Bruce aguardou. Como Moira não deu explicações maiores, ele sentou-se no sofá, ao lado dela. Tendo conseguido controlar a raiva, sentiu o choque tardio de toda a experiência. O corpo tremia de leve.
- Seu pai? – perguntou; a própria voz era um resquício.
Moira somente assentiu. Bruce, então, escorregou uma das mãos pela nuca, a palma fria como um cubo de gelo. Suspirou.
- Pode estar enganada. Pode estar.
- Tenho certeza de que era ele – Moira insistiu. Não chegou a encará-lo.
- Moira, você mal se lembra do seu pai. Poderia ser qualquer Fulano.
Bruce se arrependeu em seguida. Estava cansado demais para lembrar que devia medir as palavras em uma situação tão absurda.
- Quero dizer, não. É que... – ele fez uma pausa. – Moira... eu sinto muito. Não era o que eu queria dizer.
Moira pareceu magoada. Ficou de pé no mesmo instante, caminhando em direção da cozinha. Bruce cerrou os dentes, amaldiçoando a si mesmo, e seguiu a garota.
- Por favor.
Bruce se aproximou, tocando o ombro dela. Moira não reagiu – permaneceu como estava, encarando o chão.
- Talvez, sim. Talvez seja o seu pai, não digo que não acredito em você. Mas o que Wilcox construiu não deixa de ser uma caixa de Pandora.
Wednesday, September 06, 2006
Ovo de Serpente
A saída para o Hampton, via túnel secreto, demorava quarenta minutos. Wilcox tinha colocado um carro dentro do túnel (um Ford Anglia arrebentado, sem pára-choques ou vidros) para o transporte. Durante todo o trajeto, o professor matraqueou sem perceber que estava falando sozinho: Bruce estava nervoso demais para falar e Moira parecia em estado de choque.
Bruce se ofereceu para acompanhar a garota de volta até seu apartamento, em Liverpool Street. Por via das dúvidas, achou melhor não ir de metrô: não sabia quanto tempo ainda demoraria para deixar de ter medo de trens e vagões.
Talvez nunca.
Ele estranhara o tamanho do apartamento em Liverpool Street, o modo como Moira vivia. Era um lugar limpo e estranhamente impessoal: nenhuma foto de família, nenhum pedaço de história. Quem teria um retrato de Einstein na parede mas nenhuma foto dos pais? Ou então do avô, que tanto a adorava (e ela parecia amar)?
Moira sentou-se automaticamente no sofá e fechou os olhos. Estava ainda mais pálida, as mãos apertando algo invisível debaixo das palmas.
- Eu não sei se vou conseguir ir trabalhar amanhã - ela disse, com voz incerta - Acho que eu ajudei um maluco a chocar um ovo de serpente! Uma máquina daquela, nas mãos do Wilcox?
- Exatamente o que eu pensei - Bruce respondeu - Não me surpreenderia se amanhã a gente acordasse e visse que a Grã-Bretanha virou uma república ou algo pior.
- Aquele homem. Em Cambridge. O homem que entrou na loja...
Moira abriu os olhos novamente.
- Eu tenho que voltar ali. Eu tenho certeza que aquele era o meu pai.
Bruce se ofereceu para acompanhar a garota de volta até seu apartamento, em Liverpool Street. Por via das dúvidas, achou melhor não ir de metrô: não sabia quanto tempo ainda demoraria para deixar de ter medo de trens e vagões.
Talvez nunca.
Ele estranhara o tamanho do apartamento em Liverpool Street, o modo como Moira vivia. Era um lugar limpo e estranhamente impessoal: nenhuma foto de família, nenhum pedaço de história. Quem teria um retrato de Einstein na parede mas nenhuma foto dos pais? Ou então do avô, que tanto a adorava (e ela parecia amar)?
Moira sentou-se automaticamente no sofá e fechou os olhos. Estava ainda mais pálida, as mãos apertando algo invisível debaixo das palmas.
- Eu não sei se vou conseguir ir trabalhar amanhã - ela disse, com voz incerta - Acho que eu ajudei um maluco a chocar um ovo de serpente! Uma máquina daquela, nas mãos do Wilcox?
- Exatamente o que eu pensei - Bruce respondeu - Não me surpreenderia se amanhã a gente acordasse e visse que a Grã-Bretanha virou uma república ou algo pior.
- Aquele homem. Em Cambridge. O homem que entrou na loja...
Moira abriu os olhos novamente.
- Eu tenho que voltar ali. Eu tenho certeza que aquele era o meu pai.
Thursday, August 31, 2006
Mais ameaças
Bruce, num piscar de olhos, descobriu-se de volta ao vagão; sentado e com sono. Mais um passageiro ordinário de qualquer manhã londrina do que um viajante do tempo.
Olhou para o lado: Moira estava deitada, desperta, parecendo confusa demais para reagir. O professor Wilcox, em contrapartida, foliava pelo trem sem nenhum pudor. Bruce tentou dizer alguma coisa, mas só pôde produzir um grunhido esquisito.
- Como foi? O que acharam? – Wilcox havia irrompido da cabine de máquinas com o peito estufado. O herói da nação. – Gostaram do nosso passeio, eh?
Bagunçou os cabelos de Bruce, que, apoiando-se mal e mal, pôs-se de pé. O professor ainda ergueu um dedinho indicador quando o assistente rumou para fora do trem, cambaleante, a saída clássica de quem só retornaria com uma serra elétrica e sede de vingança, mas não disse nada que pudesse impedi-lo.
- Ora, ora. Estamos com humores alterados hoje, não? – Wilcox indagou consigo mesmo. Tendo notado Moira, aproximou-se dela e se ajoelhou. – Alô, Moira. Está tudo bem aí? – recebeu-a com um sorriso amarelado.
Moira ainda levou algum tempo para fixar os olhos no professor. Parecia ter se perdido em um longo raciocínio.
- Nós realmente estávamos lá – disse, a voz baixa como um sussurro.
- É claro que sim! Você e Bruce são um pouco céticos demais. Bem, Bruce é, na verdade... ah, esqueça. Você precisa de ajuda para se levantar?
- Não, eu estou bem.
- A primeira vez é sempre estranha. Vai melhorar com o tempo – Wilcox, de repente, franziu o cenho. – Está ouvindo isso? Um pouco de eco?
Moira, de pouca vontade, levantou-se.
- Parece que estão batendo alguma coisa em – Wilcox começou, mas, de repente, se tornou pálido. – Bruce! – ele ganiu, e saiu do trem em disparada.
No final da estação, Bruce, com o que havia sobrado de um velho assento de trem, tentava abrir a passagem que levava ao galpão de Wilcox. O professor correu até ele, horrorizado.
- Bruce, o que está fazendo?!
- O que pareço estar fazendo? – Bruce tomou fôlego. Colocou o assento no chão. – Vou precisar desenhar?
- Você podia ter sido educado e... e pedido! Agora, seja um bom assistente. Não faça nada que eu não faria.
- Se não abrir, eu mesmo abro, mesmo que leve o resto do dia!
- Ainda sou seu superior, Bruce Glendoning!
- Talvez. Mas eu sou o homem com o assento.
Wilcox mordeu os lábios. Ele pescou um cordãozinho que mantinha em volta do pescoço, um molho de chaves que escondia sob a roupa.
- Ótimo – declarou, enfezado. – Chegue para lá.
Olhou para o lado: Moira estava deitada, desperta, parecendo confusa demais para reagir. O professor Wilcox, em contrapartida, foliava pelo trem sem nenhum pudor. Bruce tentou dizer alguma coisa, mas só pôde produzir um grunhido esquisito.
- Como foi? O que acharam? – Wilcox havia irrompido da cabine de máquinas com o peito estufado. O herói da nação. – Gostaram do nosso passeio, eh?
Bagunçou os cabelos de Bruce, que, apoiando-se mal e mal, pôs-se de pé. O professor ainda ergueu um dedinho indicador quando o assistente rumou para fora do trem, cambaleante, a saída clássica de quem só retornaria com uma serra elétrica e sede de vingança, mas não disse nada que pudesse impedi-lo.
- Ora, ora. Estamos com humores alterados hoje, não? – Wilcox indagou consigo mesmo. Tendo notado Moira, aproximou-se dela e se ajoelhou. – Alô, Moira. Está tudo bem aí? – recebeu-a com um sorriso amarelado.
Moira ainda levou algum tempo para fixar os olhos no professor. Parecia ter se perdido em um longo raciocínio.
- Nós realmente estávamos lá – disse, a voz baixa como um sussurro.
- É claro que sim! Você e Bruce são um pouco céticos demais. Bem, Bruce é, na verdade... ah, esqueça. Você precisa de ajuda para se levantar?
- Não, eu estou bem.
- A primeira vez é sempre estranha. Vai melhorar com o tempo – Wilcox, de repente, franziu o cenho. – Está ouvindo isso? Um pouco de eco?
Moira, de pouca vontade, levantou-se.
- Parece que estão batendo alguma coisa em – Wilcox começou, mas, de repente, se tornou pálido. – Bruce! – ele ganiu, e saiu do trem em disparada.
No final da estação, Bruce, com o que havia sobrado de um velho assento de trem, tentava abrir a passagem que levava ao galpão de Wilcox. O professor correu até ele, horrorizado.
- Bruce, o que está fazendo?!
- O que pareço estar fazendo? – Bruce tomou fôlego. Colocou o assento no chão. – Vou precisar desenhar?
- Você podia ter sido educado e... e pedido! Agora, seja um bom assistente. Não faça nada que eu não faria.
- Se não abrir, eu mesmo abro, mesmo que leve o resto do dia!
- Ainda sou seu superior, Bruce Glendoning!
- Talvez. Mas eu sou o homem com o assento.
Wilcox mordeu os lábios. Ele pescou um cordãozinho que mantinha em volta do pescoço, um molho de chaves que escondia sob a roupa.
- Ótimo – declarou, enfezado. – Chegue para lá.
Thursday, August 24, 2006
Um breve instante no tempo
Os cartazes indicavam os partidos para a eleição geral, que estava marcada para dali a duas semanas. O sorriso triste de Harold Macmillian, o líder do Partido Trabalhista, aparecia de vez em quando nos muros. Algumas pichações também corriam as paredes – nomes de partidos esquisitos apareciam em quase todos os cantos.
- Decididamente, estamos em 1974 – Wilcox disse em voz alta – Ou isso ou o tempo foi misericordioso com esses cartazes...
Bruce não parecia convencido, mas uma banca de jornal no caminho lhe forçou a ver a realidade: as manchetes anunciavam o fim da ditadura de Salazar em Portugal, os prognósticos para a eleição e a parada de sucessos: Suzi Quatro estava em primeiro lugar com “Devil Gate Drive”. Os três olhavam as notícias em silêncio, como se estivessem diante dos resquícios de outra civilização.
Um homem de longos cabelos escuros entrou na banca de jornal, as mãos escondidas dentro dos bolsos. Ele vestia um longo casaco preto, que parecia contrastar com seu rosto pálido e o corpo ossudo, magro como um palito.
- Matt! Chegou aí as revistas que eu encomendei?
- Nada ainda, sr. Harris.
- Por que é que você me chama de senhor? A gente tem a mesma idade! – o homem no casaco preto sorriu.
- Porque você é cliente, Arthur, e os clientes a gente chama de ‘senhor’.
Moira parou de andar de repente, como se tivesse tomado um soco. Arthur Harris?
E, no instante seguinte, tudo ficou escuro mais uma vez.
Ela abriu os olhos e viu somente o teto do trem.
- Decididamente, estamos em 1974 – Wilcox disse em voz alta – Ou isso ou o tempo foi misericordioso com esses cartazes...
Bruce não parecia convencido, mas uma banca de jornal no caminho lhe forçou a ver a realidade: as manchetes anunciavam o fim da ditadura de Salazar em Portugal, os prognósticos para a eleição e a parada de sucessos: Suzi Quatro estava em primeiro lugar com “Devil Gate Drive”. Os três olhavam as notícias em silêncio, como se estivessem diante dos resquícios de outra civilização.
Um homem de longos cabelos escuros entrou na banca de jornal, as mãos escondidas dentro dos bolsos. Ele vestia um longo casaco preto, que parecia contrastar com seu rosto pálido e o corpo ossudo, magro como um palito.
- Matt! Chegou aí as revistas que eu encomendei?
- Nada ainda, sr. Harris.
- Por que é que você me chama de senhor? A gente tem a mesma idade! – o homem no casaco preto sorriu.
- Porque você é cliente, Arthur, e os clientes a gente chama de ‘senhor’.
Moira parou de andar de repente, como se tivesse tomado um soco. Arthur Harris?
E, no instante seguinte, tudo ficou escuro mais uma vez.
Ela abriu os olhos e viu somente o teto do trem.
Chegada
Bruce sentia as mãos arderem e o crânio latejar, dolorido. O professor Wilcox se aproximou, perfeitamente recomposto. Não tocou no assistente, ou fez menção de ajudá-lo. Agia como se houvesse acabado de encontrar um animalzinho atropelado.
- Alô, Bruce. Tudo bem aí em baixo?
- Me refazendo aos poucos – Bruce murmurou, a sensibilidade voltando devagar ao resto do corpo; quando achou que este já lhe pertencia mais uma vez, ergueu-se, massageando a testa. – Onde estamos?
- Em 1974 – Wilcox informou, seguindo com um longo assobio. – Cambridge, um dos meus lugares preferidos.
Bruce deu um riso contido. Caminhou até Moira, embora suas pernas ainda teimassem em não responder.
- Você está... – ele começou, encarando a garota. – Apesar de ter enfrentado uma... seja lá o que foi... está bem?
Moira pareceu achá-lo engraçado.
- Estou. Você é que não parece muito bem.
Bruce assentiu.
- Vai passar.
Ele se virou; um pé tropeçou no outro e seguiu-se uma queda inaudível, apenas curiosa. Bruce tornou a se levantar no mesmo instante.
- Estou bem. Estou bem.
- Estão prontos para um tour, assistentes?
Wilcox tomou um dos braços de Moira, como um cavalheiro.
- Não estamos em 1974 – Bruce afirmou, convicto.
- Ah, estamos sim, Bruce. Totalmente.
- Alô, Bruce. Tudo bem aí em baixo?
- Me refazendo aos poucos – Bruce murmurou, a sensibilidade voltando devagar ao resto do corpo; quando achou que este já lhe pertencia mais uma vez, ergueu-se, massageando a testa. – Onde estamos?
- Em 1974 – Wilcox informou, seguindo com um longo assobio. – Cambridge, um dos meus lugares preferidos.
Bruce deu um riso contido. Caminhou até Moira, embora suas pernas ainda teimassem em não responder.
- Você está... – ele começou, encarando a garota. – Apesar de ter enfrentado uma... seja lá o que foi... está bem?
Moira pareceu achá-lo engraçado.
- Estou. Você é que não parece muito bem.
Bruce assentiu.
- Vai passar.
Ele se virou; um pé tropeçou no outro e seguiu-se uma queda inaudível, apenas curiosa. Bruce tornou a se levantar no mesmo instante.
- Estou bem. Estou bem.
- Estão prontos para um tour, assistentes?
Wilcox tomou um dos braços de Moira, como um cavalheiro.
- Não estamos em 1974 – Bruce afirmou, convicto.
- Ah, estamos sim, Bruce. Totalmente.
Instante Zero
Do lado de dentro, o trem parecia como qualquer outro trem de metrô em Londres: pequeno, com assentos estofados de um tom esquisito de verde. Só que a cabine de comando estava aberta e cheia de computadores. Era o brinquedo de Alphonsine Wilcox - a sua máquina do tempo.
O professor sentou-se orgulhosamente à frente dos comandos e ligou as engrenagens. Um ruído branco tomou conta do trem. Moira acomodou-se como pôde em um dos bancos, mantendo Bruce próximo. Ele estava verde outra vez.
- Le temps détruit tout, le temps reconstruit tout - Moira suspirou para si mesma.
Uma alavanca fora puxada e o trem se pôs em movimento, a princípio muito lentamente, dando voltas pelos trilhos circulares. À medida que ia pegando velocidade, Bruce ia ficando cada vez mais verde, afundando no banco do trem. Três minutos de “viagem” e o trem já estava a quase oitenta por hora, o que era uma velocidade temerária para um circuito que tinha, por baixo, sessenta anos. As luzes tremiam, as cadeiras balançavam, Bruce caiu no corredor.
- Wilcox! A quantos por hora esse troço chega? – Moira gritou, se segurando para não cair junto.
- Como? - o professor não escuatava nada por causa do barulho.
- A velocidade! Quanto é a velocidade?!
- Ah! Teoricamente, este trem chega a duzentos quilômetros por hora.
- Essa porcaria vai desmontar se chegar perto disso!
Foi quando as luzes do trem se apagaram e uma sensação de falta de gravidade tomou conta dos ocupantes. Pareceu durar uma eternidade – a exclusão da consciência de lugar, de tempo, de espaço, um zumbido muito fino cantando dentro da caixa craniana.
E de repente, o chão duro, a tontura, o ar que não chegava aos pulmões. Moira tateou o chão, a cabeça explodindo, o sangue sem saber se corria para o crânio ferido ou para as pernas, que ela jurava não conseguir sentir.
Um vento gelado, cortante, lhe atiçou os sentidos. Estava tocando uma calçada - pedras irregulares, arredondadas pelo tempo.
- Fez boa viagem, Moira? - Wilcox já estava de pé, dando pequenos pulinhos - Você vai aprender a aterrisar com o tempo... Espero que o Bruce aprenda. Eu acho que ele desmaiou, pobre coitado.
O professor sentou-se orgulhosamente à frente dos comandos e ligou as engrenagens. Um ruído branco tomou conta do trem. Moira acomodou-se como pôde em um dos bancos, mantendo Bruce próximo. Ele estava verde outra vez.
- Le temps détruit tout, le temps reconstruit tout - Moira suspirou para si mesma.
Uma alavanca fora puxada e o trem se pôs em movimento, a princípio muito lentamente, dando voltas pelos trilhos circulares. À medida que ia pegando velocidade, Bruce ia ficando cada vez mais verde, afundando no banco do trem. Três minutos de “viagem” e o trem já estava a quase oitenta por hora, o que era uma velocidade temerária para um circuito que tinha, por baixo, sessenta anos. As luzes tremiam, as cadeiras balançavam, Bruce caiu no corredor.
- Wilcox! A quantos por hora esse troço chega? – Moira gritou, se segurando para não cair junto.
- Como? - o professor não escuatava nada por causa do barulho.
- A velocidade! Quanto é a velocidade?!
- Ah! Teoricamente, este trem chega a duzentos quilômetros por hora.
- Essa porcaria vai desmontar se chegar perto disso!
Foi quando as luzes do trem se apagaram e uma sensação de falta de gravidade tomou conta dos ocupantes. Pareceu durar uma eternidade – a exclusão da consciência de lugar, de tempo, de espaço, um zumbido muito fino cantando dentro da caixa craniana.
E de repente, o chão duro, a tontura, o ar que não chegava aos pulmões. Moira tateou o chão, a cabeça explodindo, o sangue sem saber se corria para o crânio ferido ou para as pernas, que ela jurava não conseguir sentir.
Um vento gelado, cortante, lhe atiçou os sentidos. Estava tocando uma calçada - pedras irregulares, arredondadas pelo tempo.
- Fez boa viagem, Moira? - Wilcox já estava de pé, dando pequenos pulinhos - Você vai aprender a aterrisar com o tempo... Espero que o Bruce aprenda. Eu acho que ele desmaiou, pobre coitado.
Friday, August 18, 2006
I do
Wilcox pareceu tomar a recusa de Bruce como uma ofensa pessoal. Tirou um espelhinho quebrado de uma das muitas gavetas e começou a arrumar os cabelos com a ajuda de um pente amarelo, vários dentes faltando.
- Bruce, sua covardia me espanta. Não fazia parte do seu currículo.
- Não é covardia, é bom senso.
- Não tem a mínima curiosidade de saber como era o mundo antes do seu nascimento?
- Tenho. É claro que tenho – suspirou. – Foi por isso que eu estudei História – Bruce se levantou, ainda parecendo tonto. – Mas livros são seguros. Você não muda o destino da humanidade abrindo e fechando livros, ou escrevendo teses. Bom, talvez sim. De uma forma mais poética.
Ele se aproximou do trem e tocou a face metálica. Deu duas batidas leves, com os nós dos dedos. O cabelo de Wilcox, recém-assentado, ficou em pé mais uma vez.
- Não faça isso! – o professor sibilou, como se qualquer som mais alto pudesse pulverizar as máquinas.
- Espere até eu conseguir um martelo.
- Você vai, Bruce? – Moira perguntou.
Bruce olhou para ela, desfeito de todas as esperanças, e deu de ombros.
- Alguém vai precisar vigiar você dois.
- Bruce, sua covardia me espanta. Não fazia parte do seu currículo.
- Não é covardia, é bom senso.
- Não tem a mínima curiosidade de saber como era o mundo antes do seu nascimento?
- Tenho. É claro que tenho – suspirou. – Foi por isso que eu estudei História – Bruce se levantou, ainda parecendo tonto. – Mas livros são seguros. Você não muda o destino da humanidade abrindo e fechando livros, ou escrevendo teses. Bom, talvez sim. De uma forma mais poética.
Ele se aproximou do trem e tocou a face metálica. Deu duas batidas leves, com os nós dos dedos. O cabelo de Wilcox, recém-assentado, ficou em pé mais uma vez.
- Não faça isso! – o professor sibilou, como se qualquer som mais alto pudesse pulverizar as máquinas.
- Espere até eu conseguir um martelo.
- Você vai, Bruce? – Moira perguntou.
Bruce olhou para ela, desfeito de todas as esperanças, e deu de ombros.
- Alguém vai precisar vigiar você dois.
Algumas explicações de ordem técnica e uma recusa
Moira prestava atenção nos computadores, pensando em silêncio. Olhou em volta, tentando encontrar uma resposta para as questões propostas, quase ao mesmo tempo, por Wilcox e Bruce.
- Bruce, isso viaja no tempo porque é só um acelerador. Para quebrar a barreira do tempo, é preciso velocidade. Lembra que eu te disse que ele precisaria arranjar um jeito de atravessar? Então... É isso... É isso. O trem acelera, e a pessoa que está dentro é projetada para dentro da barreira de tempo. Quando o trem passar de novo pelo mesmo ponto, provavelmente a pessoa será impelida a retornar.
- Mesmo sem o trem na volta?
- Provavelmente. Wilcox, quantos quilômetros tem essa linha?
- Cinco. É uma linha circular. Praticamente um trenzinho particular.
- Faz bem o seu estilo.
- Ora, obrigado – o professor pareceu genuinamente feliz com o elogio.
Moira se aproximou dos computadores. O professor na mesma hora correu assustado, como se a garota fosse um ogro pronto para matar seu cachorrinho de estimação. Ela olhou feio – por um minuto, Bruce achou que ela tinha até rosnado, mas devia ser só ilusão sonora. Afinal, Moira seria incapaz de fazer alguma coisa.
Se bem que há alguns meses, Wilcox parecia igualmente inofensivo. Bruce voltou a encostar-se à pilastra, quase desmaiando.
Enquanto isso, Moira se inclinou para o GPS, e começou a apertar botões com calma. Parecia saber o que estava fazendo, mas Wilcox ficara cada vez mais branco e assustado. O computador principal apontou uma latitude e longitude: 51°45′07″N, 1°15′28″W. Cambridge. O programa indicava que a barreira de tempo era de trinta e dois anos.
- Opa. Temos uma janela de espaço-tempo aqui...
- Moira, meu anjinho, você ainda não solucionou meu problema do lago – Wilcox estava quase soluçando.
- Professor, o senhor sabe que o tempo não é uma entidade estática. Muito provavelmente, esses sumiços são quando você “tropeça” num buraco do tempo passado. É o mesmo problema quanto a chegar no mesmo ponto de onde você saiu – o tempo continua se mexendo, é difícil de mirar!
- E eu continuo existindo?
- Se o buraco não for grande o suficiente, sim. Você disse que dura somente alguns segundos.
- E se o buraco for grande o suficiente?
- Eu não sei... Eu nunca viajei nesse troço!
- Então, vamos para essa falha que você achou. Tenho certeza que você se divertirá muito.
Bruce ficou mais pálido do que antes.
- Eu não vou subir nesse trem!
- Bruce, isso viaja no tempo porque é só um acelerador. Para quebrar a barreira do tempo, é preciso velocidade. Lembra que eu te disse que ele precisaria arranjar um jeito de atravessar? Então... É isso... É isso. O trem acelera, e a pessoa que está dentro é projetada para dentro da barreira de tempo. Quando o trem passar de novo pelo mesmo ponto, provavelmente a pessoa será impelida a retornar.
- Mesmo sem o trem na volta?
- Provavelmente. Wilcox, quantos quilômetros tem essa linha?
- Cinco. É uma linha circular. Praticamente um trenzinho particular.
- Faz bem o seu estilo.
- Ora, obrigado – o professor pareceu genuinamente feliz com o elogio.
Moira se aproximou dos computadores. O professor na mesma hora correu assustado, como se a garota fosse um ogro pronto para matar seu cachorrinho de estimação. Ela olhou feio – por um minuto, Bruce achou que ela tinha até rosnado, mas devia ser só ilusão sonora. Afinal, Moira seria incapaz de fazer alguma coisa.
Se bem que há alguns meses, Wilcox parecia igualmente inofensivo. Bruce voltou a encostar-se à pilastra, quase desmaiando.
Enquanto isso, Moira se inclinou para o GPS, e começou a apertar botões com calma. Parecia saber o que estava fazendo, mas Wilcox ficara cada vez mais branco e assustado. O computador principal apontou uma latitude e longitude: 51°45′07″N, 1°15′28″W. Cambridge. O programa indicava que a barreira de tempo era de trinta e dois anos.
- Opa. Temos uma janela de espaço-tempo aqui...
- Moira, meu anjinho, você ainda não solucionou meu problema do lago – Wilcox estava quase soluçando.
- Professor, o senhor sabe que o tempo não é uma entidade estática. Muito provavelmente, esses sumiços são quando você “tropeça” num buraco do tempo passado. É o mesmo problema quanto a chegar no mesmo ponto de onde você saiu – o tempo continua se mexendo, é difícil de mirar!
- E eu continuo existindo?
- Se o buraco não for grande o suficiente, sim. Você disse que dura somente alguns segundos.
- E se o buraco for grande o suficiente?
- Eu não sei... Eu nunca viajei nesse troço!
- Então, vamos para essa falha que você achou. Tenho certeza que você se divertirá muito.
Bruce ficou mais pálido do que antes.
- Eu não vou subir nesse trem!
Wednesday, August 16, 2006
Saltos
Moira olhou para Bruce. Ele tampouco havia notado que tivera uma das mãos confiscadas; seu rosto ficava cada vez mais verde, e ostentava a expressão de quem poderia colocar o próprio estômago para fora.
- É um trem – Bruce disse, abobalhado, depois de algum tempo.
- Que bom que você notou.
Wilcox vestiu um par de luvas de látex e, com muita gentileza, ligou as máquinas. Houve um estampido breve, regurgitado de algum dos computadores, e então toda a estrutura de trilhos rangeu horrivelmente. O professor parecia satisfeito como nunca. Sorrindo, ele apontava dos computadores para o trem, na esperança de que os assistentes compreendessem um trocadilho ou uma piada.
- É um trem que viaja no tempo – Bruce murmurou.
- Certamente é, certamente é.
Bruce deu um passo para trás, zonzo.
- Você está bem? – Moira perguntou, sem conseguir desviar por completo os olhos dos computadores. Ela não estava verde, mas pálida de surpresa.
- Estou. Não. Não, na verdade. Me sinto estranho. Acho que vou vomitar. Será que eu poderia?...
Wilcox arregalou os olhos, horror dos horrores. Pegou uma sacolinha de papel e estendeu-a de imediato a Bruce.
- Aqui, tome. Nada de sujeira perto das máquinas.
Bruce se retirou para trás de uma pilastra. Sentou-se no chão, possibilidade que, em tempos normais, teria encarado com um olhar de desprezo, situação tão anti-higiênica que era. Temeu olhar para Moira e avistar o trem. Temeu imaginar Wilcox varando véus do tempo dentro do mesmo trem, acenando de uma das janelinhas e pronto para iniciar a Terceira Guerra Mundial ou impedir a evolução das espécies, dependendo de onde acabasse parando.
- Vide, Moira, eu tenho aqui um pequeno problema – a voz do professor ecoava pela estação. – São as falhas temporais.
- Pequenas... falhas? Quer dizer como...
- Sim, exato. Suponhamos que eu estivesse na década de cinqüenta, fazendo – bem, não que seja da sua conta – o que quer que eu estivesse fazendo na década de cinqüenta, hipoteticamente, e então atravessasse um riacho e – puft! – desaparecesse. Um momento inteiro de não-existência. E então apareço de novo e lá estou eu, no meio do riacho, e não sei quanto tempo se passou ou deixou de passar porque, na verdade, eu não estava lá. Eu estava, simplesmente, não existindo.
- Você desaparece?
- Sim. Foi por causa disso que aterrissei na cabeça daquele pobre senhor. Eu vivo dando saltos por aí. Entendeu a piada, agora?
- Não é bem o momento para isso, professor.
- Perdão, Moira, perdão. Ah, Bruce, bom vê-lo de volta!
Bruce havia levado algum tempo para reunir forças. Estava mais fantasmagórico do que nunca, e alguma coisa, talvez o fato de ter vomitado o almoço, dava-lhe uma aparência hostil.
- Certo – anunciou, bruscamente. Precisou de alguns segundos para recuperar o ar. – Certo. Vamos fingir que estamos em um ambiente normal. Um ambiente que não está cheio de pessoas de quarenta anos que vivem no quarto extra da casa dos pais e que praticam atos inomináveis com frutas porque não conseguem arranjar uma relação sadia com outro ser humano.
- Está insinuando alguma coisa, Bruce? – Wilcox pareceu ofendido.
- O quê? Não – Bruce o olhou, confuso; depois, horrorizado. – Meu Deus, não. Do que diabos estava falando?
- Nada, absolutamente. Prossiga.
Bruce assentiu e se aproximou do trem. Hesitantemente.
- Essa... coisa... viaja no tempo?
- Viaja, é claro.
- Como? Está em uma galeria subterrânea que não existia há cem anos atrás. Como é possível viajar dentro dela?
- É um trem – Bruce disse, abobalhado, depois de algum tempo.
- Que bom que você notou.
Wilcox vestiu um par de luvas de látex e, com muita gentileza, ligou as máquinas. Houve um estampido breve, regurgitado de algum dos computadores, e então toda a estrutura de trilhos rangeu horrivelmente. O professor parecia satisfeito como nunca. Sorrindo, ele apontava dos computadores para o trem, na esperança de que os assistentes compreendessem um trocadilho ou uma piada.
- É um trem que viaja no tempo – Bruce murmurou.
- Certamente é, certamente é.
Bruce deu um passo para trás, zonzo.
- Você está bem? – Moira perguntou, sem conseguir desviar por completo os olhos dos computadores. Ela não estava verde, mas pálida de surpresa.
- Estou. Não. Não, na verdade. Me sinto estranho. Acho que vou vomitar. Será que eu poderia?...
Wilcox arregalou os olhos, horror dos horrores. Pegou uma sacolinha de papel e estendeu-a de imediato a Bruce.
- Aqui, tome. Nada de sujeira perto das máquinas.
Bruce se retirou para trás de uma pilastra. Sentou-se no chão, possibilidade que, em tempos normais, teria encarado com um olhar de desprezo, situação tão anti-higiênica que era. Temeu olhar para Moira e avistar o trem. Temeu imaginar Wilcox varando véus do tempo dentro do mesmo trem, acenando de uma das janelinhas e pronto para iniciar a Terceira Guerra Mundial ou impedir a evolução das espécies, dependendo de onde acabasse parando.
- Vide, Moira, eu tenho aqui um pequeno problema – a voz do professor ecoava pela estação. – São as falhas temporais.
- Pequenas... falhas? Quer dizer como...
- Sim, exato. Suponhamos que eu estivesse na década de cinqüenta, fazendo – bem, não que seja da sua conta – o que quer que eu estivesse fazendo na década de cinqüenta, hipoteticamente, e então atravessasse um riacho e – puft! – desaparecesse. Um momento inteiro de não-existência. E então apareço de novo e lá estou eu, no meio do riacho, e não sei quanto tempo se passou ou deixou de passar porque, na verdade, eu não estava lá. Eu estava, simplesmente, não existindo.
- Você desaparece?
- Sim. Foi por causa disso que aterrissei na cabeça daquele pobre senhor. Eu vivo dando saltos por aí. Entendeu a piada, agora?
- Não é bem o momento para isso, professor.
- Perdão, Moira, perdão. Ah, Bruce, bom vê-lo de volta!
Bruce havia levado algum tempo para reunir forças. Estava mais fantasmagórico do que nunca, e alguma coisa, talvez o fato de ter vomitado o almoço, dava-lhe uma aparência hostil.
- Certo – anunciou, bruscamente. Precisou de alguns segundos para recuperar o ar. – Certo. Vamos fingir que estamos em um ambiente normal. Um ambiente que não está cheio de pessoas de quarenta anos que vivem no quarto extra da casa dos pais e que praticam atos inomináveis com frutas porque não conseguem arranjar uma relação sadia com outro ser humano.
- Está insinuando alguma coisa, Bruce? – Wilcox pareceu ofendido.
- O quê? Não – Bruce o olhou, confuso; depois, horrorizado. – Meu Deus, não. Do que diabos estava falando?
- Nada, absolutamente. Prossiga.
Bruce assentiu e se aproximou do trem. Hesitantemente.
- Essa... coisa... viaja no tempo?
- Viaja, é claro.
- Como? Está em uma galeria subterrânea que não existia há cem anos atrás. Como é possível viajar dentro dela?
Estação West Rotherhithe
Moira respirou fundo, tentando controlar o coração que batia tremendamente descompassado. Então era verdade – era tudo verdade. Wilcox tinha conseguido quebrar a barreira do tempo, ou então era vítima da maior ilusão de ótica da História da Ciência e Tecnologia.
Agarrou o braço do professor e foi caminhando com ele para longe da porta do restaurante, na direção da Oxford Street. Àquela hora, eram tantas as pessoas na rua que seria impossível ouvir o que eles diziam com atenção. Por via das dúvidas, Moira foi puxando o chocado Bruce pela manga do terno.
- Wilcox. Eu não vou perguntar o porquê... Mas eu tenho que perguntar como! – Moira finalmente cuspiu as palavras que estavam grudadas no fundo da garganta – Como é que você conseguiu?
- Consegui o quê, amorzinho?
- Quebrar a porcaria da barreira, o que você acha?!
- Ah, mas isso é um truque ótimo que eu aprendi.
- Então vai ter que contar. Ou eu vou desprogramar o GPS e dou as coordenadas pro Fahrenheit comer, juro por Deus!
Wilcox considerou a ameaça, ou pelo menos fingiu muito bem. Parou na porta da estação de Oxford Street, pouco se importando se estava atrapalhando o fluxo dos pedestres ou não (e estava – muito). Moira e Bruce o encaravam, ansiosos. Bruce parecia feito de parafina, tamanho era seu temor.
- Está bem. Eu vou mostrar. Mas vocês vão ter que vir comigo – e apontou a estação.
- De volta pro Hampton?
- Não, não. Para West Rotherhithe.
- West Rotherhithe? – Moira pareceu confusa - Que estação é essa?
O professor entrou no metrô e não respondeu. Ainda puxando Bruce pela manga do terno, Moira seguiu o chefe pelas escadas e para dentro do trem, a essa altura já um pouco mais vazio. Viajaram em silêncio por mais de meia hora, baldeando duas vezes. Em determinado momento, Wilcox saltou do trem, na estação de Rotherhithe.
Moira seguiu em silêncio, observando a plataforma vazia. Aquela, decidiamente, não era uma estação para turistas – era apertada e um pouco suja, como as estações de metrô de Londres calhavam de ser às vezes.
- Você deve saber, Moira querida, que algumas estações de metrô são desativadas para reformas. Existe, porém, uma linha inteira que não funciona mais. Ela cruzava esta estação, Rotherhithe. Estamos do lado do rio Tamisa, só para sua informação.
- E o que isso nos ajuda?
Havia uma porta, escondida num canto da estação, com uma gritante placa de “NÃO ENTRE”. E Wilcox entrou, sem cerimônia. Seus assistentes lhe seguiram por um longo corredor, cada vez mais frio e pouco iluminado. E de repente as luzes retornaram, e Bruce e Moira entraram em uma estação de metrô dos anos 1930, com ladrilhos encardidos e forração de madeira nas escadas rolantes que há muito não viam o sol.
Uma placa na parede indicava: WEST ROTHERHITHE.
A nota destoante no cenário era um trem novinho em folha, acomodado nos trilhos de mais de meio século de idade. E computadores, muitos deles. Moira podia reconhecer alguns dos aparelhos – tinha consertado a maioria deles. E o GPS, jóia da coroa, estava bem acomodado em cima de uma mesa.
- Você transformou o trem num acelerador? - Moira parecia embasbacada. Tinha agarrado a mão de Bruce, tamanho seu susto, e não se dera conta do fato.
- Oh, sim. Muito mais charmoso que um DeLorean qualquer, não? – Wilcox estava feliz da vida, quase saltitando pelo laboratório subterrâneo – E ainda tem saída para o galpão nos fundos da minha casa. É genial, não é? Ou seria genial, se eu conseguisse voltar para o mesmo lugar de onde eu saí. Semana passada eu caí dentro do rio. Isso não é bom.
Agarrou o braço do professor e foi caminhando com ele para longe da porta do restaurante, na direção da Oxford Street. Àquela hora, eram tantas as pessoas na rua que seria impossível ouvir o que eles diziam com atenção. Por via das dúvidas, Moira foi puxando o chocado Bruce pela manga do terno.
- Wilcox. Eu não vou perguntar o porquê... Mas eu tenho que perguntar como! – Moira finalmente cuspiu as palavras que estavam grudadas no fundo da garganta – Como é que você conseguiu?
- Consegui o quê, amorzinho?
- Quebrar a porcaria da barreira, o que você acha?!
- Ah, mas isso é um truque ótimo que eu aprendi.
- Então vai ter que contar. Ou eu vou desprogramar o GPS e dou as coordenadas pro Fahrenheit comer, juro por Deus!
Wilcox considerou a ameaça, ou pelo menos fingiu muito bem. Parou na porta da estação de Oxford Street, pouco se importando se estava atrapalhando o fluxo dos pedestres ou não (e estava – muito). Moira e Bruce o encaravam, ansiosos. Bruce parecia feito de parafina, tamanho era seu temor.
- Está bem. Eu vou mostrar. Mas vocês vão ter que vir comigo – e apontou a estação.
- De volta pro Hampton?
- Não, não. Para West Rotherhithe.
- West Rotherhithe? – Moira pareceu confusa - Que estação é essa?
O professor entrou no metrô e não respondeu. Ainda puxando Bruce pela manga do terno, Moira seguiu o chefe pelas escadas e para dentro do trem, a essa altura já um pouco mais vazio. Viajaram em silêncio por mais de meia hora, baldeando duas vezes. Em determinado momento, Wilcox saltou do trem, na estação de Rotherhithe.
Moira seguiu em silêncio, observando a plataforma vazia. Aquela, decidiamente, não era uma estação para turistas – era apertada e um pouco suja, como as estações de metrô de Londres calhavam de ser às vezes.
- Você deve saber, Moira querida, que algumas estações de metrô são desativadas para reformas. Existe, porém, uma linha inteira que não funciona mais. Ela cruzava esta estação, Rotherhithe. Estamos do lado do rio Tamisa, só para sua informação.
- E o que isso nos ajuda?
Havia uma porta, escondida num canto da estação, com uma gritante placa de “NÃO ENTRE”. E Wilcox entrou, sem cerimônia. Seus assistentes lhe seguiram por um longo corredor, cada vez mais frio e pouco iluminado. E de repente as luzes retornaram, e Bruce e Moira entraram em uma estação de metrô dos anos 1930, com ladrilhos encardidos e forração de madeira nas escadas rolantes que há muito não viam o sol.
Uma placa na parede indicava: WEST ROTHERHITHE.
A nota destoante no cenário era um trem novinho em folha, acomodado nos trilhos de mais de meio século de idade. E computadores, muitos deles. Moira podia reconhecer alguns dos aparelhos – tinha consertado a maioria deles. E o GPS, jóia da coroa, estava bem acomodado em cima de uma mesa.
- Você transformou o trem num acelerador? - Moira parecia embasbacada. Tinha agarrado a mão de Bruce, tamanho seu susto, e não se dera conta do fato.
- Oh, sim. Muito mais charmoso que um DeLorean qualquer, não? – Wilcox estava feliz da vida, quase saltitando pelo laboratório subterrâneo – E ainda tem saída para o galpão nos fundos da minha casa. É genial, não é? Ou seria genial, se eu conseguisse voltar para o mesmo lugar de onde eu saí. Semana passada eu caí dentro do rio. Isso não é bom.
Tuesday, August 15, 2006
Quando todas as visitas inconvenientes de Wilcox são explicadas
Wilcox sorriu.
- Vocês não demoraram muito, eh? Mais um pouco e eu teria ido comprar pipocas. Eles servem pipocas com calda de caramelo, ouvi dizer. Aqui, nas ruas. Lugar estranho.
Bruce não respondeu. Estava quase boquiaberto, sentindo-se um boçal. Não sabia se era melhor acreditar em Moira, em Wilcox ou na vozinha de sua própria consciência, aquela que lhe dizia que desistir de tudo, passar numa locadora e levar um DVD da Sandra Bullock para casa não seria uma experiência tão traumática quanto a poderia estar por vir.
- Está bem, Wilcox – Moira foi a única a falar. – Estamos ouvindo. Pode contar.
- Vão me dar algum crédito? – o professor estudou as unhas da mão esquerda com muito interesse. – E por que eu diria alguma coisa, depois do tratamento que recebi?
Bruce cerrou os dentes:
- Por favor.
- Certo. Então lá estava eu, no sossego do meu laboratório, quando fui visitado por um anjo: Eu mesmo, três meses mais velho.
- Continue.
- O eu de três meses à frente tinha conhecimento pleno do funcionamento da máquina e me ajudou a terminar de construí-la. Resolvemos alguns probleminhas aqui, outros ali, e tive minha primeira experiência no tempo.
- O restaurante?
- Não. Muito mais ousado do que isso. Visitei a minha infância!
Wilcox tirou de um dos bolsos um medalhão de ouro, com um emblema gravado.
- Vê? O brasão da minha família. Eu o tinha desde pequeno, mas o perdi aos treze anos de idade. Sempre achei que tivesse sido roubado por um velho maluco, mas não – o eu do futuro que o levou. Aqui, aqui atrás está a data. Estão vendo? Novo e brilhante demais para algo que foi feito no início do século passado, ahá. Não é incrível? – Wilcox colocou a jóia na palma de uma das mãos e a acariciou. – Feito em 1916. Mais de cem anos se passaram e este medalhão não presenciou nem a metade.
Guardou o medalhão no bolso, cantarolando.
- Depois veio Camden Town. Não pude tirar muito proveito da viagem, uma das secretárias da faculdade, por obra infeliz, acabou me reconhecendo.
- Elizabeth – Bruce murmurou, pálido.
- Ah, a própria!
- E então o restaurante? – Moira perguntou.
- E então o restaurante. Eu sabia que meu maior problema seria convencer vocês, e não vou poder fazer isso de verdade até que tenham visto a máquina e presenciado seu funcionamento.
- Você está louco, Wilcox – Bruce fechou os olhos.
- É provável. Vocês têm lido o jornal? Caí em cima de um senhor na semana passada, a caminho do restaurante, e espero que ele não tenha morrido. Seria lamentável, simplesmente lamentável.
- Vocês não demoraram muito, eh? Mais um pouco e eu teria ido comprar pipocas. Eles servem pipocas com calda de caramelo, ouvi dizer. Aqui, nas ruas. Lugar estranho.
Bruce não respondeu. Estava quase boquiaberto, sentindo-se um boçal. Não sabia se era melhor acreditar em Moira, em Wilcox ou na vozinha de sua própria consciência, aquela que lhe dizia que desistir de tudo, passar numa locadora e levar um DVD da Sandra Bullock para casa não seria uma experiência tão traumática quanto a poderia estar por vir.
- Está bem, Wilcox – Moira foi a única a falar. – Estamos ouvindo. Pode contar.
- Vão me dar algum crédito? – o professor estudou as unhas da mão esquerda com muito interesse. – E por que eu diria alguma coisa, depois do tratamento que recebi?
Bruce cerrou os dentes:
- Por favor.
- Certo. Então lá estava eu, no sossego do meu laboratório, quando fui visitado por um anjo: Eu mesmo, três meses mais velho.
- Continue.
- O eu de três meses à frente tinha conhecimento pleno do funcionamento da máquina e me ajudou a terminar de construí-la. Resolvemos alguns probleminhas aqui, outros ali, e tive minha primeira experiência no tempo.
- O restaurante?
- Não. Muito mais ousado do que isso. Visitei a minha infância!
Wilcox tirou de um dos bolsos um medalhão de ouro, com um emblema gravado.
- Vê? O brasão da minha família. Eu o tinha desde pequeno, mas o perdi aos treze anos de idade. Sempre achei que tivesse sido roubado por um velho maluco, mas não – o eu do futuro que o levou. Aqui, aqui atrás está a data. Estão vendo? Novo e brilhante demais para algo que foi feito no início do século passado, ahá. Não é incrível? – Wilcox colocou a jóia na palma de uma das mãos e a acariciou. – Feito em 1916. Mais de cem anos se passaram e este medalhão não presenciou nem a metade.
Guardou o medalhão no bolso, cantarolando.
- Depois veio Camden Town. Não pude tirar muito proveito da viagem, uma das secretárias da faculdade, por obra infeliz, acabou me reconhecendo.
- Elizabeth – Bruce murmurou, pálido.
- Ah, a própria!
- E então o restaurante? – Moira perguntou.
- E então o restaurante. Eu sabia que meu maior problema seria convencer vocês, e não vou poder fazer isso de verdade até que tenham visto a máquina e presenciado seu funcionamento.
- Você está louco, Wilcox – Bruce fechou os olhos.
- É provável. Vocês têm lido o jornal? Caí em cima de um senhor na semana passada, a caminho do restaurante, e espero que ele não tenha morrido. Seria lamentável, simplesmente lamentável.
O Verso
Moira encontrou Nicola servindo uma mesa. Ele olhou para os lados, como se esperasse a intervenção do maluco que seguira sua amiga na semana passada.
- Está tudo bem, Nicola! Meu chefe não vai invadir o restaurante! – Moira sorriu – Tem uma mesa para duas pessoas?
Somente quando os dois estavam devidamente sentados (embaixo de um retrato autografado de Gina Lollobrigida e um pôster da seleção italiana de futebol de 1982) é que Moira respondeu à pergunta de Bruce.
- Ele disse que podia provar. Você sabe, essa maluquice de viagem no tempo.
- E pode me dizer como?
- Fiz que ele ouvisse uma música, e disse para ele retornar ao passado e dizê-la para você. Obviamente, nada disso aconteceu, ou você se lembra que ele te disse alguma coisa parecida com uma letra de música na semana passada? – e, olhando o cardápio - Você vai de lasanha?
Bruce, no entanto, perdera a cor nas maçãs do rosto.
- Bruce? – Moira olhou por cima do cardápio.
- And I chanced upon a farmhouse, where the woman took me in – Bruce recitou o verso como se ele fosse um texto sagrado.
Moira derrubou o cardápio.
- Isso não está acontecendo - Moira só teve tempo de dizer isso, antes que que Bruce se levantasse e saísse correndo do restaurante.
Quando ele voltou à superfície, Alphonsine Wilcox ainda estava lá.
- Está tudo bem, Nicola! Meu chefe não vai invadir o restaurante! – Moira sorriu – Tem uma mesa para duas pessoas?
Somente quando os dois estavam devidamente sentados (embaixo de um retrato autografado de Gina Lollobrigida e um pôster da seleção italiana de futebol de 1982) é que Moira respondeu à pergunta de Bruce.
- Ele disse que podia provar. Você sabe, essa maluquice de viagem no tempo.
- E pode me dizer como?
- Fiz que ele ouvisse uma música, e disse para ele retornar ao passado e dizê-la para você. Obviamente, nada disso aconteceu, ou você se lembra que ele te disse alguma coisa parecida com uma letra de música na semana passada? – e, olhando o cardápio - Você vai de lasanha?
Bruce, no entanto, perdera a cor nas maçãs do rosto.
- Bruce? – Moira olhou por cima do cardápio.
- And I chanced upon a farmhouse, where the woman took me in – Bruce recitou o verso como se ele fosse um texto sagrado.
Moira derrubou o cardápio.
- Isso não está acontecendo - Moira só teve tempo de dizer isso, antes que que Bruce se levantasse e saísse correndo do restaurante.
Quando ele voltou à superfície, Alphonsine Wilcox ainda estava lá.
Back from Paris
Bruce esperava do lado de fora, apoquentado. Deu por sorte que Wilcox não tivesse seguido Moira; caminhou até a garota.
- Então? – perguntou. Ficara à mercê do vento, o nariz avermelhado para comprovar.
- Então? Então o quê? – Moira deu de ombros. – Wilcox só está eufórico. Nada com o que se preocupar. Você sabe. Está mais acostumado do que eu.
- Ah, é? Veremos – Bruce respondeu, a expressão de quem não cultiva fé nenhuma na humanidade. – Amanhã – completou, aliviado.
O metrô estava cheio. Conseguiu, no vagão, um lugar para Moira. Ficou em pé, observando todas as cabecinhas desconhecidas que o cercavam.
- Não te ensinaram que é falta de educação encarar os outros? – Moira indagou, sorrindo.
- Nunca se sabe o que se pode encontrar. Talvez um garçom que se pareça com... – Bruce apertou os olhos, enxergando alguma coisa do outro lado do vagão. - Wilcox?
- Um garçom parecido Wilcox?
Bruce piscou.
- Oi? Não. Era Vincent Price. Você ouviu alguém chamar meu nome?
Moira pareceu desconfiada.
- Esqueça – Bruce balançou a cabeça.
Já era noite quando se viram ao ar livre mais uma vez. As ruas estavam apinhadas de pessoas que, como eles, voltavam de mais um dia de trabalho.
- Vamos precisar comer na cozinha mais uma vez?
- Não – Moira riu. – Hoje não é um dia de muito movimento.
- Vocês aí! Parem imediatamente! – alguém gritou.
Bruce olhou para trás. Viu Wilcox atropelar duas criancinhas, receber uma chuva de tabefes de uma mãe e se desculpar antes de chegar até os dois assistentes.
- Oh, Deus. De novo não.
- Bruce! Moira! Que bom ver vocês!
- Estava nos seguindo – Bruce acusou.
- Bem, de certa forma. Eu dei um pulo no metrô. Dei um pulo. Entenderam o trocadilho? Rá!... ah. Deixem para lá, deixem para lá. Vocês ainda não podem saber. Prosseguindo. Tentei achar uma oportunidade de conversarmos antes que vocês entrassem no restaurante – Wilcox pareceu ressentido. – Não acho que aquele italiano tenha simpatizado o bastante comigo para me deixar entrar lá mais uma vez – sem avisos, sacudiu um dos ombros de Bruce. – Era o que eu queria falar! Estive com os vocês de alguns dias atrás, no restaurante do italiano!
- Eu sei – Bruce se desvencilhou bruscamente. – Eu sei, professor. É o que eu estive dizendo a semana inteira.
- Não teria feito sentido, meu assistente limitado. O eu da semana passada não saberia, de qualquer jeito.
- Certo. O quê, o quê?
Wilcox gentilmente apertou as bochechas de Moira, como se estivesse lidando com uma garotinha.
- E você, Moira, meu benzinho. Graças a você, Bruce já sabe. Ele só precisa de um estímulo para se lembrar.
Bruce segurou Moira e a afastou de Wilcox. O professor não fez menção de seguir os dois. Parecia encantado em observar os transeuntes, como se eles pertencessem a um novo universo.
- Certo – Bruce começou, quando achou que Wilcox já não podia ouvi-los. – Do que ele está falando?
- Então? – perguntou. Ficara à mercê do vento, o nariz avermelhado para comprovar.
- Então? Então o quê? – Moira deu de ombros. – Wilcox só está eufórico. Nada com o que se preocupar. Você sabe. Está mais acostumado do que eu.
- Ah, é? Veremos – Bruce respondeu, a expressão de quem não cultiva fé nenhuma na humanidade. – Amanhã – completou, aliviado.
O metrô estava cheio. Conseguiu, no vagão, um lugar para Moira. Ficou em pé, observando todas as cabecinhas desconhecidas que o cercavam.
- Não te ensinaram que é falta de educação encarar os outros? – Moira indagou, sorrindo.
- Nunca se sabe o que se pode encontrar. Talvez um garçom que se pareça com... – Bruce apertou os olhos, enxergando alguma coisa do outro lado do vagão. - Wilcox?
- Um garçom parecido Wilcox?
Bruce piscou.
- Oi? Não. Era Vincent Price. Você ouviu alguém chamar meu nome?
Moira pareceu desconfiada.
- Esqueça – Bruce balançou a cabeça.
Já era noite quando se viram ao ar livre mais uma vez. As ruas estavam apinhadas de pessoas que, como eles, voltavam de mais um dia de trabalho.
- Vamos precisar comer na cozinha mais uma vez?
- Não – Moira riu. – Hoje não é um dia de muito movimento.
- Vocês aí! Parem imediatamente! – alguém gritou.
Bruce olhou para trás. Viu Wilcox atropelar duas criancinhas, receber uma chuva de tabefes de uma mãe e se desculpar antes de chegar até os dois assistentes.
- Oh, Deus. De novo não.
- Bruce! Moira! Que bom ver vocês!
- Estava nos seguindo – Bruce acusou.
- Bem, de certa forma. Eu dei um pulo no metrô. Dei um pulo. Entenderam o trocadilho? Rá!... ah. Deixem para lá, deixem para lá. Vocês ainda não podem saber. Prosseguindo. Tentei achar uma oportunidade de conversarmos antes que vocês entrassem no restaurante – Wilcox pareceu ressentido. – Não acho que aquele italiano tenha simpatizado o bastante comigo para me deixar entrar lá mais uma vez – sem avisos, sacudiu um dos ombros de Bruce. – Era o que eu queria falar! Estive com os vocês de alguns dias atrás, no restaurante do italiano!
- Eu sei – Bruce se desvencilhou bruscamente. – Eu sei, professor. É o que eu estive dizendo a semana inteira.
- Não teria feito sentido, meu assistente limitado. O eu da semana passada não saberia, de qualquer jeito.
- Certo. O quê, o quê?
Wilcox gentilmente apertou as bochechas de Moira, como se estivesse lidando com uma garotinha.
- E você, Moira, meu benzinho. Graças a você, Bruce já sabe. Ele só precisa de um estímulo para se lembrar.
Bruce segurou Moira e a afastou de Wilcox. O professor não fez menção de seguir os dois. Parecia encantado em observar os transeuntes, como se eles pertencessem a um novo universo.
- Certo – Bruce começou, quando achou que Wilcox já não podia ouvi-los. – Do que ele está falando?
Thursday, July 27, 2006
Nada a perder
Moira cruzou os braços, pensativa. De fato, ela tinha criado a máquina - teoricamente, conseguira provar a existência dos tempos paralelos. Mas nunca alguém conseguiria quebrar a barreira. Nunca.
Mas 'nunca' é uma palavra que Moira desconhecia. Todas as coisas que "nunca" poderiam acontecer de algum modo sempre acabavam acontecendo.
- Bruce, me espera lá fora. Eu falo com ele.
- Você acha que...
- Glendoning! - ela bufou - Vai antes que ele te agarre de novo. Deixa que eu falo - e, sussurrando - Confie em mim, cara.
Bruce saiu, levando Fahreinheit, contra a vontade, pela coleira. Moira voltou a encarar Wilcox de alto a baixo, como se estivesse lidando com um fantasma.
- Você acredita em mim, não acredita, Moira? - Wilcox baixara a guarda - Porque você me criou uma máquina defeituosoa. Eu nunca consigo voltar para o exato instante de onde eu saí. Não consigo voltar nem memso para o mesmo local!
- Eu tentei te avisar que tinha um defeito no GPS, mas você não me ouviu! - Moira bufou - E como assim, "voltar"? Você está delirando, professor. Eu lhe dei um aparelho, não uma máquina capaz de quebrar barreiras!
- Eu disse que eu posso oferecer uma prova.
- Qualquer coisa?
- Qualquer coisa.
Moira pegou o walkman e colocou os fones nos ouvidos de Wilcox. Apertou um botão e um trecho de uma canção pôde ser ouvida no modo randômico:
And I chanced upon a farmhouse
Where the woman took me in
She gave me food and wine
She gave me shelter from the wind
She delayed me from my regiment
And service of my king
Many years ago
- Você "volta" no tempo e diz esse trecho de música para o Bruce. Não importa o local - Moira disse, desligando o som - Eu não acredito muito em você, racionalmente falando.
- Não se trata de racionalidade, mulher. É algo que pode mudar toda a História! É a oitava maravilha do mundo! Você não precebe?
- O que eu percebo é um sujeito com o terno cheirando a lixo e cabelo desgrenhado. Pelo menos vá se arrumar para a viagem, professor. Se o senhor está dizendo a verdade...
O sangue de Moira gelou na mesma hora. As possibilidades daquele delírio eram inifintas. Voltar no tempo! Quantas coisas alguém com más intenções poderia fazer com aquela máquina?
- Eu estou esperando com o Bruce lá fora. Hora do show, Alphonsine Wilcox.
Mas 'nunca' é uma palavra que Moira desconhecia. Todas as coisas que "nunca" poderiam acontecer de algum modo sempre acabavam acontecendo.
- Bruce, me espera lá fora. Eu falo com ele.
- Você acha que...
- Glendoning! - ela bufou - Vai antes que ele te agarre de novo. Deixa que eu falo - e, sussurrando - Confie em mim, cara.
Bruce saiu, levando Fahreinheit, contra a vontade, pela coleira. Moira voltou a encarar Wilcox de alto a baixo, como se estivesse lidando com um fantasma.
- Você acredita em mim, não acredita, Moira? - Wilcox baixara a guarda - Porque você me criou uma máquina defeituosoa. Eu nunca consigo voltar para o exato instante de onde eu saí. Não consigo voltar nem memso para o mesmo local!
- Eu tentei te avisar que tinha um defeito no GPS, mas você não me ouviu! - Moira bufou - E como assim, "voltar"? Você está delirando, professor. Eu lhe dei um aparelho, não uma máquina capaz de quebrar barreiras!
- Eu disse que eu posso oferecer uma prova.
- Qualquer coisa?
- Qualquer coisa.
Moira pegou o walkman e colocou os fones nos ouvidos de Wilcox. Apertou um botão e um trecho de uma canção pôde ser ouvida no modo randômico:
And I chanced upon a farmhouse
Where the woman took me in
She gave me food and wine
She gave me shelter from the wind
She delayed me from my regiment
And service of my king
Many years ago
- Você "volta" no tempo e diz esse trecho de música para o Bruce. Não importa o local - Moira disse, desligando o som - Eu não acredito muito em você, racionalmente falando.
- Não se trata de racionalidade, mulher. É algo que pode mudar toda a História! É a oitava maravilha do mundo! Você não precebe?
- O que eu percebo é um sujeito com o terno cheirando a lixo e cabelo desgrenhado. Pelo menos vá se arrumar para a viagem, professor. Se o senhor está dizendo a verdade...
O sangue de Moira gelou na mesma hora. As possibilidades daquele delírio eram inifintas. Voltar no tempo! Quantas coisas alguém com más intenções poderia fazer com aquela máquina?
- Eu estou esperando com o Bruce lá fora. Hora do show, Alphonsine Wilcox.
Tuesday, July 25, 2006
Em que o Prof. Wilcox pode, afinal, estar falando a verdade, e onde um desafio é sugerido
O que mais assustava Bruce não era a aparência quase maltrapilha do chefe, mas o olhar insano no rosto do mesmo.
- Preparai-vos, assistentes! Não podem imaginar o que aconteceu.
Bruce sacudiu a cabeça, desanimado. Estava perdendo o apetite.
- O que houve? – inquiriu; imediatamente pensou em sapos brotando das paredes do Parlamento, o monstro do Lago Ness sendo descoberto e um leprechaun bêbado seqüestrando a London Eye.
Wilcox, orgulhoso, raspou um pó avermelhado dos ombros. Cheirava à páprica.
- Fui capaz de realizar minha primeira experiência temporal! Agora mesmo, sob este chão em que estamos pisando! Cheire este tempero abençoado, esta dádiva de eras passadas.
Radiante, estendeu a mão para Bruce, que recuou, sentindo o pescoço latejar.
- Claro, professor. Outra hora, porém. Moira, vou pegar meu casaco. Vejo você lá fora.
O queixo de Wilcox tremulou. Num gesto relâmpago, agarrou os ombros de Moira, sacudindo a garota.
- Você acredita em mim, não acredita, Moira? Você construiu o aparelho!
- Professor, eu...
- Wilcox, largue a garota. Você vai matá-la.
Com docilidade, Wilcox se afastou. Tinha os dedos das mãos enrijecidos e um sorriso estático. A força que empregava nele era tanta que seus dentes pareciam a ponto de rachar.
- Vai ser muito interessante ouvir sua história, professor – Moira disse, recompondo-se. – Amanhã, no horário de tarbalho.
Wilcox deu um risada de desdém.
- Precisa de uma prova?
- Preparai-vos, assistentes! Não podem imaginar o que aconteceu.
Bruce sacudiu a cabeça, desanimado. Estava perdendo o apetite.
- O que houve? – inquiriu; imediatamente pensou em sapos brotando das paredes do Parlamento, o monstro do Lago Ness sendo descoberto e um leprechaun bêbado seqüestrando a London Eye.
Wilcox, orgulhoso, raspou um pó avermelhado dos ombros. Cheirava à páprica.
- Fui capaz de realizar minha primeira experiência temporal! Agora mesmo, sob este chão em que estamos pisando! Cheire este tempero abençoado, esta dádiva de eras passadas.
Radiante, estendeu a mão para Bruce, que recuou, sentindo o pescoço latejar.
- Claro, professor. Outra hora, porém. Moira, vou pegar meu casaco. Vejo você lá fora.
O queixo de Wilcox tremulou. Num gesto relâmpago, agarrou os ombros de Moira, sacudindo a garota.
- Você acredita em mim, não acredita, Moira? Você construiu o aparelho!
- Professor, eu...
- Wilcox, largue a garota. Você vai matá-la.
Com docilidade, Wilcox se afastou. Tinha os dedos das mãos enrijecidos e um sorriso estático. A força que empregava nele era tanta que seus dentes pareciam a ponto de rachar.
- Vai ser muito interessante ouvir sua história, professor – Moira disse, recompondo-se. – Amanhã, no horário de tarbalho.
Wilcox deu um risada de desdém.
- Precisa de uma prova?
Thursday, July 20, 2006
No presente (ao mesmo tempo em que a cena anterior acontece)
- Bruce, você aceita um chocolate?
Moira tinha uma caixa de bombons em cima da mesa e parecia profundamente entediada naquela segunda-feira. Wilcox não aparecera na casa no Hampton e não deixara ordens para ela. Tentava preencher o tempo com alguma coisa - ler um livro, acessar à internet - mas só sentia vontade de dormir.
Bruce pegou um dos bombons. Ainda não tinha contado do estranho encontro na casa de Sandringhan - em parte por causa do choque do garçom que na verdade era o Vincent Price. Olhando bem para ela, podia ver alguma semelhança com o tal Edward Morris - a testa, as mãos ossudas. Mas os olhos eram diferentes. Edward tinha olhos verdes e Moira tinha olhos castanhos escuros, quase pretos.
- Você tem uma foto dos seus pais? Só de curiosidade.
Moira pegou a carteira na bolsa vermelha, e passou a foto que sempre carregava consigo - seus pais posando próximos à Torre de Londres. Bruce sorriu quando viu a imagem. Edward estava certo - ela se parecia muito com a mãe. Mas o olhar inquisidor era do tal Arthur Harris, dono da "mente muito analítica" que tanto espantava Edward Morris.
- Você é bem parecida com a sua mãe.
- As pessoas costumam dizer isso - ela sorriu, guardando a foto na carteira.
- Isso lhe incomoda?
- Se ela estivesse viva, talvez me incomodasse. Minha adolescência não teria sido mole. Ela era bem brava, segundo me diziam.
- Adolescência não existe.
- A minha pelo menos não existiu mesmo - Moira riu - Enquanto todas as meninas gritavam pelo Take That na televisão, eu montava meu primeiro computador. Eu perdi minha vida.
Bruce deu risada, encasrando Moira com um sorriso meio perdido.
- Escute, o Wilcox não vem mesmo hoje.
- Assim me parece.
- Será que a gente pode ir no tal restaurante no porão jantar? Sem compromisso - ele imitou a voz de Moira, o que arrancou uma risada da garota.
- Pobre do Nicola, tendo a gente como convidado na cozinha de novo...
A frase foi interrompida pelos latidos de Fahrenheit, e a chegada de um Wilcox esfarrapado e cheirando mal. Quem visse acreditaria que ele tinha aterrisado numa lata de lixo ou qualquer coisa do gênero.
Moira tinha uma caixa de bombons em cima da mesa e parecia profundamente entediada naquela segunda-feira. Wilcox não aparecera na casa no Hampton e não deixara ordens para ela. Tentava preencher o tempo com alguma coisa - ler um livro, acessar à internet - mas só sentia vontade de dormir.
Bruce pegou um dos bombons. Ainda não tinha contado do estranho encontro na casa de Sandringhan - em parte por causa do choque do garçom que na verdade era o Vincent Price. Olhando bem para ela, podia ver alguma semelhança com o tal Edward Morris - a testa, as mãos ossudas. Mas os olhos eram diferentes. Edward tinha olhos verdes e Moira tinha olhos castanhos escuros, quase pretos.
- Você tem uma foto dos seus pais? Só de curiosidade.
Moira pegou a carteira na bolsa vermelha, e passou a foto que sempre carregava consigo - seus pais posando próximos à Torre de Londres. Bruce sorriu quando viu a imagem. Edward estava certo - ela se parecia muito com a mãe. Mas o olhar inquisidor era do tal Arthur Harris, dono da "mente muito analítica" que tanto espantava Edward Morris.
- Você é bem parecida com a sua mãe.
- As pessoas costumam dizer isso - ela sorriu, guardando a foto na carteira.
- Isso lhe incomoda?
- Se ela estivesse viva, talvez me incomodasse. Minha adolescência não teria sido mole. Ela era bem brava, segundo me diziam.
- Adolescência não existe.
- A minha pelo menos não existiu mesmo - Moira riu - Enquanto todas as meninas gritavam pelo Take That na televisão, eu montava meu primeiro computador. Eu perdi minha vida.
Bruce deu risada, encasrando Moira com um sorriso meio perdido.
- Escute, o Wilcox não vem mesmo hoje.
- Assim me parece.
- Será que a gente pode ir no tal restaurante no porão jantar? Sem compromisso - ele imitou a voz de Moira, o que arrancou uma risada da garota.
- Pobre do Nicola, tendo a gente como convidado na cozinha de novo...
A frase foi interrompida pelos latidos de Fahrenheit, e a chegada de um Wilcox esfarrapado e cheirando mal. Quem visse acreditaria que ele tinha aterrisado numa lata de lixo ou qualquer coisa do gênero.
Tuesday, July 18, 2006
No passado
O pequeno Alphonsine Wilcox tinha o queixo do pai e os cabelos da mãe. Gostava de mexer em criaturas gosmentas e de realizar experiências com sabão e vinagre.
- Hoje é a coroação da Princesa Elizabeth – informou o garoto, o peito inflado de orgulho. Era baixo para a idade.
O outro Wilcox sorriu. Aquele Wilcox já não tinha dentes bonitos e nem um fio de cabelo loiro no topo da cabeça. Tomou notas em um bloquinho de mão. Seu comportamento fascinava o mais novo.
- O senhor é meu tio ou alguma coisa? – o Wilcox do passado perguntou. – Mamãe sempre fala de um irmão que foi lutar na Guerra.
- Não, não. É diferente. Quero dizer, embora partilhemos a mesma carga genética – a exata carga genética, na verdade – e aqui esteja eu, aos sessenta e quatro anos, as coisas ficariam melhores se você me chamasse de vovô. Mas é só uma divagação.
- O quê, o quê?
- Ah! Eu me lembro dos seus sapatos. Sapatos bonitinhos, meus prediletos.
O pequeno Wilcox olhou para os próprios pés. Os sapatos escuros estavam sujos de terra, esmagando minhoquinhas e caramujos. Ele estava vestido com toda pompa necessária para um dia de coroação.
- Oh, mamãe vai ficar zangada.
O Wilcox adulto estremeceu.
- Mamãe. Vai, vai sim. Eu também me lembro.
Uma das empregadas da casa começou a chamar o nome de Alphonsine, que ecoou pelo campo. O garoto se assustou, agachou e recolheu suas ferramentas de trabalho.
- Preciso ir. É a Emma.
- Emma? Emma, cara de rato?
- É, ela tem mesmo. Vou ver o senhor de novo, vovô?
- Daqui a cinqüenta anos, mais ou menos.
- Quanto tempo!
- Você vai viver, meu pequerrucho, não se preocupe.
O pequeno Wilcox acenou enquanto corria para casa. Não tinha dotes atléticos, via-se de longe. O Prof. Wilcox não se lamentou. Sabia que aquela inaptidão quanto às atividades físicas o levaria, eventualmente, ao tapete da biblioteca do pai, onde enfim desenvolveria sua maior paixão. Marilyn Monroe.
- Hoje é a coroação da Princesa Elizabeth – informou o garoto, o peito inflado de orgulho. Era baixo para a idade.
O outro Wilcox sorriu. Aquele Wilcox já não tinha dentes bonitos e nem um fio de cabelo loiro no topo da cabeça. Tomou notas em um bloquinho de mão. Seu comportamento fascinava o mais novo.
- O senhor é meu tio ou alguma coisa? – o Wilcox do passado perguntou. – Mamãe sempre fala de um irmão que foi lutar na Guerra.
- Não, não. É diferente. Quero dizer, embora partilhemos a mesma carga genética – a exata carga genética, na verdade – e aqui esteja eu, aos sessenta e quatro anos, as coisas ficariam melhores se você me chamasse de vovô. Mas é só uma divagação.
- O quê, o quê?
- Ah! Eu me lembro dos seus sapatos. Sapatos bonitinhos, meus prediletos.
O pequeno Wilcox olhou para os próprios pés. Os sapatos escuros estavam sujos de terra, esmagando minhoquinhas e caramujos. Ele estava vestido com toda pompa necessária para um dia de coroação.
- Oh, mamãe vai ficar zangada.
O Wilcox adulto estremeceu.
- Mamãe. Vai, vai sim. Eu também me lembro.
Uma das empregadas da casa começou a chamar o nome de Alphonsine, que ecoou pelo campo. O garoto se assustou, agachou e recolheu suas ferramentas de trabalho.
- Preciso ir. É a Emma.
- Emma? Emma, cara de rato?
- É, ela tem mesmo. Vou ver o senhor de novo, vovô?
- Daqui a cinqüenta anos, mais ou menos.
- Quanto tempo!
- Você vai viver, meu pequerrucho, não se preocupe.
O pequeno Wilcox acenou enquanto corria para casa. Não tinha dotes atléticos, via-se de longe. O Prof. Wilcox não se lamentou. Sabia que aquela inaptidão quanto às atividades físicas o levaria, eventualmente, ao tapete da biblioteca do pai, onde enfim desenvolveria sua maior paixão. Marilyn Monroe.
Um Acidente (Tempo Presente, Tempo Pretérito)
Edward sempre lembrava da cena. Era dezembro, estava frio e as estradas estavam perigosas por causa da neve. Arthur estava no carro, buzinando insistentemente.
- Eu volto na quinta. Você tem certeza que consegue tomar conta da Moira direito, pai?
Stella e seu cabelo liso, seu suéter verde, seu eterno ar de preocupação. Stella que se chamava assim por causa de uma canção, Stella by Starlight. Era a canção favorita de Adelaide (se fosse um menino, Edward ia batizá-lo como George).
Stella batendo os pés no assoalho, irritada com a buzina do lado de fora, os lábios finos se contorcendo numa careta chateada.
- Arthur vai me enlouquecer, pai. Por que ele tem que ser tão apressado?
Stella saindo pela porta, jogando um beijo no ar frio, entrando no carro, partindo.
Moira, dormindo em um cesto, a imagem da paz e da calma. E dali a três horas o policial aparecera naquela mesma soleira, “o senhor é o pai de Stella Harris?”, Adelaide desmaiando, toda a tragédia esperada num acidente como aquele.
Edward passara três dias sem dormir. O que fazer com Moira? Os avós paternos tinham deserdado Arthur, a menina não tinha mais ninguém. Então ela ficara ali. Crescera ali. Parecia muito com Stella, mas tinha a mente – e os olhos – de Arthur Harris. Era esperta.
Sentado em seu sofá preferido, após a festa, Edward Morris pensava em Bruce e Moira e nas estranhas coincidências que entremeavam a vida deles. Moira não perguntava nunca sobre os pais. O “tempo pretérito”, como ela dizia, lhe dava medo. Nunca lera os diários da mãe, nunca se interessara pelos livros do pai. Como crescera num vácuo temporal, em que ‘pai’ e ‘mãe’ não eram representados por ninguém e 'passado' significava 'dor', ela se isolara no presente.
Por algum motivo que não sabia compreender, Edward sentia-se estranhamente incomodado pelo fato de Moira trabalhar com Bruce. Talvez por ter conhecido o pai de Bruce, uma alma inteligente presa num corpo que só funcionava com álcool – quantidades cada vez mais gritantes de álcool.
Temeu por um instante que o passado se repetisse como maldição, mas caíra no sono antes de desenvolver a tese por completo. Bruce parecia perfeitamente normal, para as condições onde vivia. Talvez não fosse o caso de esperar uma repetição de histórias.
- Eu volto na quinta. Você tem certeza que consegue tomar conta da Moira direito, pai?
Stella e seu cabelo liso, seu suéter verde, seu eterno ar de preocupação. Stella que se chamava assim por causa de uma canção, Stella by Starlight. Era a canção favorita de Adelaide (se fosse um menino, Edward ia batizá-lo como George).
Stella batendo os pés no assoalho, irritada com a buzina do lado de fora, os lábios finos se contorcendo numa careta chateada.
- Arthur vai me enlouquecer, pai. Por que ele tem que ser tão apressado?
Stella saindo pela porta, jogando um beijo no ar frio, entrando no carro, partindo.
Moira, dormindo em um cesto, a imagem da paz e da calma. E dali a três horas o policial aparecera naquela mesma soleira, “o senhor é o pai de Stella Harris?”, Adelaide desmaiando, toda a tragédia esperada num acidente como aquele.
Edward passara três dias sem dormir. O que fazer com Moira? Os avós paternos tinham deserdado Arthur, a menina não tinha mais ninguém. Então ela ficara ali. Crescera ali. Parecia muito com Stella, mas tinha a mente – e os olhos – de Arthur Harris. Era esperta.
Sentado em seu sofá preferido, após a festa, Edward Morris pensava em Bruce e Moira e nas estranhas coincidências que entremeavam a vida deles. Moira não perguntava nunca sobre os pais. O “tempo pretérito”, como ela dizia, lhe dava medo. Nunca lera os diários da mãe, nunca se interessara pelos livros do pai. Como crescera num vácuo temporal, em que ‘pai’ e ‘mãe’ não eram representados por ninguém e 'passado' significava 'dor', ela se isolara no presente.
Por algum motivo que não sabia compreender, Edward sentia-se estranhamente incomodado pelo fato de Moira trabalhar com Bruce. Talvez por ter conhecido o pai de Bruce, uma alma inteligente presa num corpo que só funcionava com álcool – quantidades cada vez mais gritantes de álcool.
Temeu por um instante que o passado se repetisse como maldição, mas caíra no sono antes de desenvolver a tese por completo. Bruce parecia perfeitamente normal, para as condições onde vivia. Talvez não fosse o caso de esperar uma repetição de histórias.
House on Haunted Hill
- E Moira, sua única neta, trabalha para o Prof. Wilcox? – Bruce perguntou, embora tivesse certeza de qual seria a resposta.
Edward pareceu surpreso.
- Wilcox – murmurou. – Acho que é mesmo o nome dele. Como sabia?
Bruce sorriu. Aceitou o copo de conhaque que um garçom lhe ofereceu depois de insistência louvável. Quase sofreu uma parada cardíaca ao reparar que o garçom era Vincent Price.
- Acontece que - tentou voltar sua atenção a Edward – Acontece que, uma das infelicidades da vida, ele também é meu chefe. Mãe, aquele garçom não se parece com...
Honoria deu uma risada, cortando o pensamento do filho.
- Bruce, mas que coincidência! Quem diria, Edward, naquela imensidão que é Londres, sua neta e meu filho trabalhando juntos? E sem a menor idéia de que já se conhecem!
Bruce quase engasgou. Limpou o canto da boca com a ponta da manga.
- Desculpe. “Se conhecem”?
- É claro que você não lembra. Foi antes de Rob. Antes do seu pai... – Honoria fez uma pausa. Finalizou a frase com um gesto de mão e prosseguiu. – Bem, foi em uma festa. Como era o nome daquela senhora? Howard? Olívia Howard? Deus a abençoe, já morreu também.
- Seria mais um daqueles pedaços da minha vida que eu apaguei?
- Não seja tão duro consigo mesmo, você tinha sete anos. E Moira ainda era muito pequena, não saía do colo da mãe.
- Moira tinha dois anos – Edward acrescentou. – Eu me lembro da festa.
Bruce assentiu, vagamente perturbado.
- Isso é... com certeza...
- Uma enorme coincidência.
- E o tipo de informação que meu chefe jamais vai poder receber.
- Pelo menos você não vai ficar tão sozinho naquela cidade. Meu Deus, Edward!
Tanto Bruce quanto Edward se assustaram. Honoria não percebeu; a vida ganhara um novo sentido.
- Falando em Olívia Howard, tem uma pessoa que você precisa conhecer. Venha comigo, por favor – e voltou-se para o filho. – Bruce, você vai ficar por aí, não vai?
- Claro. Como uma rocha.
- Ótimo. E não se esqueça de procurar Rob.
Bruce não procurou Rob, ainda que quisesse. A presença fantasmagórica de Vincent Price ameaçando cruzar seu caminho, ele não pretendia ressuscitar outros traumas de infância.
Com a maioria dos convidados nos jardins, a casa estava quase vazia. Na sala, um grupinho de meninos havia descoberto os jogos de tabuleiro de Finnegan. O próprio Finnegan não estava entre eles. Bruce o encontrou no quarto, entretido com o vídeo-game.
- Ah, oi. Como é que está a festa? – Finnegan perguntou, os olhos grudados na tela.
Bruce sentou-se na cama, ouvindo-a ranger. Puxou a manga do paletó e consultou o relógio. Faltava pouco para a meia-noite.
- Vai bem. Como uma festa deve ser, acho. Quase meia-noite... Deus.
Finnegan soltou um muxoxo.
- Veio muita gente?
- Bastante.
- Excelente.
- Talvez não seja a melhor das notícias, mas vi, por acaso, algumas crianças acabando com os seus jogos de Dungeons & Dragons.
- Não tem problema. Só não quero que subam até aqui.
Bruce riu; tirou os sapatos e se deitou na cama. As revistinhas de Finnegan estavam largadas no chão. Ele recolheu (com cautela) aquela que quase o matara do coração durante a viagem de ônibus.
- Ei, você ainda trabalha para o esquisitão? – Finnegan perguntou de modo repentino.
Bruce baixou a revista. Finnegan e Wilcox haviam se encontrado uma única vez, ocasião em que o professor gargalhara por quinze minutos seguidos antes de admitir algum parentesco entre os dois. Tendo se convencido, prosseguiu com um comportamento ainda mais anormal: endereçou um questionário frívolo e gigantesco ao garoto. Finnegan, então com quinze anos, reportou-o quando voltou a ficar a sós com o irmão.
- Ele me perguntou se você prefere praia ou montanha. Molho inglês ou molho branco.
- Que diabos?
- Ele também quis saber se você come espaguete com a ajuda de uma faca ou de uma colher.
Embora Wilcox não tivesse voltado a vê-lo, sempre recordava Finnegan como um amigo querido. Chamava-o de proto-Bruce.
- Ainda trabalho, sim.
- O que você faz para ele?
- Mapas. E ele está trabalhando na teoria de viagem temporal.
Finnigan largou o console do vídeo-game. Pareceu interessado.
- Como é?
- Viagem temporal. Máquina do tempo.
- Sim, eu ouvi. Mas não de verdade, certo?
- Não de verdade?
- Não como uma máquina do tempo que... realmente, realmente volte no tempo, não? Mas como uma... teoria?
- É, como uma teoria. Livros e cálculos. E também há uma garota que conserta computadores.
A lembrança de Moira fez com que Bruce se esquecesse, por um momento, do professor. Colocou a revistinha aberta sobre o peito, desistindo de tentar levar adiante a leitura.
- Finn...
- O quê?
- Você conhece aquele amigo da mamãe? Edward Morris?
- Edward Morris?
Finnegan pressionava com tanta força os botões do controle que Bruce não deu uma expectativa de vida maior do que três meses para o aparelho inteiro.
- Tempo. Isso é Mario Kart?
Finnegan mordeu os lábios:
- É claro que é Mario Kart. Só falta um circuito.
- Eu tive um Mario Kart. Céus, que péssimo jogador eu era. Enfim, Edward Morris.
- É um senhor, não é? – Finnegan perguntou. – Um floricultor.
- Jardineiro.
- É, eu conheço.
- Já viu a neta dele por aqui?
- Não. Não sabia que ele tinha uma. Por quê?
- Por nada – Bruce suspirou e fechou os olhos.
Cochilou ao som de musiquinhas temáticas e dos gemidos raivosos de Finnegan. Sonhou com um homenzinho bigodudo e de macacão vermelho que lhe explicava a questão por trás das experiências de Wilcox.
- Como pode ver, Prof. Glendoning, uma vez que vocês encontraram a fenda, a partir de agora é alto-e-avante e alegria e alegria de tão simples.
- Pensei que fosse a parte complicada.
Bruce queria perguntar por que estava usando um chapéu com orelhas de burro, mas não pareceu apropriado interromper o homenzinho.
- É claro que não. Não para uma mente genial como a do seu chefe. O senhor vê, a carga exata de propulsão energética pode lançar o condutível – a máquina do tempo, neste caso o potinho de iogurte no qual todos vocês vão viajar – através de finas camadas temporais que separam os eventos da nossa época dos do Woodstock.
- Já ouvi isso antes. Por que você fala como o meu professor de Estudos Sociais?
- Não faço a menor idéia. Quer provar um pouco de torta?
- Então eu posso estar em Londres e de repente ser arremessado para Hong Kong?
O homenzinho franziu o cenho, decepcionado.
- A posição geográfica ainda é uma questão discutível.
- Então quer dizer que posso ser arremessado ao mar aberto?
- Sim, mas eu não aconselharia. Muitas criaturas moram por lá. E o Kraken, que terror seria.
- Bruce? – alguém o sacudiu por um ombro.
Bruce despertou, assustado, dando de cara com Rob. O quarto estava escuro, o homenzinho de macacão vermelho havia desaparecido. A televisão e o vídeo-game estavam desligados. Não havia sinal de Finnegan.
- Oi – Bruce se levantou, esfregando os olhos. Olhou em volta. – Oi, Rob. Feliz aniversário. Que horas são?
- Quase uma da manhã.
Bruce deu uma risada amargurada. Calçou os sapatos.
- Desculpe. Eu acho que desmaiei.
- Tudo bem. Alguns convidados já se retiraram, mas sobrou bastante gente.
- Vincent Price ainda está por aí?
- Vincent Price?
Rob O’Hara era um homem baixo (não de verdade; mas era a impressão que passava estando perto de Bruce), moreno e de traços irlandeses, tão obcecado pela época Georgiana que não poucas vezes Bruce ponderou se o padrasto, ao acaso, não havia nascido no século errado. Parecia-se muito com Finnegan, cuja única coisa herdada de Honoria eram suas mãos de pianista.
Os dois desceram até a sala, Bruce sonolento e tropeçando. Finnegan estava arrumando os jogos que haviam sido vandalizados pelas crianças. Não parecia no melhor dos humores.
- Bruce! – Honoria caminhou na direção do filho mais velho. Tinha aquela expressão da época em que o repreendia por comer de boca aberta ou por não cumprimentar as visitas. – O que houve com você?
- Por onde começar?
- Tantas pessoas querendo vê-lo! Edward Morris queria se despedir!
- As pessoas vão encontrar um modo de perdoar a minha ausência. E se a Moira que trabalha comigo é mesmo a Moira dele, vou acabar encontrando-o, por aí. Soluções simples para problemas catastróficos.
Honoria ergueu uma sobrancelha cheia de incredulidade.
- Se diz.
Afastou-se para cuidar dos convidados restantes. Vendo-se livre, Bruce acomodou-se em um dos sofás, assistindo o trabalho minucioso de Finnegan.
- Mais conhaque, senhor? – um braço lânguido e metido em uma manga negra esticou-se para exibir a bandeja.
Bruce arregalou os olhos.
Edward pareceu surpreso.
- Wilcox – murmurou. – Acho que é mesmo o nome dele. Como sabia?
Bruce sorriu. Aceitou o copo de conhaque que um garçom lhe ofereceu depois de insistência louvável. Quase sofreu uma parada cardíaca ao reparar que o garçom era Vincent Price.
- Acontece que - tentou voltar sua atenção a Edward – Acontece que, uma das infelicidades da vida, ele também é meu chefe. Mãe, aquele garçom não se parece com...
Honoria deu uma risada, cortando o pensamento do filho.
- Bruce, mas que coincidência! Quem diria, Edward, naquela imensidão que é Londres, sua neta e meu filho trabalhando juntos? E sem a menor idéia de que já se conhecem!
Bruce quase engasgou. Limpou o canto da boca com a ponta da manga.
- Desculpe. “Se conhecem”?
- É claro que você não lembra. Foi antes de Rob. Antes do seu pai... – Honoria fez uma pausa. Finalizou a frase com um gesto de mão e prosseguiu. – Bem, foi em uma festa. Como era o nome daquela senhora? Howard? Olívia Howard? Deus a abençoe, já morreu também.
- Seria mais um daqueles pedaços da minha vida que eu apaguei?
- Não seja tão duro consigo mesmo, você tinha sete anos. E Moira ainda era muito pequena, não saía do colo da mãe.
- Moira tinha dois anos – Edward acrescentou. – Eu me lembro da festa.
Bruce assentiu, vagamente perturbado.
- Isso é... com certeza...
- Uma enorme coincidência.
- E o tipo de informação que meu chefe jamais vai poder receber.
- Pelo menos você não vai ficar tão sozinho naquela cidade. Meu Deus, Edward!
Tanto Bruce quanto Edward se assustaram. Honoria não percebeu; a vida ganhara um novo sentido.
- Falando em Olívia Howard, tem uma pessoa que você precisa conhecer. Venha comigo, por favor – e voltou-se para o filho. – Bruce, você vai ficar por aí, não vai?
- Claro. Como uma rocha.
- Ótimo. E não se esqueça de procurar Rob.
Bruce não procurou Rob, ainda que quisesse. A presença fantasmagórica de Vincent Price ameaçando cruzar seu caminho, ele não pretendia ressuscitar outros traumas de infância.
Com a maioria dos convidados nos jardins, a casa estava quase vazia. Na sala, um grupinho de meninos havia descoberto os jogos de tabuleiro de Finnegan. O próprio Finnegan não estava entre eles. Bruce o encontrou no quarto, entretido com o vídeo-game.
- Ah, oi. Como é que está a festa? – Finnegan perguntou, os olhos grudados na tela.
Bruce sentou-se na cama, ouvindo-a ranger. Puxou a manga do paletó e consultou o relógio. Faltava pouco para a meia-noite.
- Vai bem. Como uma festa deve ser, acho. Quase meia-noite... Deus.
Finnegan soltou um muxoxo.
- Veio muita gente?
- Bastante.
- Excelente.
- Talvez não seja a melhor das notícias, mas vi, por acaso, algumas crianças acabando com os seus jogos de Dungeons & Dragons.
- Não tem problema. Só não quero que subam até aqui.
Bruce riu; tirou os sapatos e se deitou na cama. As revistinhas de Finnegan estavam largadas no chão. Ele recolheu (com cautela) aquela que quase o matara do coração durante a viagem de ônibus.
- Ei, você ainda trabalha para o esquisitão? – Finnegan perguntou de modo repentino.
Bruce baixou a revista. Finnegan e Wilcox haviam se encontrado uma única vez, ocasião em que o professor gargalhara por quinze minutos seguidos antes de admitir algum parentesco entre os dois. Tendo se convencido, prosseguiu com um comportamento ainda mais anormal: endereçou um questionário frívolo e gigantesco ao garoto. Finnegan, então com quinze anos, reportou-o quando voltou a ficar a sós com o irmão.
- Ele me perguntou se você prefere praia ou montanha. Molho inglês ou molho branco.
- Que diabos?
- Ele também quis saber se você come espaguete com a ajuda de uma faca ou de uma colher.
Embora Wilcox não tivesse voltado a vê-lo, sempre recordava Finnegan como um amigo querido. Chamava-o de proto-Bruce.
- Ainda trabalho, sim.
- O que você faz para ele?
- Mapas. E ele está trabalhando na teoria de viagem temporal.
Finnigan largou o console do vídeo-game. Pareceu interessado.
- Como é?
- Viagem temporal. Máquina do tempo.
- Sim, eu ouvi. Mas não de verdade, certo?
- Não de verdade?
- Não como uma máquina do tempo que... realmente, realmente volte no tempo, não? Mas como uma... teoria?
- É, como uma teoria. Livros e cálculos. E também há uma garota que conserta computadores.
A lembrança de Moira fez com que Bruce se esquecesse, por um momento, do professor. Colocou a revistinha aberta sobre o peito, desistindo de tentar levar adiante a leitura.
- Finn...
- O quê?
- Você conhece aquele amigo da mamãe? Edward Morris?
- Edward Morris?
Finnegan pressionava com tanta força os botões do controle que Bruce não deu uma expectativa de vida maior do que três meses para o aparelho inteiro.
- Tempo. Isso é Mario Kart?
Finnegan mordeu os lábios:
- É claro que é Mario Kart. Só falta um circuito.
- Eu tive um Mario Kart. Céus, que péssimo jogador eu era. Enfim, Edward Morris.
- É um senhor, não é? – Finnegan perguntou. – Um floricultor.
- Jardineiro.
- É, eu conheço.
- Já viu a neta dele por aqui?
- Não. Não sabia que ele tinha uma. Por quê?
- Por nada – Bruce suspirou e fechou os olhos.
Cochilou ao som de musiquinhas temáticas e dos gemidos raivosos de Finnegan. Sonhou com um homenzinho bigodudo e de macacão vermelho que lhe explicava a questão por trás das experiências de Wilcox.
- Como pode ver, Prof. Glendoning, uma vez que vocês encontraram a fenda, a partir de agora é alto-e-avante e alegria e alegria de tão simples.
- Pensei que fosse a parte complicada.
Bruce queria perguntar por que estava usando um chapéu com orelhas de burro, mas não pareceu apropriado interromper o homenzinho.
- É claro que não. Não para uma mente genial como a do seu chefe. O senhor vê, a carga exata de propulsão energética pode lançar o condutível – a máquina do tempo, neste caso o potinho de iogurte no qual todos vocês vão viajar – através de finas camadas temporais que separam os eventos da nossa época dos do Woodstock.
- Já ouvi isso antes. Por que você fala como o meu professor de Estudos Sociais?
- Não faço a menor idéia. Quer provar um pouco de torta?
- Então eu posso estar em Londres e de repente ser arremessado para Hong Kong?
O homenzinho franziu o cenho, decepcionado.
- A posição geográfica ainda é uma questão discutível.
- Então quer dizer que posso ser arremessado ao mar aberto?
- Sim, mas eu não aconselharia. Muitas criaturas moram por lá. E o Kraken, que terror seria.
- Bruce? – alguém o sacudiu por um ombro.
Bruce despertou, assustado, dando de cara com Rob. O quarto estava escuro, o homenzinho de macacão vermelho havia desaparecido. A televisão e o vídeo-game estavam desligados. Não havia sinal de Finnegan.
- Oi – Bruce se levantou, esfregando os olhos. Olhou em volta. – Oi, Rob. Feliz aniversário. Que horas são?
- Quase uma da manhã.
Bruce deu uma risada amargurada. Calçou os sapatos.
- Desculpe. Eu acho que desmaiei.
- Tudo bem. Alguns convidados já se retiraram, mas sobrou bastante gente.
- Vincent Price ainda está por aí?
- Vincent Price?
Rob O’Hara era um homem baixo (não de verdade; mas era a impressão que passava estando perto de Bruce), moreno e de traços irlandeses, tão obcecado pela época Georgiana que não poucas vezes Bruce ponderou se o padrasto, ao acaso, não havia nascido no século errado. Parecia-se muito com Finnegan, cuja única coisa herdada de Honoria eram suas mãos de pianista.
Os dois desceram até a sala, Bruce sonolento e tropeçando. Finnegan estava arrumando os jogos que haviam sido vandalizados pelas crianças. Não parecia no melhor dos humores.
- Bruce! – Honoria caminhou na direção do filho mais velho. Tinha aquela expressão da época em que o repreendia por comer de boca aberta ou por não cumprimentar as visitas. – O que houve com você?
- Por onde começar?
- Tantas pessoas querendo vê-lo! Edward Morris queria se despedir!
- As pessoas vão encontrar um modo de perdoar a minha ausência. E se a Moira que trabalha comigo é mesmo a Moira dele, vou acabar encontrando-o, por aí. Soluções simples para problemas catastróficos.
Honoria ergueu uma sobrancelha cheia de incredulidade.
- Se diz.
Afastou-se para cuidar dos convidados restantes. Vendo-se livre, Bruce acomodou-se em um dos sofás, assistindo o trabalho minucioso de Finnegan.
- Mais conhaque, senhor? – um braço lânguido e metido em uma manga negra esticou-se para exibir a bandeja.
Bruce arregalou os olhos.
Monday, July 03, 2006
O mundo é pequeno demais
Edward sorriu calmamente, enquanto afagava a mão de Honoria em seu ombro. A idade tinha lhe caído como um manto, não como um fardo - ele tinha a cabeça erguida e sorria sempre, mantendo um bom humor que parecia inalterável. Não parecia um velho que só se quixava da vida e da artrose (embora esta última fosse bem visível nos nós dos dedos). De onde o tal Edward conhecia o pai de Bruce parecia óbvio, bastava ver as roupas do visitante: simples, mas bem cuidadas. Os dois provavelmente se conheciam do The Trooper, o pub local.
- Não se preocupe, Honoria querida. Você sabe que eu sou especialista nisso.
E para Bruce, com ar maroto:
- Minha neta faz a mesma coisa quando está nervosa. Uma pena que ela não pôde vir me visitar este fim de semana. O trabalho anda cansando a coitada.
- Sua neta mora na cidade? - Bruce perguntou só para ser educado.
- Não. Londres. Conserta computadores. Trabalho pesado.
Ah, não. O mundo não é tão pequeno assim. Existem muitas garotas que trabalham com computação, Bruce pensou enquanto afundava na cadeira. OK, só porque eu não conheço nenhuma além de Moira Harris não significa que não existam outras garotas que consertem computadores em Londres.
- É uma profissão incomum, pruma menina.
- Eu também acho, mas ela puxou ao pai. O Arthur, Deus o tenha, consertava qualquer coisa que lhe pusessem na frente. Mente muito analítica - Edward disse, mantendo o sorriso no rosto - Às vezes eu me pergunto o que é que minha filha viu nele! Ela se formou em História, afinal.
- Os opostos se atraem.
- É um clichê e, como todo clichê, tem um fundo de verdade. Minha neta é parecida com a mãe fisicamente, o rosto em especial, mas a mente é Arthur Harris do começo ao fim. Imagine você que ela aprendeu a programar computadores com doze anos. Mas, Deus do céu, alguém me impeça de soar como um velho coruja e gagá! - Edward deu uma risadinha.
- Seus outros netos vão ficar com inveja - Bruce tentou ser engraçado.
Edward deu de ombros quanto à pretensa piada.
- Quanto a isso, nada a temer, Bruce. Moira é minha única neta, filha única de filhos únicos.
- Não se preocupe, Honoria querida. Você sabe que eu sou especialista nisso.
E para Bruce, com ar maroto:
- Minha neta faz a mesma coisa quando está nervosa. Uma pena que ela não pôde vir me visitar este fim de semana. O trabalho anda cansando a coitada.
- Sua neta mora na cidade? - Bruce perguntou só para ser educado.
- Não. Londres. Conserta computadores. Trabalho pesado.
Ah, não. O mundo não é tão pequeno assim. Existem muitas garotas que trabalham com computação, Bruce pensou enquanto afundava na cadeira. OK, só porque eu não conheço nenhuma além de Moira Harris não significa que não existam outras garotas que consertem computadores em Londres.
- É uma profissão incomum, pruma menina.
- Eu também acho, mas ela puxou ao pai. O Arthur, Deus o tenha, consertava qualquer coisa que lhe pusessem na frente. Mente muito analítica - Edward disse, mantendo o sorriso no rosto - Às vezes eu me pergunto o que é que minha filha viu nele! Ela se formou em História, afinal.
- Os opostos se atraem.
- É um clichê e, como todo clichê, tem um fundo de verdade. Minha neta é parecida com a mãe fisicamente, o rosto em especial, mas a mente é Arthur Harris do começo ao fim. Imagine você que ela aprendeu a programar computadores com doze anos. Mas, Deus do céu, alguém me impeça de soar como um velho coruja e gagá! - Edward deu uma risadinha.
- Seus outros netos vão ficar com inveja - Bruce tentou ser engraçado.
Edward deu de ombros quanto à pretensa piada.
- Quanto a isso, nada a temer, Bruce. Moira é minha única neta, filha única de filhos únicos.
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