Thursday, July 27, 2006

Nada a perder

Moira cruzou os braços, pensativa. De fato, ela tinha criado a máquina - teoricamente, conseguira provar a existência dos tempos paralelos. Mas nunca alguém conseguiria quebrar a barreira. Nunca.

Mas 'nunca' é uma palavra que Moira desconhecia. Todas as coisas que "nunca" poderiam acontecer de algum modo sempre acabavam acontecendo.


- Bruce, me espera lá fora. Eu falo com ele.

- Você acha que...

- Glendoning! - ela bufou - Vai antes que ele te agarre de novo. Deixa que eu falo - e, sussurrando - Confie em mim, cara.


Bruce saiu, levando Fahreinheit, contra a vontade, pela coleira. Moira voltou a encarar Wilcox de alto a baixo, como se estivesse lidando com um fantasma.


- Você acredita em mim, não acredita, Moira? - Wilcox baixara a guarda - Porque você me criou uma máquina defeituosoa. Eu nunca consigo voltar para o exato instante de onde eu saí. Não consigo voltar nem memso para o mesmo local!

- Eu tentei te avisar que tinha um defeito no GPS, mas você não me ouviu! - Moira bufou - E como assim, "voltar"? Você está delirando, professor. Eu lhe dei um aparelho, não uma máquina capaz de quebrar barreiras!

- Eu disse que eu posso oferecer uma prova.

- Qualquer coisa?

- Qualquer coisa.


Moira pegou o walkman e colocou os fones nos ouvidos de Wilcox. Apertou um botão e um trecho de uma canção pôde ser ouvida no modo randômico:

And I chanced upon a farmhouse
Where the woman took me in
She gave me food and wine
She gave me shelter from the wind
She delayed me from my regiment
And service of my king
Many years ago

- Você "volta" no tempo e diz esse trecho de música para o Bruce. Não importa o local - Moira disse, desligando o som - Eu não acredito muito em você, racionalmente falando.

- Não se trata de racionalidade, mulher. É algo que pode mudar toda a História! É a oitava maravilha do mundo! Você não precebe?

- O que eu percebo é um sujeito com o terno cheirando a lixo e cabelo desgrenhado. Pelo menos vá se arrumar para a viagem, professor. Se o senhor está dizendo a verdade...


O sangue de Moira gelou na mesma hora. As possibilidades daquele delírio eram inifintas. Voltar no tempo! Quantas coisas alguém com más intenções poderia fazer com aquela máquina?


- Eu estou esperando com o Bruce lá fora. Hora do show, Alphonsine Wilcox.

Tuesday, July 25, 2006

Em que o Prof. Wilcox pode, afinal, estar falando a verdade, e onde um desafio é sugerido

O que mais assustava Bruce não era a aparência quase maltrapilha do chefe, mas o olhar insano no rosto do mesmo.

- Preparai-vos, assistentes! Não podem imaginar o que aconteceu.

Bruce sacudiu a cabeça, desanimado. Estava perdendo o apetite.

- O que houve? – inquiriu; imediatamente pensou em sapos brotando das paredes do Parlamento, o monstro do Lago Ness sendo descoberto e um leprechaun bêbado seqüestrando a London Eye.

Wilcox, orgulhoso, raspou um pó avermelhado dos ombros. Cheirava à páprica.

- Fui capaz de realizar minha primeira experiência temporal! Agora mesmo, sob este chão em que estamos pisando! Cheire este tempero abençoado, esta dádiva de eras passadas.

Radiante, estendeu a mão para Bruce, que recuou, sentindo o pescoço latejar.

- Claro, professor. Outra hora, porém. Moira, vou pegar meu casaco. Vejo você lá fora.

O queixo de Wilcox tremulou. Num gesto relâmpago, agarrou os ombros de Moira, sacudindo a garota.

- Você acredita em mim, não acredita, Moira? Você construiu o aparelho!

- Professor, eu...

- Wilcox, largue a garota. Você vai matá-la.

Com docilidade, Wilcox se afastou. Tinha os dedos das mãos enrijecidos e um sorriso estático. A força que empregava nele era tanta que seus dentes pareciam a ponto de rachar.

- Vai ser muito interessante ouvir sua história, professor – Moira disse, recompondo-se. – Amanhã, no horário de tarbalho.

Wilcox deu um risada de desdém.

- Precisa de uma prova?

Thursday, July 20, 2006

No presente (ao mesmo tempo em que a cena anterior acontece)

- Bruce, você aceita um chocolate?


Moira tinha uma caixa de bombons em cima da mesa e parecia profundamente entediada naquela segunda-feira. Wilcox não aparecera na casa no Hampton e não deixara ordens para ela. Tentava preencher o tempo com alguma coisa - ler um livro, acessar à internet - mas só sentia vontade de dormir.

Bruce pegou um dos bombons. Ainda não tinha contado do estranho encontro na casa de Sandringhan - em parte por causa do choque do garçom que na verdade era o Vincent Price. Olhando bem para ela, podia ver alguma semelhança com o tal Edward Morris - a testa, as mãos ossudas. Mas os olhos eram diferentes. Edward tinha olhos verdes e Moira tinha olhos castanhos escuros, quase pretos.


- Você tem uma foto dos seus pais? Só de curiosidade.


Moira pegou a carteira na bolsa vermelha, e passou a foto que sempre carregava consigo - seus pais posando próximos à Torre de Londres. Bruce sorriu quando viu a imagem. Edward estava certo - ela se parecia muito com a mãe. Mas o olhar inquisidor era do tal Arthur Harris, dono da "mente muito analítica" que tanto espantava Edward Morris.


- Você é bem parecida com a sua mãe.

- As pessoas costumam dizer isso - ela sorriu, guardando a foto na carteira.

- Isso lhe incomoda?

- Se ela estivesse viva, talvez me incomodasse. Minha adolescência não teria sido mole. Ela era bem brava, segundo me diziam.

- Adolescência não existe.

- A minha pelo menos não existiu mesmo - Moira riu - Enquanto todas as meninas gritavam pelo Take That na televisão, eu montava meu primeiro computador. Eu perdi minha vida.


Bruce deu risada, encasrando Moira com um sorriso meio perdido.


- Escute, o Wilcox não vem mesmo hoje.

- Assim me parece.

- Será que a gente pode ir no tal restaurante no porão jantar? Sem compromisso - ele imitou a voz de Moira, o que arrancou uma risada da garota.

- Pobre do Nicola, tendo a gente como convidado na cozinha de novo...


A frase foi interrompida pelos latidos de Fahrenheit, e a chegada de um Wilcox esfarrapado e cheirando mal. Quem visse acreditaria que ele tinha aterrisado numa lata de lixo ou qualquer coisa do gênero.

Tuesday, July 18, 2006

No passado

O pequeno Alphonsine Wilcox tinha o queixo do pai e os cabelos da mãe. Gostava de mexer em criaturas gosmentas e de realizar experiências com sabão e vinagre.

- Hoje é a coroação da Princesa Elizabeth – informou o garoto, o peito inflado de orgulho. Era baixo para a idade.

O outro Wilcox sorriu. Aquele Wilcox já não tinha dentes bonitos e nem um fio de cabelo loiro no topo da cabeça. Tomou notas em um bloquinho de mão. Seu comportamento fascinava o mais novo.

- O senhor é meu tio ou alguma coisa? – o Wilcox do passado perguntou. – Mamãe sempre fala de um irmão que foi lutar na Guerra.

- Não, não. É diferente. Quero dizer, embora partilhemos a mesma carga genética – a exata carga genética, na verdade – e aqui esteja eu, aos sessenta e quatro anos, as coisas ficariam melhores se você me chamasse de vovô. Mas é só uma divagação.

- O quê, o quê?

- Ah! Eu me lembro dos seus sapatos. Sapatos bonitinhos, meus prediletos.

O pequeno Wilcox olhou para os próprios pés. Os sapatos escuros estavam sujos de terra, esmagando minhoquinhas e caramujos. Ele estava vestido com toda pompa necessária para um dia de coroação.

- Oh, mamãe vai ficar zangada.

O Wilcox adulto estremeceu.

- Mamãe. Vai, vai sim. Eu também me lembro.

Uma das empregadas da casa começou a chamar o nome de Alphonsine, que ecoou pelo campo. O garoto se assustou, agachou e recolheu suas ferramentas de trabalho.

- Preciso ir. É a Emma.

- Emma? Emma, cara de rato?

- É, ela tem mesmo. Vou ver o senhor de novo, vovô?

- Daqui a cinqüenta anos, mais ou menos.

- Quanto tempo!

- Você vai viver, meu pequerrucho, não se preocupe.

O pequeno Wilcox acenou enquanto corria para casa. Não tinha dotes atléticos, via-se de longe. O Prof. Wilcox não se lamentou. Sabia que aquela inaptidão quanto às atividades físicas o levaria, eventualmente, ao tapete da biblioteca do pai, onde enfim desenvolveria sua maior paixão. Marilyn Monroe.

Um Acidente (Tempo Presente, Tempo Pretérito)

Edward sempre lembrava da cena. Era dezembro, estava frio e as estradas estavam perigosas por causa da neve. Arthur estava no carro, buzinando insistentemente.


- Eu volto na quinta. Você tem certeza que consegue tomar conta da Moira direito, pai?


Stella e seu cabelo liso, seu suéter verde, seu eterno ar de preocupação. Stella que se chamava assim por causa de uma canção, Stella by Starlight. Era a canção favorita de Adelaide (se fosse um menino, Edward ia batizá-lo como George).

Stella batendo os pés no assoalho, irritada com a buzina do lado de fora, os lábios finos se contorcendo numa careta chateada.


- Arthur vai me enlouquecer, pai. Por que ele tem que ser tão apressado?


Stella saindo pela porta, jogando um beijo no ar frio, entrando no carro, partindo.

Moira, dormindo em um cesto, a imagem da paz e da calma. E dali a três horas o policial aparecera naquela mesma soleira, “o senhor é o pai de Stella Harris?”, Adelaide desmaiando, toda a tragédia esperada num acidente como aquele.

Edward passara três dias sem dormir. O que fazer com Moira? Os avós paternos tinham deserdado Arthur, a menina não tinha mais ninguém. Então ela ficara ali. Crescera ali. Parecia muito com Stella, mas tinha a mente – e os olhos – de Arthur Harris. Era esperta.

Sentado em seu sofá preferido, após a festa, Edward Morris pensava em Bruce e Moira e nas estranhas coincidências que entremeavam a vida deles. Moira não perguntava nunca sobre os pais. O “tempo pretérito”, como ela dizia, lhe dava medo. Nunca lera os diários da mãe, nunca se interessara pelos livros do pai. Como crescera num vácuo temporal, em que ‘pai’ e ‘mãe’ não eram representados por ninguém e 'passado' significava 'dor', ela se isolara no presente.

Por algum motivo que não sabia compreender, Edward sentia-se estranhamente incomodado pelo fato de Moira trabalhar com Bruce. Talvez por ter conhecido o pai de Bruce, uma alma inteligente presa num corpo que só funcionava com álcool – quantidades cada vez mais gritantes de álcool.

Temeu por um instante que o passado se repetisse como maldição, mas caíra no sono antes de desenvolver a tese por completo. Bruce parecia perfeitamente normal, para as condições onde vivia. Talvez não fosse o caso de esperar uma repetição de histórias.

House on Haunted Hill

- E Moira, sua única neta, trabalha para o Prof. Wilcox? – Bruce perguntou, embora tivesse certeza de qual seria a resposta.

Edward pareceu surpreso.

- Wilcox – murmurou. – Acho que é mesmo o nome dele. Como sabia?

Bruce sorriu. Aceitou o copo de conhaque que um garçom lhe ofereceu depois de insistência louvável. Quase sofreu uma parada cardíaca ao reparar que o garçom era Vincent Price.

- Acontece que - tentou voltar sua atenção a Edward – Acontece que, uma das infelicidades da vida, ele também é meu chefe. Mãe, aquele garçom não se parece com...

Honoria deu uma risada, cortando o pensamento do filho.

- Bruce, mas que coincidência! Quem diria, Edward, naquela imensidão que é Londres, sua neta e meu filho trabalhando juntos? E sem a menor idéia de que já se conhecem!

Bruce quase engasgou. Limpou o canto da boca com a ponta da manga.

- Desculpe. “Se conhecem”?

- É claro que você não lembra. Foi antes de Rob. Antes do seu pai... – Honoria fez uma pausa. Finalizou a frase com um gesto de mão e prosseguiu. – Bem, foi em uma festa. Como era o nome daquela senhora? Howard? Olívia Howard? Deus a abençoe, já morreu também.

- Seria mais um daqueles pedaços da minha vida que eu apaguei?

- Não seja tão duro consigo mesmo, você tinha sete anos. E Moira ainda era muito pequena, não saía do colo da mãe.

- Moira tinha dois anos – Edward acrescentou. – Eu me lembro da festa.

Bruce assentiu, vagamente perturbado.

- Isso é... com certeza...

- Uma enorme coincidência.

- E o tipo de informação que meu chefe jamais vai poder receber.

- Pelo menos você não vai ficar tão sozinho naquela cidade. Meu Deus, Edward!

Tanto Bruce quanto Edward se assustaram. Honoria não percebeu; a vida ganhara um novo sentido.

- Falando em Olívia Howard, tem uma pessoa que você precisa conhecer. Venha comigo, por favor – e voltou-se para o filho. – Bruce, você vai ficar por aí, não vai?

- Claro. Como uma rocha.

- Ótimo. E não se esqueça de procurar Rob.

Bruce não procurou Rob, ainda que quisesse. A presença fantasmagórica de Vincent Price ameaçando cruzar seu caminho, ele não pretendia ressuscitar outros traumas de infância.

Com a maioria dos convidados nos jardins, a casa estava quase vazia. Na sala, um grupinho de meninos havia descoberto os jogos de tabuleiro de Finnegan. O próprio Finnegan não estava entre eles. Bruce o encontrou no quarto, entretido com o vídeo-game.

- Ah, oi. Como é que está a festa? – Finnegan perguntou, os olhos grudados na tela.

Bruce sentou-se na cama, ouvindo-a ranger. Puxou a manga do paletó e consultou o relógio. Faltava pouco para a meia-noite.

- Vai bem. Como uma festa deve ser, acho. Quase meia-noite... Deus.

Finnegan soltou um muxoxo.

- Veio muita gente?

- Bastante.

- Excelente.

- Talvez não seja a melhor das notícias, mas vi, por acaso, algumas crianças acabando com os seus jogos de Dungeons & Dragons.

- Não tem problema. Só não quero que subam até aqui.

Bruce riu; tirou os sapatos e se deitou na cama. As revistinhas de Finnegan estavam largadas no chão. Ele recolheu (com cautela) aquela que quase o matara do coração durante a viagem de ônibus.

- Ei, você ainda trabalha para o esquisitão? – Finnegan perguntou de modo repentino.

Bruce baixou a revista. Finnegan e Wilcox haviam se encontrado uma única vez, ocasião em que o professor gargalhara por quinze minutos seguidos antes de admitir algum parentesco entre os dois. Tendo se convencido, prosseguiu com um comportamento ainda mais anormal: endereçou um questionário frívolo e gigantesco ao garoto. Finnegan, então com quinze anos, reportou-o quando voltou a ficar a sós com o irmão.

- Ele me perguntou se você prefere praia ou montanha. Molho inglês ou molho branco.

- Que diabos?

- Ele também quis saber se você come espaguete com a ajuda de uma faca ou de uma colher.

Embora Wilcox não tivesse voltado a vê-lo, sempre recordava Finnegan como um amigo querido. Chamava-o de proto-Bruce.

- Ainda trabalho, sim.

- O que você faz para ele?

- Mapas. E ele está trabalhando na teoria de viagem temporal.

Finnigan largou o console do vídeo-game. Pareceu interessado.

- Como é?

- Viagem temporal. Máquina do tempo.

- Sim, eu ouvi. Mas não de verdade, certo?

- Não de verdade?

- Não como uma máquina do tempo que... realmente, realmente volte no tempo, não? Mas como uma... teoria?

- É, como uma teoria. Livros e cálculos. E também há uma garota que conserta computadores.

A lembrança de Moira fez com que Bruce se esquecesse, por um momento, do professor. Colocou a revistinha aberta sobre o peito, desistindo de tentar levar adiante a leitura.

- Finn...

- O quê?

- Você conhece aquele amigo da mamãe? Edward Morris?

- Edward Morris?

Finnegan pressionava com tanta força os botões do controle que Bruce não deu uma expectativa de vida maior do que três meses para o aparelho inteiro.

- Tempo. Isso é Mario Kart?

Finnegan mordeu os lábios:

- É claro que é Mario Kart. Só falta um circuito.

- Eu tive um Mario Kart. Céus, que péssimo jogador eu era. Enfim, Edward Morris.

- É um senhor, não é? – Finnegan perguntou. – Um floricultor.

- Jardineiro.

- É, eu conheço.

- Já viu a neta dele por aqui?

- Não. Não sabia que ele tinha uma. Por quê?

- Por nada – Bruce suspirou e fechou os olhos.

Cochilou ao som de musiquinhas temáticas e dos gemidos raivosos de Finnegan. Sonhou com um homenzinho bigodudo e de macacão vermelho que lhe explicava a questão por trás das experiências de Wilcox.

- Como pode ver, Prof. Glendoning, uma vez que vocês encontraram a fenda, a partir de agora é alto-e-avante e alegria e alegria de tão simples.

- Pensei que fosse a parte complicada.

Bruce queria perguntar por que estava usando um chapéu com orelhas de burro, mas não pareceu apropriado interromper o homenzinho.

- É claro que não. Não para uma mente genial como a do seu chefe. O senhor vê, a carga exata de propulsão energética pode lançar o condutível – a máquina do tempo, neste caso o potinho de iogurte no qual todos vocês vão viajar – através de finas camadas temporais que separam os eventos da nossa época dos do Woodstock.

- Já ouvi isso antes. Por que você fala como o meu professor de Estudos Sociais?

- Não faço a menor idéia. Quer provar um pouco de torta?

- Então eu posso estar em Londres e de repente ser arremessado para Hong Kong?

O homenzinho franziu o cenho, decepcionado.

- A posição geográfica ainda é uma questão discutível.

- Então quer dizer que posso ser arremessado ao mar aberto?

- Sim, mas eu não aconselharia. Muitas criaturas moram por lá. E o Kraken, que terror seria.

- Bruce? – alguém o sacudiu por um ombro.

Bruce despertou, assustado, dando de cara com Rob. O quarto estava escuro, o homenzinho de macacão vermelho havia desaparecido. A televisão e o vídeo-game estavam desligados. Não havia sinal de Finnegan.

- Oi – Bruce se levantou, esfregando os olhos. Olhou em volta. – Oi, Rob. Feliz aniversário. Que horas são?

- Quase uma da manhã.

Bruce deu uma risada amargurada. Calçou os sapatos.

- Desculpe. Eu acho que desmaiei.

- Tudo bem. Alguns convidados já se retiraram, mas sobrou bastante gente.

- Vincent Price ainda está por aí?

- Vincent Price?

Rob O’Hara era um homem baixo (não de verdade; mas era a impressão que passava estando perto de Bruce), moreno e de traços irlandeses, tão obcecado pela época Georgiana que não poucas vezes Bruce ponderou se o padrasto, ao acaso, não havia nascido no século errado. Parecia-se muito com Finnegan, cuja única coisa herdada de Honoria eram suas mãos de pianista.

Os dois desceram até a sala, Bruce sonolento e tropeçando. Finnegan estava arrumando os jogos que haviam sido vandalizados pelas crianças. Não parecia no melhor dos humores.

- Bruce! – Honoria caminhou na direção do filho mais velho. Tinha aquela expressão da época em que o repreendia por comer de boca aberta ou por não cumprimentar as visitas. – O que houve com você?

- Por onde começar?

- Tantas pessoas querendo vê-lo! Edward Morris queria se despedir!

- As pessoas vão encontrar um modo de perdoar a minha ausência. E se a Moira que trabalha comigo é mesmo a Moira dele, vou acabar encontrando-o, por aí. Soluções simples para problemas catastróficos.

Honoria ergueu uma sobrancelha cheia de incredulidade.

- Se diz.

Afastou-se para cuidar dos convidados restantes. Vendo-se livre, Bruce acomodou-se em um dos sofás, assistindo o trabalho minucioso de Finnegan.

- Mais conhaque, senhor? – um braço lânguido e metido em uma manga negra esticou-se para exibir a bandeja.

Bruce arregalou os olhos.

Monday, July 03, 2006

O mundo é pequeno demais

Edward sorriu calmamente, enquanto afagava a mão de Honoria em seu ombro. A idade tinha lhe caído como um manto, não como um fardo - ele tinha a cabeça erguida e sorria sempre, mantendo um bom humor que parecia inalterável. Não parecia um velho que só se quixava da vida e da artrose (embora esta última fosse bem visível nos nós dos dedos). De onde o tal Edward conhecia o pai de Bruce parecia óbvio, bastava ver as roupas do visitante: simples, mas bem cuidadas. Os dois provavelmente se conheciam do The Trooper, o pub local.


- Não se preocupe, Honoria querida. Você sabe que eu sou especialista nisso.


E para Bruce, com ar maroto:


- Minha neta faz a mesma coisa quando está nervosa. Uma pena que ela não pôde vir me visitar este fim de semana. O trabalho anda cansando a coitada.

- Sua neta mora na cidade? - Bruce perguntou só para ser educado.

- Não. Londres. Conserta computadores. Trabalho pesado.


Ah, não. O mundo não é tão pequeno assim. Existem muitas garotas que trabalham com computação, Bruce pensou enquanto afundava na cadeira. OK, só porque eu não conheço nenhuma além de Moira Harris não significa que não existam outras garotas que consertem computadores em Londres.


- É uma profissão incomum, pruma menina.

- Eu também acho, mas ela puxou ao pai. O Arthur, Deus o tenha, consertava qualquer coisa que lhe pusessem na frente. Mente muito analítica - Edward disse, mantendo o sorriso no rosto - Às vezes eu me pergunto o que é que minha filha viu nele! Ela se formou em História, afinal.

- Os opostos se atraem.

- É um clichê e, como todo clichê, tem um fundo de verdade. Minha neta é parecida com a mãe fisicamente, o rosto em especial, mas a mente é Arthur Harris do começo ao fim. Imagine você que ela aprendeu a programar computadores com doze anos. Mas, Deus do céu, alguém me impeça de soar como um velho coruja e gagá! - Edward deu uma risadinha.

- Seus outros netos vão ficar com inveja - Bruce tentou ser engraçado.


Edward deu de ombros quanto à pretensa piada.


- Quanto a isso, nada a temer, Bruce. Moira é minha única neta, filha única de filhos únicos.

Tuesday, June 27, 2006

Festa em Sandringham

Finnegan, mochila nas costas, estava esperando na entrada do colégio, estapeando o uniforme quase impecável para livrar-se da poeira do giz. Alguém chamou seu nome e ele, assustado, ergueu a cabeça. Foi até Bruce quando o viu se aproximar. Cumprimentou-o com embaraço.

- Alô. Onde estão suas coisas? – Bruce indagou.

- Aqui – Finnegan tirou a mochila. – São apenas dois dias.

A viagem até Sandringham, pelo fato de Bruce não ser dono de um carro, exigia uma parada em Norwich. Finnegan comprou um pacote de doces. Pela voracidade com que os engoliu, Bruce achou que açúcar fosse um artigo raro no colégio interno.

- Por que você ainda não tem um carro? – Finnegan tinha a boca tão entupida de minhocas de gelatina que Bruce mal entendeu a pergunta. – Seu carro.

- Meu... ? Ah. Carro é um gasto dispensável. Eu raramente preciso de um.

- Querem me dar um carro quando eu sair do colégio.

- Mamãe?

- Meu pai.

Finnegan ofereceu um bolinho de mel, mas Bruce recusou. Passou a viagem olhando para a janela, enquanto o irmão lia as revistas em quadrinhos que trouxera junto das roupas. Em determinado momento, Bruce petrificou-se.

- O que é isso?

Finnegan olhou para o uniforme e os próprios sapatos.

- O quê? Onde?

- Na capa da sua revista.

- Ah. Uma máquina do tempo. Mutantes viajando no tempo.

- Deus.

- Parece estúpido, mas é legal.

Bruce encostou a cabeça no banco do ônibus e fechou os olhos. Uma vez em Sandringham, Honoria recebeu Finnegan com um abraço apertado. Ela tinha os cabelos enrolados em uma touca e a maquiagem quase pronta. A mansão de Robert O’Hara, um campo vistoso em volta, era uma das construções mais novas da região. Bruce, nas raras vezes em que a visitava, nunca deixava de se surpreender.

- Bruce – Honoria o beijou com cuidado. – Que bom ter os dois aqui. Já preparei o seu quarto.

- Parece gentil, mas eu não preciso ficar mais de um dia.

- Mas é claro que precisa. Quem vai levar Finnegan de volta?

Finnegan sorriu, os lábios melados de açúcar.

- Ele não pode... voar de volta para Londres?

- Não.

- Por que crianças não aprendem a voar?

- Ter dezesseis anos faz de mim um adolescente – Finnegan corrigiu.

- Adolescência não existe.

Os convidados chegaram com o entardecer. Quando Bruce desceu, um grupo de meninas emburradas já ocupava a mesa da sala de estar. Ele foi, guiado por vozes, para o jardim. Tudo era iluminado e havia música provida de um violino. Não pôde reconhecer quase ninguém.

- Mãe. Onde está Robert?

Honoria parecia bonita e exultante, os cachos loiros balançando conforme ela voltava a cabeça. Conversava com um senhor do qual Bruce se lembrava vagamente. Ou talvez só estivesse confuso.

- Ah, justamente! Eu o vi há pouco. Estava procurando você – Honoria o segurou pelo braço. – O que está achando da festa?

- Aturável, para uma festa – ele sorriu e cumprimentou o homem. – Como vai?

O homem estendeu a mão.

- É este o seu filho mais velho? Bruce? Eu já o vi, quando era pequeno.

- Me desculpe. Eu realmente não me lembro do seu nome. É muito comum, eu apago pedaços da minha vida.

- Bruce, este é Edward – Honoria fez as honras. – Edward, Bruce é o filho do meu primeiro casamento, como já sabe.

- Também conheci seu pai.

- Todos os freqüentadores do pub The Trooper também conheceram. Ele era popular.

- Bruce gosta de usar o sarcasmo para lidar com situações difíceis.

- Obrigado, mãe.

Quando o professor sente na pele o que Moira quis dizer com "erro de cálculo"

Graças a Deus ninguém o vira chegando em casa, porque parecia que ele tinha ido nadar na parte mais suja do Tâmisa.

O que não deixava de ser verdade,mas ninguém precisava saber.

Errara o cálculo (ou melhor, a máquina errara) e aterrisou literalmente dentro do rio. Não era para ser assim. Era para ele ter chegado no mesmo ponto de partida.

Devia dar graças a Deus que chegara na mesma cidade. Pior seria se tivesse errado a longitude e ido parar em Sidney ou Tóquio - mais grave do que parar dentro do rio.

Teria que falar com Moira sobre aquele problema de programação. O que implicaria em ter que falar com ela sobre o programa e... Era melhor ele mesmo tentar resolver o problema.

Abriu a porta de casa, e Fahreinheit veio correndo em sua direção. Nada de Moira, nada de Bruce, ninguém por perto. Só então Alphonise Wilcox se permitiou cair na cadeira mais próxima, mesmo encharcado e sujo como estava, para refletir sobre sua experiência mais recente.

Estava dando certo!

Em Piccadilly

Rose, sem aviso, parou em uma revistaria. Saiu de lá armada de pelo menos meia dúzia de exemplares de moda. Bruce, que havia esperado do lado de fora, sorriu, mas Rose pareceu empertigada. Os dois passeavam em Piccadilly, o dia quente - por milagre - e a rua infestada de pessoas.

- Moira, ela parece o tipo estudioso – Rose comentou, folheando as revistas. – Tem quantos anos?

- Não sei. Vinte e cinco? Talvez.

- Nova demais.

- Foi um palpite. Eu não sei a idade dela.

Rose assentiu e abriu outra revista. Depois de olhar por muito tempo para a mesma fotografia, sorriu de modo depreciativo.

- Veja – exibiu uma modelo morena e muito magra. Tinha o rosto maquiado com cores amarelas. – Foi minha colega. O que acha?

- Ela parece um esqueleto – Bruce respondeu.

- Agora me sinto melhor.

Rose rasgou a folha, amassou-a e a atirou no primeiro lixo que viu. Os dois estabeleceram uma pausa para tomar café. Bruce pediu um suco de laranja; o balconista o olhou com misericórdia.

- Onde é que estava o Wilcox? – Rose perguntou.

- Não faço a menor idéia. E tenho certeza de que jamais saberei. Acontece, simplesmente. Num momento ele está lá, no sofá, inofensivo, e no outro pode estar sentado em cima da geladeira enquanto segura uma serra elétrica.

- Falo sério. Já considerou mudar de emprego?

Bruce riu.

- Já. Mas então me lembrei de que dificilmente eu voltaria a ganhar o que Wilcox me paga.

- Dinheiro não é tudo.

- Sabe que não é o que eu penso, cabeça-oca.

- Você era um bom professor.

- Rose, eu era horrível. Se eu tivesse tido aulas comigo mesmo, teria abandonado o colégio. E os pais... os pais não gostavam nem um pouco de mim. Como é que eu poderia esperar algum respeito?

- Bobagem. Não gostavam porque você tinha senso de humor.

- E eu ainda tenho. É por isso que não posso voltar a dar aulas para o primário.

- Já salvou o pescoço de muitos alunos.

- O que não me torna mais qualificado. E por que tocou no assunto? Aquele pessoal da escola andou ligando?

Rose ergueu os olhos da xícara bonitinha de café, gorda e colorida, e pareceu séria ao encarar Bruce.

- Ninguém andou ligando. Só estou preocupada.

- Com o quê?

- Com o fato do seu chefe ser a pessoa mais instável que eu já vi. Ele é simpático - de um modo geral. Mas estranho.

- Sei lidar com Wilcox. Ele é uma ameaça para qualquer outro mortal, mas não para mim.

- Claro.

Rose abriu outra revista. Bruce sabia o que ela procurava: mais rostos conhecidos. Sua estréia no mundo da moda havia sido sobre uma passarela, mas a carreira não tinha vingado – consideravam-na acima do peso para desfilar. E, por mais rígido que fosse o regime, Rose não era capaz de se livrar da maldição que corria pela família, ossos largos que preenchiam uma silhueta.

- Acho você bonita – Bruce disse, para o espanto da garota.

Rose fechou as revistas e ficou corada.

- Obrigada.

Bruce abriu um sorriso estranho e tomou o resto do suco.

Assim é se assim lhe parece

- Eu mesma. Moira Harris. Prazer em conhecê-la.

Moira não percebeu, ou fingiu não perceber, que Rose a observava de alto a baixo. As duas eram opostos completos - Moira de cabelos castanhos e compridos, camisa branca e calças pretas; Rose loira de cabelos curtos, numa saia balonê rosa-choque e uma blusa de tricô preta.

Claramente, a nova assistente não parecia representar nenhuma ameaça.

E Moira, no silêncio de sua mente, se perguntava como é que uma pessoa como Bruce saía com alguém tão espalhafatoso quanto Rose.

***

- E foi isso.

- E ele não apareceu de novo?

- Pelo menos não até a hora em que eu fui embora. Bruce disse que era um cmportamento normal, então eu nem discuti.



Moira estava devolta à sua caixa-de-sapatos em Liverpool Street, conversando com Layla pelo telefone. Pés descalços no chão acarpetado, só a luz do abajur acesa, iluminando o poster de Albert Einstein na parede oposta.

Não explicara para Layla sobre a odisséia do GPS - ia ser complicado demais, nem ela entendia o que estava acontecendo. Dissera em termos genéricos que Wilcox tinha sumido e depois que Rose tinha ido visitar o namorado de maneira surpresa.



- Dizem que os opostos se atraem, e parece bem o caso... eles parecem tão diferentes!

- Meu bem, de repente ela é um crânio numa saia rosa, ué. Afinal, você só a viu por dez minutos! De repente ela o faz feliz na cama, cada louco com a sua mania.


Moira deu uma risada cansada.


- Layla, nisso você tem razão. Pelo menos nisso.

Monday, June 26, 2006

Visita

Antes que Moira retornasse, a campainha tocou. Bruce, contrariado, tentou ignorá-la, mas levantou-se para atender, infeliz, imaginando o que mais o destino havia reservado para aquela tarde. Só duas pessoas, além dele mesmo e de Moira, costumavam freqüentar a casa de Wilcox, sendo a primeira Mike, que não se contentava em tocar uma única vez; não, tinha a necessidade de compor uma sinfonia com a campainha.

A segunda visita era uma vizinha magricela, que se armava de um pedido de açúcar ou “uma xícarazinha com um pouco de pó de café, por favor” como pretexto para bisbilhotar a vida do professor.

Não se tratava, felizmente, de nenhum dos dois. Para a surpresa de Bruce, quem resolvera aparecer em um lugar tão inusitado não foi outra senão Rose.

- O que está fazendo aqui?

Rose perdeu o sorriso.

- Era uma surpresa. Está ocupado?

- Não, na verdade. Eu só...

Bruce tentava associar a visita ao que ocorrera no restaurante italiano. De alguma forma, todas as estranhezas do universo pareciam ser conseqüência daquele dia.

- O professor está aí?

- Não, só eu e a outra assistente. Entre.

Rose deixou o casaco no braço do sofá. Pareceu sem jeito diante de tanta bagunça.

- Não é o nosso melhor dia, como pode ver. Moira estava...

- Quem chegou? – Moira em pessoa apareceu, vinda da cozinha.

Rose olhou para ela, espantada. Então, seu sorriso se alargou.

- Você é a outra assistente?

Bruce fez a cortesia de apresentar as duas. Trancou a porta da casa, certificando-se, antes, de ninguém mais se aproximava.

Friday, June 23, 2006

Considerações sobre o passado

- Sei lá. Talvez para vê-los de perto... Eu pelo menos não tive oportunidade para isso - Moira deu de ombros - Por exemplo, não tenho a menor idéia de como deviam ser meus pais. Como a voz deles era. Se eles gostavam um do outro.


Moira riu - um riso cansado, de quem já pensou na possibilidade várias vezes e não viu solução possível para o dilema. Olhou para o teto - o lustre tinha grandes teias de aranha.


- É suficiente para entortar a cabeça de alguém. Acho que é por isso que eu fiz Matemática e não História. Os números não tem passado ou futuro.

- Mas você tentaria alterar o passado? Para que seus pais não morressem?

- Não sei se ia ser uma boa idéia. Não, melhor dizendo: não ia ser uma boa idéia.

- Por que?

- Porque nem sempre uma mudança positiva continua sendo positiva com o passar dos anos. OK, meus pais sobrevivem àquele acidente. Eu possivelmente ganho um irmão ou uma irmã... do jeito que dizem que eles eram, eu provavelmente seria filha de pais divorciados. E por aí vai a coisa. Ou talvez não. Mas não adianta pensar nisso.


Ela se levantou, indo na direção da cozinha.


- Até prova em contrário, o passado não pode ser alterado.

A idéia é discutida sem (ou quase sem) nenhum crédito

- Moira, anos de trabalho me ensinaram que, mesmo quando parece que ele não vai voltar, e você se prepara para agradecer aos Céus por tanto, ele volta. Wilcox funciona como um reloginho desregulado, mas a hora certa sempre chega. Portanto, relaxe e aproveite a vida.

Bruce esticou o pescoço para trás. Recebeu um estalo dolorido.

- Viagem temporal. Não é sério, é? – perguntou, despreocupado.

Moira não respondeu de imediato. Talvez pensasse que a resposta poderia comprometer sua sanidade.

- Bem, que parte dela? – indagou, por fim.

Bruce sorriu:

- Eu arriscaria dizer a parte em que a pessoa volta no tempo?

- Você é um incrédulo. Tecnicamente, o aparelho funciona.

- Mas você não espera que alguém realmente possa construir... uma máquina... que de fato...

- Não subestime a humanidade. Gente como o seu chefe, quando obcecada o bastante, obtém resultados espantosos.

- É o seu chefe também.

Moira sacudiu os ombros; Bruce se isentou da conversa para refletir com mais seriedade a respeito dos objetivos de Wilcox. Não confiaria à mente do professor nem os cuidados de uma folha de papel, quem diria da humanidade e sua História.

- Quando penso nisso, penso nos anos sessenta e em cenários de papelão de séries de tevê baratas.

Moira deu uma risada. Bruce achou que era um bom caminho.

- Mas se eu pudesse voltar, mandaria aquele cachorro para um canil antes que o professor pudesse achá-lo.

- Você tem uma natureza cruel.

- Sou a pessoa mais dócil que conheço. É verdade. E, de alguma forma, sei que o cachorro influenciou as idéias do Wilcox. Seria uma forma de salvar o mundo e dormir em paz pelo resto da vida. Eu voltaria, daria um fim ao cachorro, retornaria ao presente, destruiria a máquina e estaria tudo acabado em menos de uma hora. Não posso conceber viagens temporais para outra coisa.

- Talvez rever alguém da família? Alguém que já esteja morto.

Bruce mordeu o lábio inferior.

- Para quê? Assistir de camarote? Estão mortos, de qualquer jeito.

Das possíveis conseqüências de um cálculo errado

Moira bufou, voltando para dentro da casa.


- Perseguir como? Eu também não tenho carro.

- Você realmente ficou preocupada com o GPS.


Ela bufou novamente, pegando Fahrenheit pela coleira. Era incrível como o cachorro obedecia, enquanto ela andava de volta para a sala.


- Digamos que eu estou com medo do uso dessa máquina. Se amanhã a gente acordar numa república totalitarista por culpa de alguma armação do nosso chefe, eu não vou conseguir dormir.

- Provavelmente ele vai querer só ver a Marylin Monroe. Anda, Moira, a gente nem sabe o que ele vai fazer com isso...E nem sabemos se essa máquina funciona. Você mesmo disse, ele não tem como atravessar a tal de dobra no tempo! Eu trabalho com o professor há séculos, ele é perfeitamente inofensivo. Maluco, mas inofensivo.

- Pode ser. Mas eu não tive tempo de avisar do possível erro de cálculo... Então, se ele aprendeu a quebrar a barreira entre passado e presente, vamos ter que rezar para ele saber voltar pro nosso tempo!


Os dois sentaram um na frente do outro na sala atapetada. Fahrenheit agora mastigava o que tinha restado da caneta-tinteiro de Wilcox. Moira abraçou os joelhos, pensativa, os olhos parados no cachorro.


- E enquanto isso? O que é que a gente faz? Senta e espera ele retornar?

Thursday, June 22, 2006

A fuga

- Não sei. Talvez ele seja uma espécie de Batman. Sem a boa aparência e um franchise milionário.

Os dois ouviram um escapamento de carro e Moira correu para a entrada da casa. Wilcox, no banco do motorista, sorria. Teve a indecência de buzinar duas vezes antes de partir.

- O que ele está pensando?! Bruce?

Bruce chegou a tempo de ver o carrinho se afastar. Moira, olhando para a rua silenciosa, parecia derrotada.

- Não se preocupe – Bruce disse. – Não acho que ele vá fazer alguma besteira com o seu GPS. Na verdade, eu acredito que, em um acidente, se precisasse salvar nós dois ou o aparelho, Wilcox salvaria o aparelho de bom grado, à qualquer hora.

Moira virou-se para ele, irritada.

- Não me consola. Para onde ele pode ter ido?

- Para a universidade. Talvez?

- Você tem carro?

Bruce sentiu-se desconcertado.

- Não.

- E vem aqui todos os dias?

- De metrô. E andando. Sou estranho, sim, você e o resto do mundo sabem disso. Está planejando segui-lo?

O Galpão

- Ah, não. Ah, não mesmo. Onde diabos ele está indo com o GPS? - Moira deu um berro, e antes que Bruce tentasse impedir, ela saiu correndo atrás de Wilcox.


Mas ele tinha desaparecido no quintal, que era nada mais do que uma érie de pequenos montes de sucata e um galpão pequeno. Fahreinheit mordia o cabo do pirulito abandonado, deitado no chão. Bruce alcançou a garota, que olhava em volta.


- Bruce, onde? Ele não pode ter sumido!

- É possível. É bem provável, aliás.

- Escuta aqui, ou esse maluco me conta o que ele vai fazer, ou...

- Moira, acalme-se!


Moira bateu o pé, olhando em volta mais uma vez. O galpão era minúsculo, parecia ser somente um quarto de despejo. Ela caminhou até a porta do galpão - estava trancada.


- Está mais calma agora? - Bruce tentou ser irônico.

- Bruce, você está pensando o mesmo que eu?

- Que o Wilcox é um maluco?

- Que o Wilcox é um maluco com algum laboratório subterrâneo?


Bruce olhou para os lados, sem saber o que responder.

Quando o professor mais uma vez ordena que Bruce não se intrometa na seqüência dos fatos

Wilcox tirou o pirulito da boca. Era vermelho e tinha formato de coração. O professor fazia um barulho irritante quando tentava chupá-lo, causando arrepios em Bruce.

- Pronto, é? – Wilcox perguntou, fora do ar.

- Pronto, está – Moira respondeu. – Mas não passa de uma caixinha bonita se não puder servir a seus propósitos.

Wilcox pareceu escandalizado. Deixou cair o pirulito, que foi imediatamente recolhido por Fahrenheit.

- Caixinha bonita coisa nenhuma. Estão olhando para um verdadeiro milagre da humanidade – e acrescentou, em tom severo. – Bruce, me arranje uma caixa de papelão.

- Tem uma atrás de você.

- Eu sei. Pegue-a para mim.

Wilcox vestiu um par de luvas de plástico enquanto Bruce contornava a sala para pegar a caixa. O professor insistiu que ele a forrasse com algo macio.

- Agora, Moira, faça o favor de desconecta-lo para mim. Isso mesmo, boa garota.

Com cuidado irritante, Wilcox tomou o aparelho de GPS nas mãos e, com delicadeza ainda maior, colocou-o dentro da caixa. Bruce tentou argumentar:

- Wilcox, o que diabos você pensa que está fazendo?

- Um pedaço do futuro. Não se intrometa, Bruce. É assim que as coisas devem acontecer, apenas aceite.

- O que me lembra, o restaurante...

- Que restaurante? Espere. Agora é um momento muito delicado.

Wilcox selou a caixa com fita adesiva. Depois, suspendeu-a e, sem palavra que explicasse, deixou Bruce e Moira a sós.

25.810.318 (ou Tempo Pretérito)

Moira voltou sua atenção totalmente para o aparelho de GPS. Ligava e desligava cabos, mexia no computador principal, martelava comandos no teclado e parecia estar em outro espaço e tempo, onde não podia escutar ou perceber a presença de nenhuma outra alma.

Depois de quase quatro horas, ela despertou do transe.


- Bruce, você ainda está aí?


O rapaz se aproximou da cadeira onde Moira, muito pálida, estava sentada. Ela olhava fixamente para o aparelho de GPS, sorrindo calmamente - embora suas mãos estivessem tremendo.


- E então? - Bruce perguntou.

- Ele queria ler a freqüencia? Acho que consegui!


Apontou o número que estava registrado na tela do computador principal: 25.810.318.


- Essa sopa de números significa alguma coisa? - Bruce pareceu confuso.


Moira apontou a sequência de números que apareciam na tela minúscula do GPS: 51.30°N 0.10°W - 25.810.323.


- Respectivamente a longitude e latitude de Londres, e o registro do tempo presente. O GPS vai ler sempre o tempo presente, e o computador teria que ler a onde eletromagnética que compõe o tempo pretérito. O passado. Mas isso não adianta nada.

- Você acabou de inventar um meio de encontrar buracos no tempo e diz que não adianta nada?

- Bom, eu posso achá-lo, mas como é que o Wilcox pretende atravsessar esse buraco? Isso eu não consigo matutar. Meu conhecimento pára aqui.

Wednesday, June 21, 2006

Mais um pouco de estranhezas

Wilcox entrou fungando. Alguma coisa parecia desagradá-lo, e foi com desconfiança que pousou os olhos nos trabalhos de Bruce e Moira. Abanou qualquer coisa frente ao rosto.

- Meus assistentes. Estão sentindo esse cheiro?

Bruce fez uma pausa. Encarou brevemente Moira, que respondeu em cumplicidade. Farejou o ar, mas não identificou coisa alguma.

- O que é? Gás?

- É o cheiro da ociosidade. Que está se impregnando no tapete e escapando através das frestas das portas, assustando as pessoas.

Bruce deu um suspiro de descaso. Indicou a mesa.

- Seu mapa, a propósito, está pronto.

- Mas não sem tempo! – Wilcox exclamou, indignado. – Há quantas semanas eu o incumbi disso?
- Há três dias.

Wilcox gaguejou:

- Bom, foram longos três dias!

Ele se moveu, nervoso, para perto de Moira, espiando o aparelho como uma criança teria observado uma vitrine da loja de doces.

- É bonito, muito bonito.

Bruce observou o professor, incrédulo. Cada nova aparição era mais esquisita do que a precedente. O episódio do restaurante italiano ainda o perseguia, inexplicável.

- Bruce, - o professor virou-se para ele. Moira pareceu aliviada. – Onde está o cachorro?

- Lá fora. Eu espero.

Wilcox estremeceu. Resmungou, enquanto abria a porta.

- Ele é o único que me ajuda a pensar!

Bruce e Moira passaram os minutos seguintes em silêncio, os dois olhando para o corredor e temendo que o professor retornasse. Quando o mundo, ao que tudo indicava, era mais uma vez seguro, Bruce, sorrindo, retomou o trabalho:

- Se estiver pensando em me perguntar como eu fui capaz de agüentar durante tantos anos, simplesmente não pergunte.