Sunday, November 12, 2006
De volta a Sandringham
Acabara de chegar de viagem para descobrir que Honoria se fora, no último trem, para Norwich. Bruce chegara pouco antes do padrasto, fazendo a mesma constatação. Ainda em Londres, havia ligado para mãe, relatando o que acontecera a Edward, tentando soar o mais calmo possível. “No hospital, em Norwich”, “Mas, Bruce”, “Espere por mim”, “Mas eu”, “Espere por mim”. Winnie, a cozinheira da casa, fizera o favor de avisá-lo de que não, Honoria não tinha esperado, mas que havia sorvete no freezer.
- Bem – Rob colocou a mala no colo, abriu, fechou, e não soube o que fazer com ela. – Acho que o correto seria eu acompanhá-la, então. Sabe em que hospital ele está?
- Agora sei. Minha mãe deixou um recado. Ela ligou para meio mundo.
- Imagino que sim. Será melhor levar uma muda de roupas? Onde está sua bagagem?
Bruce olhou para os pés. Onde estava?
- Eu não trouxe.
- Não? Ora, parece que foi mesmo uma coisa de última hora. Pobre Edward. Você acha que ele...
- Eu não sei – Bruce respondeu rapidamente. – Segundo a neta dele, não é a primeira vez que ele é internado.
Rob balançou a cabeça, a aparência esgotada. Depois, virou-se para Bruce, curioso.
- É mesmo. Não havia me perguntado até agora como logo você foi saber de toda essa história. Não imaginava que conhecesse a neta dele.
- Eu conheço. Ela trabalha comigo. Mas ainda não sabe que eu também conheço o avô dela.
- Não?
- Ainda não tive a oportunidade de contar.
- Entendo. Quase. Winifred, se Finnegan ligar, avise-o de que deve ligar para o meu celular, ou o da mãe dele.
Friday, November 10, 2006
Duas Cartas
(trecho de carta de Arthur Harris a seu primo, John Saville Harris, fevereiro de 1977)
"(...) Não há nada que eu possa dizer. Desejo sinceramente que o senhor suma de nossas vidas. Uma vez que o senhor deserdou juridicamente Arthur, não creio que tenhamos nada mais a ver com sua casa ou sua família. Por favor, pare de nos procurar ou eu vou chamar a polícia."
(trecho de carta de Stella Smith-Morris para o Sargento Anthony Harris, maio de 1980)
***
Moira observou os pacotes de cartas, amareladas e desbotadas, amarradas em grupos com fitas de cetim. Os tesouros de Edward Morris: as cartas trocadas por Arthur e Stella, além das cópias e rascunhos das correspondências que eles trocaram com outras pessoas.
Era a primeira vez que ela lia aquelas cartas. Até aquele momento, não sabia que seu outro avô era um sargento do Exército, ou mesmo que seu pai tinha sido realmente deserdado por ter se casado com uma mulher "sem dinheiro, sem sobrenome e sem educação".
Estava sozinha na sala, tudo escuro do lado de fora. Não podia passar a noite no hospital - os médicos não permitiam. O jeito foi seguir sozinha para a casa do avô, a casa onde ela fora criada. Sentia-se como se um sapo tivesse se alojado dentro de sua garganta.
Quando Edward partisse, ela estaria sozinha de vez. E aquilo a aterrorizava.
As cartas estavam em cima da mesa quando ela chegara. Parece que Edward estava lendo-as quando teve o ataque. Sabe-se deus o que aquelas cartas traziam para ele. Para ela, era só uma grande confusão. Tentar fazer um retrato mental de seus pais por meio dos textos era difícil, mas era o único esporte que lhe ocorria.
O telefone celular tocou. Moira olhou para o aparelho sem saber se atenderia. Por fim, aceitou a ligação.
- Alô?... Ah, olá, Bruce. Tudo bem por aí?... Como assim? Você está aonde?!
Wednesday, November 08, 2006
O princípio
- Um amigo meu – Bruce disse.
- Amigo?
- O pai dele foi internado. Ataque cardíaco.
- Que horror – Rose ergueu as sobrancelhas finas. – Ele está morrendo?
Bruce deu um sorriso nervoso, com o canto dos lábios.
- Não sei, Rose. Você é direta. Espero que não.
Rose tomou um gole de refrigerante dietético.
- Todos esperamos.
Bruce assentiu e pegou o garfo. Havia, não sem surpresas, perdido a fome. Se Rose notou seu incômodo, preferiu ignorá-lo. Não voltaram a conversar até terem saído do restaurante – Bruce pagou a conta.
Quando retornavam para a loja, ele estacou no meio do caminho.
- O que foi? – Rose perguntou.
- É melhor eu ligar para a minha mãe.
- Ouviu o que acabou de dizer?
- O homem que foi internado é um amigo dela. Seria bom que eu a avisasse. Se é que ela já não foi.
- Bem, não pode ligar do celular?
- Talvez eu precise ir para Sandringham.
- Hoje? – Rose parecia decepcionada. – Viajar hoje?
- É uma emergência, Rose. Não se tem controle sobre isso.
Rose olhou em volta, para os passantes. Bruce se perguntou acaso ela teria coragem de começar ali, no meio da calçada, mais uma discussão, e descobriu que não tinha paciência para se explicar; antes dar as costas e deixá-la falando sozinha. Mas Rose, ao contrário, pareceu se encolher, e deu de ombros.
- Ótimo – ela balançou a cabeça. – Ótimo, Bruce. Faça como quiser. E me ligue, caso mude de planos.
- Não estou fazendo planos!
- Ainda assim, me ligue.
Sem se despedir, ela o deixou para trás.
Uma conversa telefônica
- Você acha que a festa de inauguração vai dar certo?
- Claro que vai - Bruce forçou um sorriso.
- Você não parece muto certo...
- Eu só estou exausto. Muito exausto.
- Esse teu chefe te explora!
Seria inútil explicar o que tinha acontecido - nem mesmo ele entendia. E Rose, coma cabeça cheia de babados e esperanças, não teria tempo para compreender ou aceitar aquele arremedo de ficção científica no qual seus dias tinham se transformado.
O celular tocou, estridente. Rose olhou para o aparelho como se ele fosse radioativo.
Bruce atendeu, com medo que fosse Wilcox.
- Alô?
- Bruce, sou eu.
Era Moira. Voz distante e fria. Som de estação de trem ao fundo.
Por um instante, um tenso instante, ele podia jurar que ela estava falando da estação fantasma de West Rotherhithe. Mas o som do auto-falante falava em trens seguindo para Manning Tree, Ely, Cambridge - o leste do país. Ela, decididamente, não estava em uma estação do metrô.
- Ahn, oi. Onde você está? Mal consigo te ouvir!
- Em Liverpool Street. Na estação de trem, quero dizer. Você pode avisar o Wilcox que eu não vou trabalhar amanhã? Eu tenho que ir para casa.
- Norwich? O que foi que houve?
- Meu avô foi internado... Ele teve um ataque cardíaco... Eu tenho que ir... A coisa está meio feia, precisam de mim por lá.
- Ele está tão mal assim?
- Já é a segunda vez que ele é internado. O prognóstico não é dos melhores. Enfim! Eu vou tentar voltar assim que for possível - eu não sei quando, meu avô só tem a mim como família. Você avisa o professor?
Quando Bruce desligou o telefone, Rose estava espumando de raiva, de maneira discreta mas visível. Afinal, ela deixava recados e mais recados e ele nunca se dignava a atender - e de repente lá estava ele, demonstrando mais atenção com um estranho do outro lado da linha do que com ela, ali, sentada bem à sua frente.
- Quem era?
Bruce colocou o telefone no bolso. Não saberia dizer porque tinha vontade de levantar dali e correr para a estação de trem, para Norwich, para longe, bem longe.
Tuesday, November 07, 2006
Em Oxford Street
- O que está fazendo aí, Rose? – ela perguntou.
Rose não se virou para responder:
- Absolutamente... – ela mordeu os lábios, zangada. – Tentando encontrar alguma coisa descosturada.
- Está brincando, não é?
- Não. Achei uma blusa desfiada.
- Rose, o que estava fazendo no quartinho dos fundos? Há cinco minutos atrás.
- Arrumando o estoque, é óbvio.
- Não acha que a inauguração da loja está revirando a sua cabeça? Um pouco, pelo menos.
Os dedos de Rose deslizaram pelas roupas. Ela se voltou para Annabeth.
- Como você esperava que eu ficasse?
- Esqueça, foi um comentário estúpido – Annabeth suspirou, entediada, brincando com uma peninha que havia ficado grudada em seu vestido. Depois de algum tempo, ainda ouvindo Rose trabalhar, ela ergueu os olhos para a vitrine, curiosa. – Rose.
- O que é?
- Seu namorado está do lado de fora. Ou um homem que se parece muito com o seu namorado.
Rose alisou a saia que usava. Ela viu Bruce parado na frente da loja, as mãos nos bolsos, desamparado como um turista que acabara de se perder do resto da excursão.
Caminhou até ele.
- Então aí está você.
Bruce sorriu levemente.
- De tempos em tempos eu abandono o covil.
- Sim, quanto bom-humor. Você foi grosseiro da última vez em que nos falamos.
- É verdade. E, por isso, eu gostaria de pedir desculpas.
Os dois ficaram em silêncio. Bruce olhou para a faixa que atravessava a vitrine.
- Posso ver que hoje é o dia da inauguração.
- Está convidado, se faz alguma diferença.
Bruce assentiu.
- Obrigado por mais uma prova de magnanimidade.
Rose cruzou os braços.
- O que vai fazer agora?
- Comer, imagino – Bruce deu de ombros. – Não há comida no meu apartamento, exceto um cereal com a validade estourada.
- Vou pegar meu casaco e levá-lo até um restaurante.
- Não tem trabalho a fazer?
- Annabeth vai ficar feliz por se livrar de mim. Espere aqui.
Monday, November 06, 2006
Alors Souris
De ta première ride, de nos mauvais choix,
De la vie qui nous baise, de tous ces marchands d'armes,
Des types qui votent les lois là bas au gouvernement,
De ce monde qui pousse, de ce monde qui crie,
Du temps qui avance, de la mélancolie,
La chaleur des baisers et cette pluie qui coule,
Et de l'amour blessé et de tout ce qu'on nous roule,
Alors souris.
(E daqui a 150 anos, não vamos nos lembrar
da sua primeira ruga, das nossas escolhas ruins
da vida que nos ferra, de todos os vendedores de armas
dos caras que votam as leis lá no governo
deste mundo que empurra, deste mundo que grita
do tempo que segue, da melanciolia
do calor dos beijos e desta chuva que corre
e do amor ferido e de tudo que nos rodeia
então sorria).
-- Raphaël, "Et Dans 150 Ans"
Moira estava estendida no sofá, telefone colado na orelha, escutando o barulho vindo da estação de trem. A bem da verdade, não sabia o motivo exato de ter decidido telefonar para Bruce. Tinha levado o professor de volta para o Hampton e depois disso estava tão cansada que escutar uma voz conhecida do outro lado da linha lhe parecia a única coisa sana a fazer.
- A bem da verdade, o fim do mundo está sempre nos perseguindo – Moira completou seu pensamento – Principalmente quando se trabalha para um tipo como Wilcox.
- Você não está de todo errada.
- Devia ter gravado isso para a posteridade. Bom, eu vejo você amanhã?
- Você vai trabalhar amanhã?
- Bom, alguém vai ter que vigiar aquele maluco! Será que tem mais algum evento na vida dele para alterar?
- O próprio nascimento, talvez, o que abre uma série de possibilidades – Bruce resmungou.
- Você sabe que isso é um paradoxo interessante, mas eu não vou ficar discutindo isso pelo telefone... A conta vai parar na Lua se eu começar. Até amanhã!
Mal colocara o telefone no gancho, o aparelho soara novamente. Moira atendeu, com medo que fosse Wilcox.
Não era Wilcox. Era uma voz feminina, grave, portadora de más notícias.
- Por favor, a senhorita Harris? Aqui é do Hospital Geral de Norwich... Você é a neta de Edward Smith-Morris? Ele foi internado agora há pouco...
Saturday, November 04, 2006
Tia Phyllis
- É incrível – Wilcox murmurou. Piscou em seguida, emergindo do transe. – Realmente incrível. Mas meu empreendimento tem, afinal, futuro, como acaba de provar o meu outro eu. Salvar-me da morte! Quem diria! Ah, o trocadilho não foi intencional.
- Obrigada pela consideração – Moira disse, olhando para as mãos sujas.
- Não sejam tolos. É claro que sou grato aos dois. Mas ainda mais grato à minha própria genialidade. Eu sabia – Wilcox tomou a xícara e tornou a levá-la aos lábios, esquecendo-se de que já não continha nada. – Genial.
- Incrível, Wilcox. Mesmo – Bruce esfregou o rosto. – Aliás, já que genial é a palavra em vigor, tenho uma idéia: Por que você não entra na máquina mais uma vez e faz uma viagem até a era Jurássica, para compartilhar seu conhecimento com as, você sabe, formas de vida mais precárias, que estão, tenho certeza, ansiosas por receber todo o seu conhecimento. Enquanto isso, eu vou tomar um banho. E espero encontrar uma cama macia e limpa onde possa relaxar e me esquecer do que você nos fez passar. De novo.
Wilcox franziu o cenho.
- Está reclamando do quê? No fim, continuei casado com a velha bruxa.
- Se essa máquina do tempo deve ser usada – e eu vou frisar o se, caso ninguém tenha entendido –, melhor que não seja em benefício próprio – Bruce lançou um olhar de esguelha a Moira. Ela não disse nada.
**
O apartamento estava com um estranho cheiro de mofo, depois de dois dias trancado. Bruce acendeu a luz da sala. Rose havia deixado alguns recados na secretária eletrônica. Ele não se deu ao trabalho de respondê-los. Precisava, antes disso, formular A Melhor Desculpa Do Mundo.
Logo depois de sair do chuveiro, os cabelos pingando, sentou-se no sofá. Honoria havia mandado mais uma caixa com bugigangas, daquela vez antigos vídeos caseiros. Uma das fitas dizia: BRUCE ANIVERSÁRIO 18 ANOS. Ele sorriu, não sem ironia. Encontrou, ainda, gravações de algumas obras de edifícios em Londres (fitas de Rob, deixadas ali por engano) e a primeira visita de Finnegan a uma praia.
Optou pela fita do aniversário, corando em antecipação ao constrangimento que sentiria. Não mudara muito desde aquela época, pensou – o Bruce mais jovem era mais pálido e mais ingênuo. Não tinha perspectivas tão elevadas, mas talvez fosse mais crédulo com a possibilidade de um destino honroso. Máquinas do tempo, porém, não figuravam no contexto.
No vídeo, uma senhora se aproximava e lhe tomava o braço, sorrindo para a câmera. Bruce imitou a expressão confusa de seu eu de dezoito anos, incapaz, mais de meia década depois, de reconhecer a mulher que o abordara. Quando Finnegan apareceu, pequeno, chorando porque não queria ficar com as roupas de festa, o telefone tocou.
Bruce parou o filme.
- Alô? – ele atendeu. No mesmo instante segurou o bocal, fazendo uma careta. Se fosse Rose, estaria perdido.
- Como estão as coisas? – reconheceu a voz de Moira. Olhou para a tela congelada, vendo-se obrigado a posar para uma foto em grupo com alguns parentes de Rob, e aproximou o rosto do telefone.
- É você.
- Costumo ser. Repito, como estão as coisas?
- Estranhas – Bruce respondeu. – Como está Wilcox?
- Estava bem, quando eu o deixei. Prometeu que não voltaria a usar a máquina por hoje, mas você sabe que... bem, é impossível contar com a palavra dele.
- Não me diga – Bruce se ajoelhou na frente da televisão e desligou o vídeo. - Acha que deu certo? Acha que resolvemos o problema?
- Bem, Wilcox parece inteiro. Bruce, interrompo alguma coisa?
- Não. Eu estava olhando presentinhos que a minha mãe mandou.
- Biscoitos?
- Vídeos. De quando eu era adolescente.
- Ah – Moira riu, do outro lado da linha. – Estranho pensar que você já tenha sido um.
- Mesmo?
Bruce recolheu a caixa e a depositou em uma das estantes. Olhou para os pés descalços e úmidos.
- Moira? Ainda está aí?
- Sim.
- Por que me ligou? – viu-se perguntando, antes mesmo de pensar a respeito.
- Como?
- Eu consigo pensar em certos motivos pelos quais você me ligaria, mas nenhum deles é animador. Sou forçado a perguntar: o que houve? O que aconteceu agora?
Moira ficou em silêncio.
- Não houve nada. Por que está sempre esperando pelo fim do mundo?
Bruce deu uma risada nervosa.
- E eu não tenho motivos para me preocupar?
Tuesday, October 24, 2006
A voz da razão
Wilcox estava suando frio, observando seu avatar de 1973 esperando pela noiva. Era preciso fazer alguma coisa para evitar aquele desastre. Preferencialmente, a melhor coisa a fazer seria impedir que eles se conhecessem. Mas como a janela de tempo mais próxima coincidiu com a data do casamento, tanto melhor.
Ele etsvaa pendurado em uma coluna. Apenas um gesto e ele distrairia seu eu-do-passado, impedidindo que ele subisse ao altar. Ele estava bem próximo. Bem próximo. Era só fazer um gesto.
Abigail não era má pessoa, de maneira geral. Mas era uma má companhia para ele. Claro que quando você é um solteirão convicto, qualquer mulher seria uma má companhia. Não sabia como ela tinha convencido-o a se casar. Mas ele não ficaria para ver. Ajudaria o homem que ele fora a fugir.
Balançara perigosamente em cima da coluna.
Na hora em que ele iria pular, uma mão de mulher o puxou para baixo e para fora, com força que ele desconhecia. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, com espalhafato, no colo de um homem magro e loiro.
Bruce!
Wilcox olhou para o lado. Moira, os joelhos ralados e o rosto bem vermelho, olhava para a cena dos dois homens caídos no chão sem saber se ria ou gritava.
- O que você está fazendo aqui?
- Atendendo um pedido de 2019, eu acho - ela deu de ombros - Você mesmo mandou que eu te impedisse de fazer essa loucura.
- Eu? Como?
- Se você sair de cima da minha caixa torácica, eu conto! - Bruce berrou, com o resto de fôlego que ele tinha.
Saturday, October 07, 2006
A noiva
- Vamos lá. É hora, enfim – a mãe de Abigail disse, tomando o espelho da filha e guardando-o dentro da bolsa. Usava um vestido azul, liso, e nenhum apetrecho, o cabelo bastante cacheado e carregado de laquê.
Abigail comprimiu os lábios, pensando se teria sido mesmo uma atitude conveniente. Louisa, uma das madrinhas, tinha a dama de honra sentada no próprio colo. A menina era gorduchinha e usava um chapéu florido. Parecia entediada.
- O que foi? – Louisa perguntou, permitindo que a dama de honra, antes que começasse a choramingar, descesse do carro – Está com medo?
- Aquele maldito Alphonsine Wilcox não vai aparecer – Abigail afirmou, cheia de repúdio.
O pai da noiva se aproximou para recebê-la. Estava irrequieto dentro do smoking escuro, dez vezes mais hostil do que o habitual. Estendeu a mão para a filha e não conteve uma pergunta:
- Onde se enfiou o Alphonsine?
Abigail fez cara de choro, descendo do Rolls-Royce. Ela se agarrou ao braço de Louisa, que quase tropeçou, puxada com violência antes de ter a chance de se equilibrar nos saltos dos sapatos.
- Ele não está aqui? Eu disse que ele não viria!
- Não entre em pânico – Louisa ajeitou a tiara florida.
- Eu não vou entrar na igreja sem que Alphonsine esteja dentro dela, ou juro por Deus...
A mãe de Abigail juntou-se a eles em passinhos descuidados:
- Onde está Alphonsine? Abigail? Por que está chorando? Pare com isso, está estragando a maquiagem.
Abigail afundou o rosto nas mãos e começou a soluçar. Não lhe importava a felicidade conjugal – só não queria que um paspalho como Wilcox a fizesse de boba na frente de mais de cem convidados.
- Eu não vou entrar na igreja!
- Ora, vamos, pare de chorar. Volte para o carro. Você vai com ela, Louisa. Seu pai e eu vamos ficar esperando.
A noiva e Louisa, erguendo as saias do vestido violeta, voltaram a entrar no Rolls-Royce. O motorista se assustou com a invasão.
- Hugh – a mãe de Abigail encheu a voz de autoridade, voltando-se para o marido. – Vou voltar para dentro e interrogar o pai dele. Se a situação não estiver resolvida em dez minutos, mande os garotos atrás do bastardo.
Bruce e Moira se esconderam perto de uma das pilastras. Um ciclista havia lançado um olhar suspeito aos dois, ao vê-los atravessando a praça.
- É ela? A ex-mulher do Wilcox? – Bruce indagou, incrédulo. O rosto enfurecido, trancado dentro de um carro de luxo, inspirava intolerância a tudo que o professor pregava e idolatrava, de Marylin Monroe à coleções de meias com estampas xadrez.
- Eu diria que sim.
- Não me parece o tipo de mulher capaz de coexistir com ele sob um mesmo teto – Bruce sorriu. – Não. Definitivamente.
- Você e o professor compartilham da mesma opinião.
- Devemos entrar na igreja?
- Não é com o Wilcox do passado que precisamos nos preocupar.
Thursday, October 05, 2006
1973 (Giving It All Away)
- Mas... Moira... você não sabe mexer nesse... nesse troço.
Ela olhou por cima dos óculos de leitura, com um muxoxo. A estação de metrô parecia ainda mais abandonada e fria. Bruce parecia ainda mais pálido sob as luzes das lâmpadas fluorescentes.
- Eu tenho uma idéia - lembre-se que eu ajudei a montar esse treco. E, de qualquer forma, o que você prefere? Esperar o Wilcox voltar e acertar a cabeça dele com uma borduna?
- É uma opção válida? Se for, eu aceito.
- Suba naquele trem. Eu vou acionar os comandos.
- O Wilcox não vale tanto sacrifício.
- Não me lembro de ter empurrado você até aqui.
Ela tinha uma estranha voz de comando, como se incumbida de uma missão impossível. Digitou alguns números no computador e logo o trem começou a apitar, como um dragão soaria se existisse. Por via das dúvidas, Bruce agarrou-se nos assentos, com medo da queda iminente.
E o trem começou a se movimentar.
***
I paid all my dues so I picked up my shoes
I got up and walked away.
Oh, I was just a boy, I didn't know how to play...
O rádio de um carro tocava uma canção de Roger Daltrey. O ar cheirava a chuva e terra molhada. Sinos ao longe. As mãos de Moira em seu rosto, mãos quentes contra um rosto gelado.
- Ei. Bruce. Bruce.
- 1973, eu presumo? - a voz saiu grogue, ele parecia que ia vomitar de novo.
- Exato. Cinco de maio de 1973. Um sábado.
Ele olhou para suas roupas, encardidas porque ele aterrisara dentro de um canteiro de petúnias. Moira não estava melhor - tinha caído na calçada e arranhado os joelhos.
- Onde é que nós estamos, exatamente?
- Se eu estou reconhecendo aquela igreja ali - apontou um prédio ao longe, enquanto Bruce se levantava - estamos em St. Martin In The Fields. Londres, portanto.
- Ótimo. Como é que nós vamos achar o professor?
Ela apontou um Rolls-Royce branco que descia a rua.
- Vamos seguir aquela noiva... Pode ser um bom palpite!
Tuesday, September 19, 2006
Até que a morte os separe (gradativamente)
- Ele estava falando do próprio casamento?
- Eu diria que sim.
- Wilcox foi interromper o próprio casamento e cometeu alguma burrice atroz que o levou gradativamente ao fim da vida?
Moira franziu a testa; gaguejou um pouco antes de responder.
- Aonde quer chegar, Bruce?
- A lugar nenhum – Bruce riu, apavorado. – Eu estou perdido e sem reação. Só aprecio a ironia de cada manhã.
Sentiu as pernas fraquejarem. Contava que Wilcox fizesse uma estupidez daquela grandeza, cedo ou tarde.
- O professor está morrendo – declarou, começando a suar frio.
- Precisamos voltar e avisá-lo.
Bruce assentiu. Não levariam tanto tempo para chegar até o escritório. Mexeu nos bolsos, mas então se lembrou de que não havia nenhuma chave do carro, porque não havia sequer um carro.
- Bruce, quando ele se casou?
Ele não respondeu. Virou-se para Moira, compreendendo que a nuvem da má sorte, pairando sobre sua cabeça, acabara de achar um lugar cômodo.
- Meu Deus. Vamos precisar voltar, não é?
Setenta e três
Ele ligou o celular. Sete mensagens de Rose, nenhuma de Wilcox.
- Eu acho que ele não sabe para que serve um telefone – Bruce deu de ombros.
- Bom, tanto melhor que ele não tenha ligado. Seria complicado achar uma desculpa.
- Ficar com medo do trabalho não é desculpa.
- Difícil de acreditar, quando você não lida com animais selvagens, terroristas ou crianças do primário...
- Você ainda vai se arrepender de dizer isso, mocinha.
A última frase viera distante, o que forçou Moira a voltar-se para trás.
Era Wilcox. Mas ao mesmo tempo, não era Wilcox. Era alguém parecido com ele, apoiado em uma bengala, o rosto amarelo e fraco, muito mais velho. Ainda vestia-se com apuro, mas o cabelo tinha há muito lhe abandonado e os olhos não tinham o mesmo brilho. Estava doente, francmanete em decadência, o corpo projetado para a frente como se tudo lhe doesse.
Bruce pensou em dizer que aquilo parecia um disfarce muito bom. Mas o modo como Wilcox olhava – com dor, com cansaço – era por demais genuíno.
- Professor! – Moira se assustara.
- Eu estou vindo de longe. De treze anos no futuro – a voz de Wilcox não saía da garganta, parecia perder-sen o caminho – E tenho muito pouco tempo, Moira, meu anjinho. Nos dois sentidos. Esse buraco temporal vai acabar em breve... E eu também.
Antes que qualquer um dos dois jovens respondesse, ele continuou.
- Eu estou vindo de novembro de 2019, querida. Daqui a um mês, no meu espaço-tempo, eu vou morrer... Por causa de um erro que eu cometi neste dia. Hoje. Enquanto vocês estavam no cinema, pondo em marcha o que vai ser o futuro de vocês dois juntos e mais não posso dizer, eu estava em West Rotherithe. Eu cometi um grande erro. E eu preciso que vocês me impeçam, porque esse erro vai me matar!
O Wilcox do futuro começou a tossir, e Bruce o amparou com cuidado. Parecia tão estranho que aquele homem fosse o mesmo professor elétrico e excêntrico para o qual trabalhava há quatro anos.
- E eu preciso impedir. Preciso impedir mas não alcanço...
- Para onde o senhor foi? – Bruce perguntou.
Wilcox continuou tossindo. Ele começara a desaparecer.
- Eu fui atrás de mim mesmo. Impedir eu mesmo de me casar com aquela...
No segundo seguinte, ele desaparecera, como uma miragem.
Friday, September 15, 2006
Anita, Anouk
Bruce se espreguiçou na poltrona. Tirou discretamente os sapatos, o que chamou a atenção de Moira.
- O quê? O que está fazendo? – ela perguntou.
- Apenas... relaxando. O seu sofá, eu devo dizer...
- Eu sei.
- Minhas costas estão doloridas.
- Você pagou nossa entrada. Vê se não dorme.
Bruce, assentindo levemente, sorriu para Anita Ekberg.
- Impossível.
Ele tirou o celular do bolso, lembrando-se de desligá-lo. A caixa postal informava que Rose havia deixado três recados. Deu uma risadinha amargurada.
- O que foi? – Moira olhou para ele.
- Rose. De novo. Talvez eu devesse aposentar o celular de uma vez. Ela e minha mãe são as únicas pessoas que realmente fazem questão de me ligar e, neste caso, não penso que seja boa coisa.
O senhor de boina virou-se para os dois e fez um gesto ríspido, pedindo silêncio.
- OK. Estou quieto, agora – Bruce se afundou na poltrona.
"Marcello!"
- Bruce, eu acho que não vou trabalhar. Se eu tiver que ver o professor hoje...
Desviou o rosto, com uma careta. Ele entendia. Não seria nada fácil agüentar Wilcox se vangloriando de ter conseguido um feito inédito na História Mundial - e colocando o mundo em risco, ainda por cima. Não seria nada fácil. E ele ainda teria que aturar Rose o dia todo no telefone - porque ela ligaria de novo. E de novo.
- Bom, e o que você pretende fazer? Gazetear por aí e roubar doces de vendinhas?
- Na verdade, eu acho que vou me enfiar num cinema que eu conheço lá em Portobello e ficar vendo filmes velhos até pegar no sono.
- Filmes velhos - Bruce arqueou as sobrancelhas.
Moira pegou o casaco que estava pendurado atrás da porta. Não notara o súbito interesse de Bruce.
- Que tipo de filmes velhos?
- Fellini. Antonioni. Essas coisas - e, voltando-se para trás - Quer vir? Sem compromisso.
Sobre um celular
Houve silêncio do outro lado da linha – ainda que, ao fundo, uma mulher continuasse a matraquear.
- Bruce? É você?
Bruce olhou para o relógio de pulso. Marcava pouco mais de oito da manhã.
- Tudo indica que sim. Com quem está brigando?
- Annabeth – acrescentou, enfadada: - Minha colega de trabalho. Bruce, quem atendeu o celular?
Ele olhou para Moira, que sacudiu os ombros. Ela não tinha, tampouco, como se explicar.
- Minha colega de trabalho. Quanta coincidência.
- Por que sua colega de trabalho atendeu o seu celular?
- Porque... – ele hesitou. Sentou-se rapidamente, calçando os sapatos. – Porque eu estou no trabalho. E ela está no trabalho. Porque trabalhamos juntos.
- E você deixa seu celular largado por aí, para ser atendido por qualquer um?
- Não seja grosseira, Rose. Eu estava em outra sala, ela ouviu e atendeu.
- Seu celular.
- Meu celular.
- Então agora eu não preciso me preocupar mais com a sua falta de atenção. Se você estiver em um restaurante, o garçom certamente vai ter a bondade de atender. Ou em uma padaria, talvez o padeiro atenda. O leiteiro, a mulher que faz cobertura de rosquinhas.
- Rose. Eu não fiz de propósito. Não costumo largar as coisas por aí.
- Eu liguei cinco vezes para a sua casa, ontem e hoje. Se você tem um celular, supõe-se que seja para alguma coisa.
- Sim, sim, Rose – Bruce suspirou, zangado. – Me desculpe. Não precisa se preocupar com a integridade do meu celular. Vou ser mais atencioso a respeito das companhias com que ele anda e não vou deixar que chegue depois da meia-noite. Obrigado, até mais.
Desligou o aparelho antes mesmo que pudesse se dar conta do que fazia, ou que possíveis conseqüências precisaria sofrer. Levantou-se e checou os bolsos do casaco.
- Wilcox ligou? – perguntou.
- Não. Ainda não. Talvez esteja excitado demais com a máquina para se lembrar da nossa existência.
- É o que me preocupa – ele esfregou os olhos. Ainda parecia cansado. – Me desculpe você também. Por Rose. Ela é bastante... dramática.
Moira riu:
- Não se preocupe. Se servir de consolo, ela foi bastante monossilábica durante os poucos segundos em que trocamos palavras.
Sob o olhar de Einstein
Foi quando percebeu que não estava em sua cama. A rigor, não estava nem na sua casa.
Olhou em volta, a cabeça vibrando como um tambor. Estava vestido, em cima de um sofá-cama vermelho. À esquerda, um pôster de Einstein observava o local com ar de quem pensa o que vai comer no almoço.
Alguém se sentou aos pés da cama improvisada, fazendo ranger as molas do colchão. Ele teve dificuldade em focalizar a imagem por alguns instantes.
- Bruce, é sua namorada no telefone.
Era Moira, com o celular de Bruce nas mãos – uma coisa ridiculamente antiquada, com os botões descascando e uma antena presa com fita adesiva. Ela estava pronta para sair para o trabalho, embora ainda estivesse um tanto abatida.
- Eu dormi aqui?
- Desmaiou seria o termo certo. Nem jantou. Eu não consegui te acordar.
- E a Rose está no telefone.
- Parece que sim.
Bruce colocou o aparelho na orelha, mas estava tão tonto que parecia ter se esquecido como se dizia “alô”. Do outro lado da linha, Rose falava - muito depressa e muito alto - alguma coisa que lhe parecia estupidamente incompreensivo.
Monday, September 11, 2006
Encontros e Desencontros (2003)
- O que precisamos, você e eu, é de uma boa noite de sono. Talvez as viagens consumam energia demais.
Ele olhou para mesa; os cotovelos começaram a escorregar lentamente, enquanto Bruce lutava para se manter desperto. Ouvia os sons do fogão, o chiado da fritura. Líquido, copo, o vento da década de sessenta soprando, Wilcox rindo e o rangido dos trilhos do metrô.
Os trilhos fizeram com que arregalasse os olhos. Ergueu o rosto para Moira.
- Encontrar um buraco próximo? – ele quase gaguejou. – Voltar? Está pensando em voltar? Você realmente pensou nisso?
Moira deu de ombros, de costas para ele.
- Como eu poderia não pensar?
- Talvez... por causa de tudo que eu já disse? Você esteve lá.
- Exatamente.
- Não. Você esteve lá. Você viu o que a máquina pode fazer. É real. Imagine qualquer erro que possa parecer minimamente insignificante, no que se tornaria trinta anos depois. Ou cinqüenta, ou quarenta? Deus, onde é que Wilcox pode ter ido? Ele pode ter ido para qualquer lugar, em qualquer época.
- Você não entende, é óbvio.
Bruce se calou. Pensou no pai. Em como teria sido encontrá-lo em alguma época onde ele próprio não existisse. Não soube por que teria desejado tal encontro. Não soube por que Moira considerava uma nova oportunidade.
Os mortos estavam, afinal, mortos.
À beira do fogão

Moira assentiu, enquanto seguia para a cozinha. Tinha erguido o rosto, embora ainda estivesse um tanto abalado.
- Caixa de Pandora ou não, ela já está aberta. E agora eu vou ficar com esse fantasma na cabeça.
Parou por um minuto e abriu um sorriso cansado.
- Acabei de me lembrar de algo. Aquela abertura no tempo foi única, nunca mais retornará. O que é um alívio, de certa forma...
- Alívio? – Bruce não parecia entender.
- O professor não pode, ainda, escolher para onde ele vai. Ainda. Ele está ao sabor dos buracos que ele encontra no tempo. Isso significa que eu não posso voltar, também. A não ser que eu encontre um buraco próximo àquela data, mas eu estou com medo. Você tem razão. Arthur Harris é um nome comum, não? - e, numa pausa forçada - Você tem estômago para comer alguma coisa?
Bruce assentiu, sem discutir. Descobrira que cozinhar deixava Moira calma – enquanto ela se concentrava nos ingredientes e no fogão, ela não se preocupava com o resto. O cheiro da comida era sua própria máquina do tempo - o tempero era parecido com o que o pai de Bruce usava para cozinhar, geralmente escondido na cozinha, longe das garras de Honoria e sua mania de organização.
Ao contrário do que dissera, acreditava que aquele homem era o Arthur Harris certo - era bem parecido com o rapaz ossudo e cabeludo da foto que Moira tinha na carteira. Mas como se recusava a crer que tudo oque tinha passado era real, se recusava tambéma admitir que tinha visto, vivo e jovem, um homem que estava morto há mais de vinte anos.
Wednesday, September 06, 2006
After Party
- Seu pai? – perguntou; a própria voz era um resquício.
Moira somente assentiu. Bruce, então, escorregou uma das mãos pela nuca, a palma fria como um cubo de gelo. Suspirou.
- Pode estar enganada. Pode estar.
- Tenho certeza de que era ele – Moira insistiu. Não chegou a encará-lo.
- Moira, você mal se lembra do seu pai. Poderia ser qualquer Fulano.
Bruce se arrependeu em seguida. Estava cansado demais para lembrar que devia medir as palavras em uma situação tão absurda.
- Quero dizer, não. É que... – ele fez uma pausa. – Moira... eu sinto muito. Não era o que eu queria dizer.
Moira pareceu magoada. Ficou de pé no mesmo instante, caminhando em direção da cozinha. Bruce cerrou os dentes, amaldiçoando a si mesmo, e seguiu a garota.
- Por favor.
Bruce se aproximou, tocando o ombro dela. Moira não reagiu – permaneceu como estava, encarando o chão.
- Talvez, sim. Talvez seja o seu pai, não digo que não acredito em você. Mas o que Wilcox construiu não deixa de ser uma caixa de Pandora.
Ovo de Serpente
Bruce se ofereceu para acompanhar a garota de volta até seu apartamento, em Liverpool Street. Por via das dúvidas, achou melhor não ir de metrô: não sabia quanto tempo ainda demoraria para deixar de ter medo de trens e vagões.
Talvez nunca.
Ele estranhara o tamanho do apartamento em Liverpool Street, o modo como Moira vivia. Era um lugar limpo e estranhamente impessoal: nenhuma foto de família, nenhum pedaço de história. Quem teria um retrato de Einstein na parede mas nenhuma foto dos pais? Ou então do avô, que tanto a adorava (e ela parecia amar)?
Moira sentou-se automaticamente no sofá e fechou os olhos. Estava ainda mais pálida, as mãos apertando algo invisível debaixo das palmas.
- Eu não sei se vou conseguir ir trabalhar amanhã - ela disse, com voz incerta - Acho que eu ajudei um maluco a chocar um ovo de serpente! Uma máquina daquela, nas mãos do Wilcox?
- Exatamente o que eu pensei - Bruce respondeu - Não me surpreenderia se amanhã a gente acordasse e visse que a Grã-Bretanha virou uma república ou algo pior.
- Aquele homem. Em Cambridge. O homem que entrou na loja...
Moira abriu os olhos novamente.
- Eu tenho que voltar ali. Eu tenho certeza que aquele era o meu pai.