. – Meu Deus, não. Do que diabos estava falando?
- Nada, absolutamente. Prossiga.
Bruce assentiu e se aproximou do trem. Hesitantemente.
- Essa... coisa... viaja no tempo?
- Viaja, é claro.
- Como? Está em uma galeria subterrânea que não existia há cem anos atrás. Como é possível viajar dentro dela?
- É um trem – Bruce disse, abobalhado, depois de algum tempo.
- Que bom que você notou.
Wilcox vestiu um par de luvas de látex e, com muita gentileza, ligou as máquinas. Houve um estampido breve, regurgitado de algum dos computadores, e então toda a estrutura de trilhos rangeu horrivelmente. O professor parecia satisfeito como nunca. Sorrindo, ele apontava dos computadores para o trem, na esperança de que os assistentes compreendessem um trocadilho ou uma piada.
- É um trem que viaja no tempo – Bruce murmurou.
- Certamente é, certamente é.
Bruce deu um passo para trás, zonzo.
- Você está bem? – Moira perguntou, sem conseguir desviar por completo os olhos dos computadores. Ela não estava verde, mas pálida de surpresa.
- Estou. Não. Não, na verdade. Me sinto estranho. Acho que vou vomitar. Será que eu poderia?...
Wilcox arregalou os olhos, horror dos horrores. Pegou uma sacolinha de papel e estendeu-a de imediato a Bruce.
- Aqui, tome. Nada de sujeira perto das máquinas.
Bruce se retirou para trás de uma pilastra. Sentou-se no chão, possibilidade que, em tempos normais, teria encarado com um olhar de desprezo, situação tão anti-higiênica que era. Temeu olhar para Moira e avistar o trem. Temeu imaginar Wilcox varando véus do tempo dentro do mesmo trem, acenando de uma das janelinhas e pronto para iniciar a Terceira Guerra Mundial ou impedir a evolução das espécies, dependendo de onde acabasse parando.
- Vide, Moira, eu tenho aqui um pequeno problema – a voz do professor ecoava pela estação. – São as falhas temporais.
- Pequenas... falhas? Quer dizer como...
- Sim, exato. Suponhamos que eu estivesse na década de cinqüenta, fazendo – bem, não que seja da sua conta – o que quer que eu estivesse fazendo na década de cinqüenta, hipoteticamente, e então atravessasse um riacho e – puft! – desaparecesse. Um momento inteiro de não-existência. E então apareço de novo e lá estou eu, no meio do riacho, e não sei quanto tempo se passou ou deixou de passar porque, na verdade, eu não estava lá. Eu estava, simplesmente, não existindo.
- Você desaparece?
- Sim. Foi por causa disso que aterrissei na cabeça daquele pobre senhor. Eu vivo dando saltos por aí. Entendeu a piada, agora?
- Não é bem o momento para isso, professor.
- Perdão, Moira, perdão. Ah, Bruce, bom vê-lo de volta!
Bruce havia levado algum tempo para reunir forças. Estava mais fantasmagórico do que nunca, e alguma coisa, talvez o fato de ter vomitado o almoço, dava-lhe uma aparência hostil.
- Certo – anunciou, bruscamente. Precisou de alguns segundos para recuperar o ar. – Certo. Vamos fingir que estamos em um ambiente normal. Um ambiente que não está cheio de pessoas de quarenta anos que vivem no quarto extra da casa dos pais e que praticam atos inomináveis com frutas porque não conseguem arranjar uma relação sadia com outro ser humano.
- Está insinuando alguma coisa, Bruce? – Wilcox pareceu ofendido.
- O quê? Não – Bruce o olhou, confuso; depois, horrorizado. – Meu Deus, não. Do que diabos estava falando?
- Nada, absolutamente. Prossiga.
Bruce assentiu e se aproximou do trem. Hesitantemente.
- Essa... coisa... viaja no tempo?
- Viaja, é claro.
- Como? Está em uma galeria subterrânea que não existia há cem anos atrás. Como é possível viajar dentro dela?
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